sábado, 25 de dezembro de 2010

Dia de Natal

Mais católico e tradicional



ou mais do ano inteiro, porque sim e sempre


o Natal é tempo de aconchego e ternura, com todos nós mais simples e crianças. Talvez por isso haja mais sorrisos de boa vontade... e eu gosto.

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

Dia Internacional da Solidariedade Humana

Primeiro levaram os negros
Mas não me importei com isso
Eu não era negro

Em seguida levaram alguns operários

Mas não me importei com isso
Eu também não era operário

Depois prenderam os miseráveis
Mas não me importei com isso
Porque eu não sou miserável

Depois agarraram uns desempregados
Mas como tenho meu emprego
Também não me importei
Agora estão me levando
Mas já é tarde.

Como eu não me importei com ninguém
Ninguém se importa comigo.

Bertold Brecht (1898-1956)

RETRATO DE MÓNICA
Mónica é uma pessoa tão extraordinária que consegue simultaneamente: ser boa mãe de família, ser chiquíssima, ser dirigente da «Liga Internacional das Mulheres Inúteis», ajudar o marido nos negócios, fazer ginástica todas as manhãs, ser pontual, ter imensos amigos, dar muitos jantares, ir a muitos jantares, não fumar, não envelhecer, gostar de toda a gente, gostar dela, dizer bem de toda a gente, toda a gente dizer bem dela, coleccionar colheres do séc. XVII, jogar golfe, deitar-se tarde, levantar-se cedo, comer iogurte, fazer ioga, gostar de pintura abstracta, ser sócia de todas as sociedades musicais, estar sempre divertida, ser um belo exemplo de virtudes, ter muito sucesso e ser muito séria. (...)

Pode-se dizer que Mónica trabalha de sol a sol.

De facto, para conquistar todo o sucesso e todos os gloriosos bens que possui, Mónica teve que renunciar a três coisas: à poesia, ao amor e à santidade. (...)

Ela é íntima de mandarins e de banqueiros e é também íntima de manicuras, caixeiros e cabeleireiros. Quando ela chega a um cabeleireiro ou a uma loja, fala sempre com a voz num tom mais elevado para que todos compreendam que ela chegou. E precipitam-se manicuras e caixeiros. A chegada de Mónica é, em toda a parte, sempre um sucesso. Quando ela está na praia, o próprio Sol se enerva.

O marido de Mónica é um pobre diabo que Mónica transformou num homem importantíssimo. Deste marido maçador Mónica tem tirado o máximo rendimento. Ela ajuda-o, aconselha-o, governa-o. Quando ele é nomeado administrador de mais alguma coisa, é Mónica que é nomeada. Eles não são o homem e a mulher. Não são o casamento. São, antes, dois sócios trabalhando para o triunfo da mesma firma. O contrato que os une é indissolúvel, pois o divórcio arruína as situações mundanas. O mundo dos negócios é bem-pensante.
É por isso que Mónica, tendo renunciado à santidade, se dedica com grande dinamismo a obras de caridade. Ela faz casacos de tricot para as crianças que os seus amigos condenam à fome. Às vezes, quando os casacos estão prontos, as crianças já morreram de fome. Mas a vida continua. E o sucesso de Mónica também. Ela todos os anos parece mais nova. A miséria, a humilhação, a ruína não roçam sequer a fímbria dos seus vestidos. Entre ela e os humilhados e ofendidos não há nada de comum.(...)

Há vários meses que não vejo Mónica. Ultimamente contaram-me que em certa festa ela estivera muito tempo conversando com o Príncipe deste Mundo. Falavam os dois com grande intimidade. Nisto não há evidentemente, nenhum mal. Toda a gente sabe que Mónica é seriíssima toda a gente sabe que o Príncipe deste Mundo é um homem austero e casto.

Não é o desejo do amor que os une. O que os une e justamente uma vontade sem amor.
E é natural que ele mostre publicamente a sua gratidão por Mónica. Todos sabemos que ela é o seu maior apoio; mais firme fundamento do seu poder.

Sophia de Mello Breyner Andresen
Contos Exemplares, Porto, Figueirinhas, 1996 (29ª ed.).

in http://cvc.instituto-camoes.pt/contomes/19/texto.html (dá para ouvir o texto, no site. Muito bom!)



Os Pobrezinhos

Os Pobrezinhos
Tão engraçados
Pedem esmolinha
Com mil cuidados

Todos sujinhos
E tão magrinhos
A linda graça
Dos pobrezinhos

De porta em porta
Sempre rotinhos
Tão delicados
Os pobrezinhos

Não façam mal
Aos pobrezinhos
Dêem-lhes pão
E tostõezinhos

Os pobrezinhos
tão engraçados
pedem esmolinha
com mil cuidados.

Armindo Mendes de Carvalho
http://mulher.sapo.pt/actualidade/noticias/dia-internacional-da-solidarie-1114385.html

 SOLUÇÃO: a ironia, às vezes, é mesmo uma pomba branca com a penugem em pé...

domingo, 19 de dezembro de 2010

Aniversário de Alexandre O'Neill




O Poeta-cigarra






Velha Fábula em Bossa Nova



Minuciosa formiga
não tem que se lhe diga:
leva a sua palhinha
asinha, asinha.


Assim devera eu ser
e não esta cigarra
que se põe a cantar
e me deita a perder.

Assim devera eu ser:
de patinhas no chão,
formiguinha ao trabalho
e ao tostão.


Assim devera eu ser
se não fora
não querer.


(-Obrigado, formiga!
Mas a palha não cabe
onde você sabe...)

 Alexandre O'Neill

de quem eu guardei da adolescência um verso-retrato
(título de um livro seu):


AS ANDORINHAS NÃO TÊM RESTAURANTE


http://cvc.instituto-camoes.pt/figuras/alexandreoneill.html

http://www.arlindo-correia.com/250900.html#Soneto

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

Dia da Restauração da Independência

Quando era miúda, um dos meus irmãos, o Filipe II, divertia-me a bom rir com a sua pratada de anedotas sempre prontas e certeiras... era um contador de anedotas em "full-time"! E eu, que sempre fui uma ouvinte distraída de anedotas, crédula e um pouco infantil, ouvia, ria, gargalhava e esquecia. Deve ser por isso que já não consigo lembrar-me dos meandros da que eu preferia (não é contador de anedotas" quem quer...) e que versava sobre o mediático carisma do "Zezinho dos plásticos": personagem que conhecia toda a gente e toda a gente conhecia no universo e que justificava a sua fama universal com um lapidar: "O que é preciso é publicidade"!...



