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sábado, 26 de junho de 2010

Dia Mundial contra o Uso e Tráfico de drogas / Dia Internacional de Apoio às vítimas da Tortura / Dia Nacional do Multimédia / Dia Mundial da Carta

Acho que o "cartoon" diz muito sobre o perigo das "drogas" que nos oferecem... Ontem, como hoje!


Gosto desta "Tempestade virtual"... Uma excelente tempestade sonora recriada em "estúdio", que apetece  ver acompanhada visualmente de outros efeitos multimédia... Está calor, colocam-se os "headphones" e refrescamo-nos um pouco com estes sons (uma trovoada de Verão para quem gosta  do cheirinho bom da terra molhada logo a seguir, subindo, subindo e nós... calminhos, só em olfacto)

                                           
... Uma "carta" de Jorge de Sena que também fala das vítimas de agressão... A reler!
 Carta a meus filhos sobre os Fuzilamentos de Goya

Não sei, meus filhos, que mundo será o vosso.
É possível, porque tudo é possível, que ele seja
aquele que eu desejo para vós. Um simples mundo,
onde tudo tenha apenas a dificuldade que advém
de nada haver que não seja simples e natural.

Um mundo em que tudo seja permitido,
conforme o vosso gosto, o vosso anseio, o vosso prazer,
o vosso respeito pelos outros, o respeito dos outros por vós.
E é possível que não seja isto, nem sequer isto
o que vos interesse para viver. Tudo é possível,
ainda quando lutemos, como devemos lutar,
por quanto nos pareça a liberdade e a justiça,
ou mais que qualquer delas uma fiel
dedicação à honra de estar vivo.

Um dia sabereis que mais que a humanidade
não tem conta o número dos que pensaram assim,
amaram o seu semelhante no que ele tinha de único,
de insólito, de livre, de diferente,
e foram sacrificados, torturados, espancados,
e entregues hipocritamente à secular justiça,
para que os liquidasse com suma piedade e sem efusão de sangue.

Por serem fiéis a um deus, a um pensamento,
a uma pátria, uma esperança, ou muito apenas
à fome irrespondível que lhes roía as entranhas,
foram estripados, esfolados, queimados, gaseados,
e os seus corpos amontoados tão anonimamente quanto haviam vivido,
ou suas cinzas dispersas para que delas não restasse memória.
Às vezes, por serem de uma raça, outras
por serem de uma classe, expiaram todos
os erros que não tinham cometido ou não tinham consciência
de haver cometido. Mas também aconteceu
e acontece que não foram mortos.

Houve sempre infinitas maneiras de prevalecer
aniquilando mansamente, delicadamente
por ínvios caminhos quais se diz que são ínvios os de Deus.
Estes fuzilamentos, este heroísmo, este horror,
foi uma coisa, entre mil, acontecida em Espanha
há mais de um século e que por violenta e injusta
ofendeu o coração de um pintor chamado Goya,
que tinha um coração muito grande, cheio de fúria
e de amor. Mas isto nada é, meus filhos.

Apenas um episódio, um episódio breve,
nesta cadeia de que sois um elo (ou não sereis)
de ferro e de suor e sangue e algum sémen
a caminho do mundo que vos sonho.
Acreditai que nenhum mundo, que nada nem ninguém
vale mais que uma vida ou a alegria de tê-la.
É isto o que mais importa – essa alegria.
Acreditai que a dignidade em que hão-de falar-vos tanto
não é senão essa alegria que vem
de estar-se vivo e sabendo que nenhuma vez
alguém está menos vivo ou sofre ou morre
para que um só de vós resista um pouco mais
à morte que é de todos e virá.
Que tudo isto sabereis serenamente,
sem culpas a ninguém, sem terror, sem ambição,
e sobretudo sem desapego ou indiferença,
ardentemente espero. Tanto sangue,
tanta dor, tanta angústia, um dia
– mesmo que o tédio de um mundo feliz vos persiga –
não hão-de ser em vão. Confesso que,
muitas vezes, pensando no horror de tantos séculos
de opressão e crueldade, hesito por momentos
e uma amargura me submerge inconsolável.