O que tem isto a ver com a "restauração da independência", 370 anos depois, se já não há Filipes de Espanha como havia antigamente, daqueles que criaram "Armadas Invencíveis" com o sonho dos pinhais de D. Dinis ou das terras a oriente do Preste João ou...? Não há?!... Haverá?... Receio que a nossa falta de Independência se deva também aos Zezinhos dos Plásticos intestinos que, à sombra (sobranceira) dos paraísos artificiais por onde desenvolvem a sua mediática imagem e delírios de grandeza, nos enfileiram nas suas "naus a haver" dos mercados internacionais, mercados bolsistas, mercados off-shores, mercados de bulas, abstinências, jejuns, perdões fiscais, tudo ao molho e fé em Deus que é quem nos dirige a barca e a bolsa e o arrependimento e desculpem lá portugueses que tive de ceder a satã pactuar e calar pelos altos desígnios da Nação Portuguesa tão somente... No media-market da nação e na língua-franca de Sua Majestade vendem-se imagens de salvação, de papão, de feijão e muito outro palavrão terminado em -ão, como chouriço que acaba em cordel, como me ensinou a Maria João que também se emigrou para as terras do Preste João a ver se a sua alta classificação aí lhe garantia o pão... Ãouh!.. Ãouah!... que apetece ladrar às canelas do tempo: Ourrah!... Irra!... Porra!... ... 'tá bem... Arroz!...

República ou Monarquia? Sei lá!... Olhe, aquela que deixar o Zezinho dos Plásticos confinado às anedotas do Filipe, meu irmão...

(que não há paciência para esta falta de independência... arroz, arroz, arroz... prontos... ponto.)

(Retrato Económico da União Europeia. Desconheço o autor.)

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

Dia Internacional para a Eliminação da Violência contra as Mulheres/ Dia Nacional do Empresário)

NOTICIA DE JORNAL

Tentou contra a existência
Num humilde barracão,
Joana de tal, por causa de um tal João.
Depois de medicada,
Retirou-se pro seu lar.
Aí a notícia carece de exatidão,
O lar não mais existe
Ninguém volta ao que acabou
Joana é mais uma mulata triste que errou.
Errou na dose
Errou no amor
Joana errou de joão
Ninguém notou
Ninguém morou na dor que era o seu mal
A dor da gente não sai no jornal.

Chico Buarque, (1975, A Gota de Água)

(para ouvir a composição de chico Buarque, aqui, nos 38 segundos iniciais...


e, a seguir, uma apresentação em vídeo de cartoons sobre este tema, patente na Assembleia da República.)


... E como hoje também é o "Dia nacional do Empresário", já aqui ficam algumas ideias para "Grandes Empresas" (que "lucros" há muitos: tantos quantos os "Serviços" prestados à Comunidade)... e, como inspiração, uma imagem que bem podia ser ilustrativa da nossa "Empresa dos Descobrimentos"...
(se a jovem Senhora em terra é uma triste viúva de vivos embarcados ou uma bela e divina deusa da Ilha dos Amores de cada um... a cada um caberá sonhá-la e vê-la nas "formas invisíveis da imprecisa distância", como dizia Pessoa...) 

sábado, 6 de novembro de 2010

Dia Internacional para a Prevenção da Exploração do Meio Ambiente em Tempos de Guerra e Conflito Armado/ Aniversário de Sophia de Mello Breyner A.

 "Convém tornar claro o coração do homem"
Sophia, "Ressurgiremos"


Segundo declarações da ONU, "desde que a guerra existe, o ambiente e os recursos naturais têm sido suas vítimas silenciosas. As colheitas são incendiadas, os poços de água poluídos, os solos envenenados e os animais mortos. Os objectivos têm variado: obter uma vantagem estratégica, desmoralizar as populações locais, vencer a resistência ou simplesmente alimentar os soldados. Mas, mesmo quando não são intencionais, as consequências são sempre catastróficas. Temos assistido a actos de destruição pura e simples, concretamente, a liberação de poluentes e de substâncias perigosas".
in http://blogdosdias.blogs.sapo.pt/1689.html

É sempre melhor ouvir a  Poetisa... nela há  um Silêncio (pre)claro e justo.
(Parabéns, querida Poetisa: Voz de tantos silêncios nossos.)

«Sempre a poesia foi para mim uma perseguição do real. Um poema foi sempre um círculo traçado à roda duma coisa, um círculo onde o pássaro do real fica preso. E se a minha poesia, tendo partido do ar, do mar e da luz, evoluiu, evoluiu sempre dessa busca atenta. Quem procura uma relação justa com a pedra, com a árvore, com o rio, é necessariamente levado, pelo espírito de verdade que o anima, a procurar uma relação justa com o homem. Aquele que vê o espantoso esplendor do mundo é logicamente levado a ver o espantoso sofrimento do mundo. Aquele que vê o fenómeno quer ver todo o fenómeno. É apenas uma questão de atenção, de sequência e de rigor."
in http://www.triplov.com/sophia/grades.html



ESTE É O TEMPO

Este é o tempo
Da selva mais obscura
Até o ar azul se tornou grades
E a luz do sol se tornou impura

Esta é a noite
Densa de chacais
Pesada de amargura
Este é o tempo em que os homens renunciam


DATA

Tempo de solidão e de incerteza
Tempo de medo e tempo de traição
Tempo de injustiça e de vileza
Tempo de negação

Tempo de covardia e tempo de ira
Tempo de mascarada e de mentira
Tempo que mata quem o denuncia
Tempo de escravidão.

Sophia, in Grades


domingo, 10 de outubro de 2010

Dia Mundial da Saúde Mental / Dia Europeu contra a Pena de Morte / Aniversário de Giuseppe Verdi

Há cerca de 2500 anos, na antiga Grécia, Sócrates, acusado de corromper a juventude, é condenado à pena de morte por envenenamento com cicuta: (cada sociedade, cada código penal...)... Consta que o filósofo do "conhece-te a ti mesmo" teria afirmado poder evitar a sua condenação, caso renunciasse à sua "vida justa" ou, após a condenação, ter recorrido à influência dos seus amigos na "pólis". Não quis.
Há cerca de 500 anos, na antiga Florença, Galileu Galilei, acusado de heresia (por defender que era o Sol a girar à volta da Terra e não o contrário), é condenado  pelo Tribunal do Santo Ofício à pena de morte, posteriormente comutada com o auxílio de amigos para a pena de "confinamento" ("preso em casa"). E é nessa condição que morre anos mais tarde.
Giuseppe Verdi faz hoje 197 anos. Aos 27 anos, perde a mulher e filhos,  fracassa a sua 2ª ópera e decide então abandonar a composição musical, o que acaba por não acontecer, já que um seu amigo, director do La Scalla, o convence a estudar a peça de teatro Nabucco, sobre a qual acaba por compor uma das suas mais afamadas e aclamadas óperas. A ária "Va, pensiero" parece fazer eco desse período de "luto" pessoal do grande compositor,  acabando por também dar voz, simbolicamente, ao sentimento de escravidão do povo italiano, à época reprimido por  franceses e austríacos, da mesma maneira que o povo Hebreu o fora por Nabucodonosor.E é ao "Pensamento"- amigo, confidente e último refúgio -  que todos se dirigem e só a ele confidenciam, numa toada nostálgica e melancolicamente digna as suas  memórias de tristeza e de saudade de todo um passado glorioso e feliz...
Bendito amigo que tratou da "saúde mental" de Verdi, benditos amigos que preservaram a "saúde mental" de Galileu nos últimos anos da sua vida e, pena foi, que ao grande filósofo do "Conhece-te a ti mesmo" não tenha sido possível dar idêntico final feliz: para seu próprio bem e bem de nós todos, em vias a uma sociedade mais justa, responsável e com mais saúde (com melhor conhecimento de si)...
(Frágil, frágil, a nossa saúde mental, que um ligeiro "pensiero" pode fragilizar ainda mais ou fortalecer para a eternidade. "Voa, pensamento: pousa, perfuma, cumprimenta, reacende , traduz...".
Pela saúde mental, contra a pena de morte, com Verdi e com todos os artistas que nos ensinam a esperar e transformar em beleza os nossos melhores anseios de futuro).

"Voa, pensamento

Voa, pensamento, com tuas asas douradas;
voa, pousa-te nas encostas e no topo das colinas,
onde perfumam mornas e macias
as brisas doces do solo natal!


Cumprimenta as margens do rio Jordão,
as torres derrubadas de Jerusalém...
Oh minha pátria tão bela e perdida!
Oh lembrança tão cara e fatal!


Harpa dourada dos grandes poetas,
porque agora estás muda?
Reacende as memórias no nosso peito,
fala-nos do bom tempo que foi!


Como Sólima fez com o destino
traduz em música o nosso sofrimento,
deixa-te inspirar pelo Senhor"

tradução da ária "Va, pensiero " da ópera Nabucco de Verdi, aqui


sábado, 9 de outubro de 2010

Dia Mundial da União Postal Universal (/da Carta)

Seguem 2 cartas de amor...
Que levem, a quem as ler, tão boas notícias como a mim me trouxeram...

NAMORO

Mandei-lhe uma carta em papel perfumado

e com letra bonita eu disse ela tinha
um sorrir luminoso tão quente e gaiato
como o sol de Novembro brincando de artista
nas acácias floridas espalhando diamantes
na fímbria do mar
e dando calor ao sumo das mangas
Sua pele macia era sumaúma
Sua pele macia, da cor do jambo,
cheirando a rosas sua pele macia
guardava as doçuras do corpo rijo
tão rijo e tão doce como o maboque
Seus seios, laranjas laranjas do Loje
seus dentes marfim
Mandei-lhe essa carta
e ela disse que não.
Mandei-lhe um cartão
que o amigo Maninho tipografou:
Por ti sofre o meu coração
Num canto SIM,
noutro canto NÃO
E ela o canto do NÃO dobrou

Mandei-lhe um recado pela Zefa do Sete
pedindo, rogando de joelhos no chão
pela Senhora do Cabo, pela Santa Ifigenia,
me desse a ventura do seu namoro
E ela disse que não.
Levei à Avo Chica, quimbanda de fama
à areia da marca que o seu pé deixou
para que fizesse um feitiço forte e seguro
que nela nascesse um amor como o meu
E o feitiço falhou.

Esperei-a de tarde, à porta da fabrica,
ofertei-lhe um colar e um anel e um broche,
paguei-lhe doces na calçada da Missão,
ficamos num banco do largo da Estátua,
afaguei-lhe as mãos
falei-lhe de amor
e ela disse que não.
Andei barbudo, sujo e descalço,
como um mona-ngamba.
Procuraram por mim
-Não viu(ai não viu? ) não viu Benjamim?

E perdido me deram no morro da Samba.
Para me distrair
levaram-me ao baile do Sô Januario
mas ela lá estava num canto a rir
contando o meu caso
às moças mais lindas do Bairro Operário.
Tocaram uma rumba dancei com ela
e num passo maluco voámos na sala
qual uma estrela riscando o céu!
E a malta gritou: Aí Benjamim !
Olhei-a nos olhos sorriu para mim
pedi-lhe um beijo e ela disse que sim.
Viriato Cruz (de Angola)
 

 
 "Carta de Direitos das Gerações Futuras" de Jacques Costeau, base do projeto de uma política oceânica global que o cientista encaminhou à Assembléia Geral das Nações Unidas. Os cinco artigos resumiram as preocupações e advertências e normas que devem ser respeitadas, com a cooperação de todas as nações do mundo, para preservar as condições naturais e de sobrevivência do ecossistema planetário com toda sua fauna e flora.