Serão ou não em vão? Mas, mesmo que o não sejam,
quem ressuscita esses milhões, quem restitui
não só a vida, mas tudo o que lhes foi tirado?
Nenhum Juízo Final, meus filhos, pode dar-lhes
aquele instante que não viveram, aquele objecto
que não fruíram, aquele gesto
de amor, que fariam «amanhã».
E, por isso, o mesmo mundo que criemos
nos cumpre tê-lo com cuidado, como coisa
que não é só nossa, que nos é cedida
para a guardarmos respeitosamente
em memória do sangue que nos corre nas veias,
da nossa carne que foi outra, do amor que
outros não amaram porque lho roubaram.

Jorge de Sena, in "Metamorfoses"

sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

Dia Internacional das Migrações

É condição do "herói" partir. Partir para se encontrar e encontrar as condições de vida que lhe permitem aceder a "ser" (humano). Partir por si e/ou pela Humanidade é o mesmo. Por cada homem feliz (o "herói") há uma parcela de Humanidade que... . É por isso que gosto de "olhar... a memória... de passarem aves", num feliz encontro de Jorge de Sena com as palavras de Sá de Miranda, para quem "caem co'a calma as aves"...

Aqui ficam, pois, Jorge de Sena e Manuel Freire, dois dos que continuam a traçar o rumo das "migrações" que vejo passar ano após ano, rumo a um mapa de encontros e de sonhos... ...DE PASSAREM AVES
À memória de Sá de Miranda

Das aves passam as sombras,
um momento, no chão, perto de mim.
No tardo Verão que as trouxe e as demora,
por que beirais não sei
onde se abrigam piando
como ao passar chilreiam.


Um momento só. Rápidas voam!
E a vida em que regressam de outras terras
não é tão rápida: fiquei olhando
as sombras não, mas a memória delas,
das sombras não, mas de passarem aves.

Jorge de Sena, Pedra Filosofal



Ei-los que partem

Ei-los que partem
novos e velhos
buscando a sorte
noutras paragens
noutras aragens
entre outros povos
ei-los que partem
velhos e novos


Ei-los que partem
de olhos molhados
coração triste
e a saca às costas
esperança em riste
sonhos dourados
ei-los que partem
de olhos molhados


Virão um dia
ricos ou não
contando histórias
de lá de longe
onde o suor
se fez em pão
virão um dia
ou não

Manuel Freire

domingo, 26 de abril de 2009

Dia Mundial da Propriedade Intelectual

A poesia - cristal de palavras - vive em oferta permanente ao leitor. Hoje, e a propósito desta efeméride, prescindi das minhas dúvidas "filosóficas" sobre o assunto e recorri a quem muito sabe sobre a vida: ao poeta. Jorge de Sena fala de Camões (e de si também, claro), a propósito da autoria (propriedade) de textos e ideias e da justiça que a eternidade da palavra poética acaba por convocar historicamente.
"O seu a seu dono" em vida dos intelectuais, que está a história farta de ver partir prematuramente muitos dos seus melhores, com a eufemística desculpa de que "morrem cedo os que os deuses amam"...


"Camões dirige-se aos seus contemporâneos"

Podereis roubar-me tudo:
as ideias, as palavras, as imagens,
e também as metáforas, os temas, os motivos,
os símbolos, e a primazia
nas dores sofridas de uma língua nova,
no entendimento de outros, na coragem
de combater, julgar, de penetrarem
recessos de amor para que sois castrados.
E podereis depois não me citar,
suprimir-me, ignorar-me, aclamar até
outros ladrões mais felizes.
Não importa nada: que o castigo
será terrível. Não só quando
vossos netos não souberem já quem sois
terão de me saber melhor ainda
do que fingis que não sabeis,
como tudo, tudo o que laboriosamente pilhais,
reverterá para o meu nome. E mesmo será meu,
tido por meu, contado por meu,
até mesmo aquele pouco e miserável
que, só por vós, sem roubo, haveríeis feito.
Nada tereis, mas nada: nem os ossos,
que um vosso esqueleto há-de ser buscado,
para passar por meu. E para outros ladrões,
iguais a vós, de joelhos, porem flores no túmulo.

Jorge de Sena