"Conscientes das determinações proclamadas pelos povos do mundo nas Nações Unidas, no sentido de reafirmar a fé na dignidade e no valor da pessoa humana, e para promover o progresso social e melhorar padrões de vida e maior liberdade;

Reconhecendo, entre estas, o propósito das Nações Unidas em ativar a cooperação internacional para resolver problemas mundiais e ser um centro para harmonizar a ação das nações na busca deste fim;

Reconhecendo que, para primeira vez na história, os direitos das futuras gerações exercitarem opções com respeito à continuidade da vida e ao enriquecimento de seu meio ambiente físico e mental são seriamente consdierados;

Acreditando que a preservação e promoção desses direitos têm ressonância na consciência de todas as pessoas e de todas as nações;

Convencidos que cada geração tem os direitos herdados para determinar seu próprio destino, e a correspondente responsabilidade de concordar com similares direitos para as futuras gerações, como uma extensão do direito à vida.
Solenemente proclamamos a necessidade de garantir o reconhecimento universal destes direitos e destas responsabilidades, e, com este fim,
DECLARAMOS QUE:

Artigo 1º - As futuras gerações têm direito a uma terra incontaminada e sem danos, e a uma participação na base da história humana, da cultura e das normas sociais que fazem de cada geração e de cada indivíduo, um membro da família humana.

Artigo 2º - Cada geração, no uso e na herança da Terra, é depositária da confiança das futuras gerações, e tem o dever de prevenir danos irreversíveis e irreparáveis para a vida na Terra e para a liberdade e dignidade humanas.


Artigo 3º - É, entretanto, da maior responsabilidade de cada geração, manter-se constantemente vigilante e prudente em relação aos distúrbios e modificações tecnológicas que afetem adversamente a vida na Terra, o equilíbrio das natureza e a evolução da humanidade, no sentido de proteger os direitos das futuras gerações.

Artigo 4º - Todas as medidas apropriadas, inclusive educação, pesquisa e legislação, devem ser tomadas para garantir estes direitos e assegurar que eles não serão sacrificados por expedientes e conveniências do momento.

Artigo 5º - Governos, organizações não governamentais e indivíduos são solicitados, assim, a promover imaginativamente estes princípios, como se estivessem realmente na presença destas futuras gerações, cujos direitos buscamos estabelecer e perpetuar".

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

Dia Internacional do Trabalho Digno (/decente)

 
"Só há liberdade a sério, quando houver a paz, o pão, habitação, saúde, educação...",  Sérgio Godinho
ou
"O Trabalho faz o Homem...", Michel Giacometti
ou
Calçada de Carriche

Luísa sobe,
sobe a calçada,
sobe e não pode
que vai cansada.
Sobe, Luísa,
Luísa, sobe,
sobe que sobe
sobe a calçada.

Saiu de casa
de madrugada;
regressa a casa
é já noite fechada.
Na mão grosseira,
de pele queimada,
leva a lancheira
desengonçada.
Anda, Luísa,
Luísa, sobe,
sobe que sobe,
sobe a calçada.
Luísa é nova,
desenxovalhada,
tem perna gorda,
bem torneada.
Ferve-lhe o sangue
de afogueada;
saltam-lhe os peitos
na caminhada.
Anda, Luísa.
Luísa, sobe,
sobe que sobe,
sobe a calçada.
Passam magalas,
rapaziada,
palpam-lhe as coxas,
não dá por nada.
Anda, Luísa,
Luísa, sobe,
sobe que sobe,
sobe a calçada.
Chegou a casa
não disse nada.
Pegou na filha,
deu-lhe a mamada;
bebeu da sopa
numa golada;
lavou a loiça,
varreu a escada;
deu jeito à casa
desarranjada;
coseu a roupa
já remendada;
despiu-se à pressa,
desinteressada;
caiu na cama
de uma assentada;
chegou o homem,
viu-a deitada;
serviu-se dela,
não deu por nada.
Anda, Luísa.
Luísa, sobe,
sobe que sobe,
sobe a calçada.
Na manhã débil,
sem alvorada,
salta da cama,
desembestada;
puxa da filha,
dá-lhe a mamada;
veste-se à pressa,
desengonçada;
anda, ciranda,
desaustinada;
range o soalho
a cada passada;
salta para a rua,
corre açodada,
galga o passeio,
desce a calçada,
desce a calçada,
chega à oficina
à hora marcada,
puxa que puxa,
larga que larga,
puxa que puxa,
larga que larga,
puxa que puxa,
larga que larga,
puxa que puxa,
larga que larga;
toca a sineta
na hora aprazada,
corre à cantina,
volta à toada,
puxa que puxa,
larga que larga,
puxa que puxa,
larga que larga,
puxa que puxa,
larga que larga.
Regressa a casa
é já noite fechada.
Luísa arqueja
pela calçada.
Anda, Luísa,
Luísa, sobe,
sobe que sobe,
sobe a calçada,
sobe que sobe,
sobe a calçada,
sobe que sobe,
sobe a calçada.
Anda, Luísa,
Luísa, sobe,
sobe que sobe,
sobe a calçada.

António Gedeão, in Teatro do Mundo
ou
...

terça-feira, 5 de outubro de 2010

Dia do Professor

O meu professor de Português era o Padre António Vieira dos sermões da Semana Santa na Beira Baixa... Foi ele que me explicou que aquilo de "fazer chorar as mulheres e levar os homens às lágrimas" fazia parte de uma disciplina chamada Retórica, que também vivia da capacidade de representação dramática do orador: teatro, portanto... e um alívio para mim que, tremendo, contava os meus dias de miúda na católica quaresma, para que o "Sermão do Encontro" e o da "Descida da Cruz" passassem rápido e com o mínimo de sofrimento possível! (Ainda hoje não entendo bem aquela coisa da "catarse" da tragédia clássica: faz bem, porquê? Descarga de adrenalina e fica tudo mais calmo... Ainda bem que é com os outros e não comigo?... Ná!... que eu saiba, comigo não funciona ou funciona mal: cuidado, cuidado, cuidado, medo, medo, medo, às vezes terror)...
A verdade é que desde aquela aula ("hoje é que vos vou explicar como é que eu faço chorar as mulheres nos Sermões da Semana Santa") em que o Padre Fatela nos levou às lágrimas de tanta gargalhada ao parodiar os seus próprios sermões, as suas técnicas de retórica ("eu começo sempre assim: Desde os mais altos picos das montanhas dos Himalaias e o seu cume do Evereste até às abissais profundezas da Fossa do Mindanau..."), os seus conhecimentos de Psicologia Colectiva ("e eu já não dizia nada... choravam homens, choravam mulheres, choravam crianças e eu só gritava em desespero para onde se não ouvia ainda o choro da tragédia de Cristo Nosso Senhor: AAAAAAArrrrrrgggghhhhhh!... e todos choravam...."), foi desde essa aula, dizia eu, que percebi  que o meu Professor - orador era um sábio, um cientista da língua, um arquitecto de linguagens, um feroz Mestre e um Homem gentil, sensível e com grande sentido e saber de Humor (1).
Recordo-o com muita ternura e reconhecimento por tudo o que ele (consciente ou inconscientemente) fez por mim. Talvez ser professor seja só um acto de amor.

"Olha, minha filha, um dia hás-de ser escritora!", sonhou-me ele.
E acabei em professora de Português.
Como ele.
(BEM haja, professor querido. Hoje, também é o seu dia, sim?...)

Ilustração:(a partir da animação italiana do conto de Luís Sepúlveda, História de uma gaivota e do Gato que a ensinou a Voar)


(1) O meu primeiro professor de Inglês, então muito jovem,  e colega do Padre Fatela contou-me uma anedota que este lhe contou numa reunião-festa de  professores, a propósito dos "Cigarros Kart... dão kilómetros de prazer!" /(...)/ Palavra puxa palavra, cigarro puxa cigarro e, a páginas tantas, o padre volta-se para mim e pergunta: "Sabe porque é que o Kart é o cigarro dos padres?!" Francamente lhe respondi que ignorava a razão do fato, e aguardei a explicação! Chegando-se mais a mim, segredou-me ao ouvido: "É porque é o cigarro que dá kilómetros de prazer aos que não podem ter o prazer dos centímetros!..."

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

Dia Europeu sem Carros

Eu, por mim, adoptava (e adaptava se necessário) o "Azeitona": é ecológico, comunicativo, simpático e sempre, sempre pontual... Carros para quê?
... É um artista português e tudo o mais que tu vês!...
 (e não me digam que só regressa no próximo Verão, sim?!...)

quinta-feira, 16 de setembro de 2010

Dia Internacional da Preservação da Camada de Ozono

Ando há 1 ano a namorar este projecto da "Cidade do Sol" na Holanda... Gostava muito de viver numa cidade assim.
(Alguém saberá Holandês para me traduzir o vídeo?... Fiquei-me por uma palavra ou outra, mais parecida com o parco alemão que ainda me resta... Pode ser que encontre algum outro vídeo numa língua mais compreensível e refaço o texto de hoje...). O link abaixo explica o projecto (e sempre ficamos com as excelentes imagens que se seguem!...)

http://pelanatureza.pt/construcao-sustentavel/noticias/arquiteto-holandes-cria-bairro-ecologico

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

Dia Internacional da Alfabetização / Dia da Solidariedade das Cidades Património Mundial


Cabo Verde foi distinguido com um "prémio de alfabetização 2010" da UNESCO, este ano especialmente dirigido para a necessidade de educação das Mulheres, no mundo inteiro (cuja taxa de analfabetismo é ainda muito superior à dos homens, com as inevitáveis consequências de ordem politico-socio-cultural. Liberdade, precisa-se!)...
E porque a voz de Cabo Verde é bela e musical também na poesia, fica um poema assim tu cá tu lá com um quotidiano  não muito belo nem muito musical... assim num daqueles dias em que "isto é que fazem de nós"... galinhas!...

ISTO É QUE FAZEM DE NÓS


Isto!

E perguntam-nos:
- sois homens?

Respondemos:
- animais de capoeira.


Dizem-nos:
- bom dia.


Pensamos:
lá fora...


Isto é que fazem de nós
quando nos inquirem:
- estais vivos?


E em nós
as galinhas respondem:
- dormimos.

Arménio Vieira (poeta de cabo Verde, prémio Camões 2009)

(A imagem é de uma tapeçaria da artista de Cabo Verde, surda-muda, Cândida Maria da Luz Rocha)
http://www.unmultimedia.org/radio/portuguese/detail/182784.html (notícia do prémio, que também segue em vídeo)

terça-feira, 31 de agosto de 2010

Dia do Blogue



Há blogues que nos saúdam pelo dia fora, nos trazem notícias e sonhos, nos despertam e tranquilizam, nos ajudam a desbravar caminhos, nos fazem companhia: são blogues amigos, em suma.

Vou deixar 3 links, desses que me saúdam os dias...

http://silnunesprof.blogspot.com/ (antropologia, literatura e... do Brasil)
http://lusografias.wordpress.com/ (língua e literatura portuguesas)
http://dotempodaoutrasenhora.blogspot.com/ (etnografia, história e tradições...)

Um agradecimento especial aos autores das imagens, muitas vezes anónimos (ou que nós por desconhecimento, assim tornamos) e que tanto têm alegrado as minhas pesquisas...

segunda-feira, 23 de agosto de 2010

Dia Internacional da Recordação do Tráfico Negreiro e da sua Abolição (Unesco)

Não sei se sou eu que sou uma teimosa de sonhos ou se são os sonhos que são uns teimosos de mim...

Não sei porque se chama Pinhal de Negreiros a uma povoação da freguesia de São Lourenço de Azeitão ( de um nome de família? de proprietários de barcos ou angariadores de negros para o tráfico de escravos? da existência pretérita de moínhos de milho e centeio, como acontece em Barcelos?...) Não sei. Soube, oralmente, pelo autor das monografias das 2 freguesias de Azeitão, Joaquim Oliveira, que daqueles pinhais também foram levadas madeiras para a construção de barcos para as nossas navegações... Na verdade, um braço de mar vindo do Tejo até Coina foi até muito tarde navegável (no "Diccionário Geographico" do século XVIII, ainda esse aspecto é referido) e a ligação Lisboa - Azeitão terá sido privilegiada por essa via, durante muito tempo.

Esta ligação ao mar e às Descobertas navega-me de quando em vez o sonho... ou porque leio desta antiga ligação  ou porque passo ao lado de Pinhal de Negreiros e o nome não se me deixa passar sem história ou lenda ou porque no pequeno quintal-jardim onde semeio breves hortículas ou flores, a terra - muito arenosa- insiste em falar de passados já longínquos não sei se com saudades do mar se com saudades de adubo e é por aqui que me quedo e lá lhe ofereço do que de necessita para me alimentar os sonhos e saúde do presente...

Hoje, particularmente, um registo histórico me compraz:
" A 7 de Outubro de 1364, D. Pedro I, em carta enviada aos Juízes de Sesimbra ordena que :


 "... a dita quinta [da Nogueira, que poderá estar na origem de Vila Nogueira de Azeitão]seja coutada ... e os seus caseiros e foreiros sejam quites e isentos de servir em hostes nem fossado, nem em galés , nem em frota nenhuma nem vão velar no logo de Sesimbra nem em outros lugares e sejam isentos da dita servidão ..." in Joaquim Oliveira, Monografia de São Lourenço de Azeitão

(e como os sonhos são teimosos e eles lá sabem porquê e eu sou fã da polémica Igreja do arquitecto Troufa Real e gostava muito de a ter aqui mais por perto e por aqui foi proibido "in illo illo tempore" a escravidão nas galés e... porque gosto e porque sim... fica a rimar com a efeméride do dia a supradita e bem por mim amada Igreja das Galés, Galeões e Galeotas, estas últimas também eternizadas num topónimo de Azeitão.

A ver. Aqui mesmo ao lado...)

domingo, 15 de agosto de 2010

Dia da Assunção de Nossa Senhora

Hoje, é dia de todas as "Senhoras". Consulte-se o Borda d'Água, Wikipedia ou qualquer site de Feriados, Festas, Romarias e ver-se-á a quantidade de "Nossas Senhoras" que hoje são celebradas... Porquê? Não sei. Mas há vários anos a esta parte que sempre me defronto, neste dia, com esta perplexidade (é que o Cristianismo adoptou normalmente os dias festivos de antigas religiões para os seus dias de festa litúrgica...). Na verdade, a referência mais antiga que encontrei foi a das celebrações em honra de Hécate, deusa dos Infernos e da morte na antiga Grécia... Diga-se aliás que uma Deusa,  no meu imaginário, temível  e vingativa e, por isso mesmo, nos antípodas da "Nossa Senhora da Assunção" cristã que, ao ser elevada ao Céu em corpo e alma, mais facilmente nos ultrapassará o trauma da morte... De referir também que a 15 de Agosto é igualmente cultuada a  "Nossa Senhora da Boa Morte" (por oposição à "má morte" que Hécate parecia reger?)...
Há uns anos atrás, conheci por acaso e numa viagem de 15 de Agosto, o culto à Senhora da Boa Morte (oferecida por D. José I ) na Igreja do Louriçal, pertencente a Pombal... Fiquei impressionada... nunca imaginara Nossa Senhora a não ser em glória e só assim a conhecia da minha formação católica de criança.  O 2º link parece-me sábio e aponta uma justificação: o culto à Senhora da Boa Morte precede o de Nossa Senhora da Assunção que, só muito tarde, será admitido pela Igreja.
É dia, pois, de celebrar a vida (e a sua eternidade...)

Fico-me por Pessoa, sabe-se lá porquê (mistérios da vida!...)

"Desvendadas a noite e a cerração,

As tormentas passadas e o mistério,
Abria em flor o Longe, e o Sul Sidério
Splendia sobre as naus da iniciação."
in Fernando Pessoa, "Horizonte", Mensagem

(cf. http://umdiapormuitosebonsanos.blogspot.com/2009/08/festa-da-assuncao-de-nossa-senhora.html
http://devocoes.blogspot.com/2006/04/nossa-senhora-da-boa-morte.html

N. B. Só hoje, 17 de Agosto, me lembrei da festa do "Palio" de Siena (Itália), onde estive 2 anos a 15/08, vésperas da grande corrida do "Palio" de Nossa Senhora da Assunção. Adoro Siena e toda a sua envolvência medieval´: sou fã (seja lá o que isso for!). Eu sou adepta do "Onda" (cujo estandarte tem um golfinho), mas este ano ganhou a "Tartuca" (tartaruga)... O que é que esta festa tem a ver com o tema do dia? Pois bem, trata-se do "Palio dell Assunta", ou seja, em honra de Nossa Srª da Assunção, belissimamente tratada plasticamente nas várias "contradas", como se pode ver no link abaixo:
http://www.ilpalio.org/dratar5.htm

(e, já agora, nunca vi chão mais belo que o do "Duomo" de Siena, todo revestido a mosaico com as várias Sibilas. Pode ser que um dia digitalize os postais ilustrados que ainda guardo de lá!)...

quinta-feira, 12 de agosto de 2010

Dia Internacional da Juventude / Dia Mundial do Canhoto

“Méfiez-vous des rêves de jeunesse, ils finissent toujours par se réaliser”

Goethe 1749-1832

Isto de se ter heróis tem as suas vantagens: é que não envelhecem, nem mudam de feitio...
E eu cá continuo à boleia ( e à bolina) da sua juventude: o pragmático salvador "Gato das Botas", a ingénua contestatária "Mafaldinha", o gargalhada fácil "Obélix", a sexy e musical "Pantera Cor-de-Rosa", o oportuno e sagaz "Jolly Jumper", o ecologista militante "Idéiafix"... e, por hoje, chega... Vou até lá fora ver se encontro algum (que eles lá vão encarnando por aí e sempre dou descanso à direita, que hoje é dia do canhoto e eu gostava muito de ser ambidextra, mas...)

P.S. Fui, vim, não encontrei nenhum dos meus heróis, o vento empurrou-me para casa e encontrei um poema de texto e imagem, aqui... é de um artista iraquiano, Hassan Massoudy e gostei muito da sua interpretação de juventude! Acabou por ser ele o herói do texto (sozinho, chegava...)




segunda-feira, 9 de agosto de 2010

Dia Internacional dos Povos Indígenas

"(...)Vós virais os olhos para os matos e para o sertão? Para cá, para cá: para a cidade é que haveis de olhar. Cuidais que só os Tapuias se comem uns aos outros? Muito maior açougue é o de cá, muito mais se comem os brancos. Vedes vós todo aquele bulir, vedes todo aquele andar, vedes aquele concorrer às praças e cruzar as ruas; vedes aquele subir e descer as calçadas, vedes aquele entrar e sair sem quietação nem sossego? Pois tudo aquilo é andarem buscando os homens como hão-de comer e como se hão-de comer. (...)»
Padre António Vieira, Sermão de Santo António aos Peixes

Hoje, é dia do Índio de todos nós, neste blogue (para a próxima, fica a Pocahontas)...





sexta-feira, 6 de agosto de 2010

segunda-feira, 26 de julho de 2010

Dia dos Avós

A minha avó-madrinha Luísa Mariana, já muito velhinha e acamada, perdia-se de amores pelos seus "apatetados"... ou seja, Charlie Chaplin no seu melhor, como diz o vídeo. E se é verdade que eu não morria de amores por estes trambolhões circenses, a verdade é que me ria a bom rir com as gargalhadas e alegria contagiante dela de cada vez que o infeliz se estatelava desajeitadamente no chão... Ah! É preciso dizer que a minha avó Luísa Mariana estava completamente surda e eu fiquei sempre com a ideia que o Charlot era o seu melhor amigo aos quase 90 anos...
Bondosa e feliz, era assim a minha avó-madrinha. Quando não entendia o que lhe perguntávamos, ria; dizia qualquer outra coisa bem-disposta e ria; fazia o" seu último remate de colcha com franja "rabo de porco" (para aquela colcha de 2 agulhas que tua mãe te fez, Maria Luísa - e já tinha 80 e muitos anos, dos dela) e ria, ria, por entre muitas beijoquinhas nas bochechas da neta-afilhada que adorava o "rabo de porco" com que ela a presenteara. Ainda a tenho, à franja "rabo de porco" e tudo se fez como ela desejou e em cada "dia dos avós" é a minha avó Luísa Mariana e o Charlot que se estatelam ao comprido nos corredores da minha memória e eu sorrio e rio ao lembrar as patetices apatetadas daqueles dois sábios avós tão unidos à distância.
N. B. ... O vídeo é para ser visto pela minha avó; logo, se não se importa, retire-lhe o som e vai ver que o mundo dos nossos avós é outro e se der umas gargalhadas, eu também fico feliz!

(e ainda não foi desta que falei dos "meus egrégios avós"... Ou será que falei?)

sábado, 24 de julho de 2010

Dia da Internet

Estava a pensar o que de que escrever sobre a efeméride do dia e acabei por estacionar no "cais de pedra" de Fernando Pessoa. Fui procurar a "Ode Marítima" na Internet (não saí deste "cais de pedra" que é a minha cadeira, naveguei um pouco qual "paquete" t-t-t-t---ttttt---t--t--...) e regressei breves minutos depois já com a selecção de versos que aqui iria deixar. E eu acho esta navegação um assombro, com esta calma rapidez com que aportamos a tanto porto... e em todo o porto há um cais que de saudade em saudade nos vai balanceando o futuro do que queremos sonhar. E deste "cais de pedra donde se não parte" (e que é ainda a minha cadeira de trabalho), rápido navegarei para mais uma imagem (uma foto, ilustração, o que for se verá) ...

"Ah, todo o cais é uma saudade de pedra!

(...)
Tanta nacionalidade sobre o mundo! tanta profissão! tanta gente!
Tanto destino diverso que se pode dar à vida,
À vida, afinal, no fundo sempre, sempre a mesma!
Tantas caras curiosas! Todas as caras são curiosas
E nada traz tanta religiosidade como olhar muito para gente.
A fraternidade afinal não é uma ideia revolucionária.
É uma coisa que a gente aprende pela vida fora, onde tem que tolerar tudo,
E passa a achar graça ao que tem que tolerar,
E acaba quase a chorar de ternura sobre o que tolerou!
(...)"
in Álvaro de Campos, Ode Marítima

 

terça-feira, 20 de julho de 2010

Dia Internacional da Amizade

Este meu melhor amigo,
que no fundo é um mansarrão,
quando me vê deserdada,
é forte que nem leão.

Deserdada fui eu já
quer de vida ou de alegria,
quer de sonhos ou magia...

Mas foi pela hora da sorte
que o meu gato aqui chegou:
com as botas de sete léguas
e o seu chapeirão listrado
foram tantos os seus mimos
que me pôs o céu estrelado...

E é este o meu dia-a-dia...

Quer esteja aqui bem por perto,
ou seja amigo distante,
sem o meu Gato das Botas,
outra menina seria,
bem diferente, mais minguante...

E depois dos amigos à minha maneira (todos eles uns verdadeiros "Gatos das Botas"), ficam a voz de Cecília Meireles, também ela sobre os seus (nossos) amigos e, no final, um vídeo sobre a amizade entre animais, também eles nossos amigos e "gatos das botas" uns dos outros...

Recado aos Amigos Distantes

Meus companheiros amados,
não vos espero nem chamo:
porque vou para outros lados.
Mas é certo que vos amo.

Nem sempre os que estão mais perto
fazem melhor companhia.
Mesmo com sol encoberto,
todos sabem quando é dia.


Pelo vosso campo imenso,
vou cortando meus atalhos.
Por vosso amor é que penso
e me dou tantos trabalhos.


Não condeneis, por enquanto,
minha rebelde maneira.
Para libertar-me tanto,
fico vossa prisioneira.

Por mais que longe pareça,
ides na minha lembrança,
ides na minha cabeça,
valeis a minha Esperança.

Cecília Meireles, Poemas (1951) in o citador
(itálico e negrito de responsabilidade nossa)

segunda-feira, 12 de julho de 2010

sexta-feira, 9 de julho de 2010

Dia Mundial pelo Desarmamento













... sem dinheiros (ou outras armas) no bolso (ou saco azul)
 ou outras traições, ilusões ou jogos de poder (ou lá o que terá sido e às vezes ainda é!)...

Quero comungar desta "Última Ceia" da artista plástica Ana Cardoso: "Todos diferentes, mas todos apóstolos!..." 

terça-feira, 29 de junho de 2010

Dia de S. Pedro / Aniversário de Saint-Exupéry


O S. Pedro é pequenino
Mas tem chave poderosa...
Já foi por isso padrinho
De muita moça formosa...


(Pois, pois... Que o digam os contos tradicionais da Nação portuguesa...)


"A verdade não é de modo algum aquilo que se demonstra, mas aquilo que se simplifica."
Saint-Exupéry, Terra dos Homens

Gostei desta animação de O Principezinho (cerca de 25 minutos repartidos por 3 vídeos) e deixo-a aqui, antes que ela também se vá para um qualquer planeta, à procura - quem sabe? - da sua "rosa"...






sábado, 26 de junho de 2010

Dia Mundial contra o Uso e Tráfico de drogas / Dia Internacional de Apoio às vítimas da Tortura / Dia Nacional do Multimédia / Dia Mundial da Carta

Acho que o "cartoon" diz muito sobre o perigo das "drogas" que nos oferecem... Ontem, como hoje!


Gosto desta "Tempestade virtual"... Uma excelente tempestade sonora recriada em "estúdio", que apetece  ver acompanhada visualmente de outros efeitos multimédia... Está calor, colocam-se os "headphones" e refrescamo-nos um pouco com estes sons (uma trovoada de Verão para quem gosta  do cheirinho bom da terra molhada logo a seguir, subindo, subindo e nós... calminhos, só em olfacto)

                                           
... Uma "carta" de Jorge de Sena que também fala das vítimas de agressão... A reler!
 Carta a meus filhos sobre os Fuzilamentos de Goya

Não sei, meus filhos, que mundo será o vosso.
É possível, porque tudo é possível, que ele seja
aquele que eu desejo para vós. Um simples mundo,
onde tudo tenha apenas a dificuldade que advém
de nada haver que não seja simples e natural.

Um mundo em que tudo seja permitido,
conforme o vosso gosto, o vosso anseio, o vosso prazer,
o vosso respeito pelos outros, o respeito dos outros por vós.
E é possível que não seja isto, nem sequer isto
o que vos interesse para viver. Tudo é possível,
ainda quando lutemos, como devemos lutar,
por quanto nos pareça a liberdade e a justiça,
ou mais que qualquer delas uma fiel
dedicação à honra de estar vivo.

Um dia sabereis que mais que a humanidade
não tem conta o número dos que pensaram assim,
amaram o seu semelhante no que ele tinha de único,
de insólito, de livre, de diferente,
e foram sacrificados, torturados, espancados,
e entregues hipocritamente à secular justiça,
para que os liquidasse com suma piedade e sem efusão de sangue.

Por serem fiéis a um deus, a um pensamento,
a uma pátria, uma esperança, ou muito apenas
à fome irrespondível que lhes roía as entranhas,
foram estripados, esfolados, queimados, gaseados,
e os seus corpos amontoados tão anonimamente quanto haviam vivido,
ou suas cinzas dispersas para que delas não restasse memória.
Às vezes, por serem de uma raça, outras
por serem de uma classe, expiaram todos
os erros que não tinham cometido ou não tinham consciência
de haver cometido. Mas também aconteceu
e acontece que não foram mortos.

Houve sempre infinitas maneiras de prevalecer
aniquilando mansamente, delicadamente
por ínvios caminhos quais se diz que são ínvios os de Deus.
Estes fuzilamentos, este heroísmo, este horror,
foi uma coisa, entre mil, acontecida em Espanha
há mais de um século e que por violenta e injusta
ofendeu o coração de um pintor chamado Goya,
que tinha um coração muito grande, cheio de fúria
e de amor. Mas isto nada é, meus filhos.

Apenas um episódio, um episódio breve,
nesta cadeia de que sois um elo (ou não sereis)
de ferro e de suor e sangue e algum sémen
a caminho do mundo que vos sonho.
Acreditai que nenhum mundo, que nada nem ninguém
vale mais que uma vida ou a alegria de tê-la.
É isto o que mais importa – essa alegria.
Acreditai que a dignidade em que hão-de falar-vos tanto
não é senão essa alegria que vem
de estar-se vivo e sabendo que nenhuma vez
alguém está menos vivo ou sofre ou morre
para que um só de vós resista um pouco mais
à morte que é de todos e virá.
Que tudo isto sabereis serenamente,
sem culpas a ninguém, sem terror, sem ambição,
e sobretudo sem desapego ou indiferença,
ardentemente espero. Tanto sangue,
tanta dor, tanta angústia, um dia
– mesmo que o tédio de um mundo feliz vos persiga –
não hão-de ser em vão. Confesso que,
muitas vezes, pensando no horror de tantos séculos
de opressão e crueldade, hesito por momentos
e uma amargura me submerge inconsolável.

Serão ou não em vão? Mas, mesmo que o não sejam,
quem ressuscita esses milhões, quem restitui
não só a vida, mas tudo o que lhes foi tirado?
Nenhum Juízo Final, meus filhos, pode dar-lhes
aquele instante que não viveram, aquele objecto
que não fruíram, aquele gesto
de amor, que fariam «amanhã».
E, por isso, o mesmo mundo que criemos
nos cumpre tê-lo com cuidado, como coisa
que não é só nossa, que nos é cedida
para a guardarmos respeitosamente
em memória do sangue que nos corre nas veias,
da nossa carne que foi outra, do amor que
outros não amaram porque lho roubaram.

Jorge de Sena, in "Metamorfoses"