O meu professor de Português era o Padre António Vieira dos sermões da Semana Santa na Beira Baixa... Foi ele que me explicou que aquilo de "fazer chorar as mulheres e levar os homens às lágrimas" fazia parte de uma disciplina chamada Retórica, que também vivia da capacidade de representação dramática do orador: teatro, portanto... e um alívio para mim que, tremendo, contava os meus dias de miúda na católica quaresma, para que o "Sermão do Encontro" e o da "Descida da Cruz" passassem rápido e com o mínimo de sofrimento possível! (Ainda hoje não entendo bem aquela coisa da "catarse" da tragédia clássica: faz bem, porquê? Descarga de adrenalina e fica tudo mais calmo... Ainda bem que é com os outros e não comigo?... Ná!... que eu saiba, comigo não funciona ou funciona mal: cuidado, cuidado, cuidado, medo, medo, medo, às vezes terror)...
A verdade é que desde aquela aula ("hoje é que vos vou explicar como é que eu faço chorar as mulheres nos Sermões da Semana Santa") em que o Padre Fatela nos levou às lágrimas de tanta gargalhada ao parodiar os seus próprios sermões, as suas técnicas de retórica ("eu começo sempre assim: Desde os mais altos picos das montanhas dos Himalaias e o seu cume do Evereste até às abissais profundezas da Fossa do Mindanau..."), os seus conhecimentos de Psicologia Colectiva ("e eu já não dizia nada... choravam homens, choravam mulheres, choravam crianças e eu só gritava em desespero para onde se não ouvia ainda o choro da tragédia de Cristo Nosso Senhor: AAAAAAArrrrrrgggghhhhhh!... e todos choravam...."), foi desde essa aula, dizia eu, que percebi que o meu Professor - orador era um sábio, um cientista da língua, um arquitecto de linguagens, um feroz Mestre e um Homem gentil, sensível e com grande sentido e saber de Humor (1).
Recordo-o com muita ternura e reconhecimento por tudo o que ele (consciente ou inconscientemente) fez por mim. Talvez ser professor seja só um acto de amor.
"Olha, minha filha, um dia hás-de ser escritora!", sonhou-me ele.
E acabei em professora de Português.
Como ele.
(BEM haja, professor querido. Hoje, também é o seu dia, sim?...)
Ilustração:(a partir da animação italiana do conto de Luís Sepúlveda, História de uma gaivota e do Gato que a ensinou a Voar)
(1) O meu primeiro professor de Inglês, então muito jovem, e colega do Padre Fatela contou-me uma anedota que este lhe contou numa reunião-festa de professores, a propósito dos "Cigarros Kart... dão kilómetros de prazer!" /(...)/ Palavra puxa palavra, cigarro puxa cigarro e, a páginas tantas, o padre volta-se para mim e pergunta: "Sabe porque é que o Kart é o cigarro dos padres?!" Francamente lhe respondi que ignorava a razão do fato, e aguardei a explicação! Chegando-se mais a mim, segredou-me ao ouvido: "É porque é o cigarro que dá kilómetros de prazer aos que não podem ter o prazer dos centímetros!..."
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terça-feira, 5 de outubro de 2010
segunda-feira, 29 de junho de 2009
Dia de S. Pedro

O S. Pedro era meu vizinho e eu gostava de o visitar: tinha uma igreja pequenina e antiga, com paredes revestidas de azulejos árabes e um tecto azul pejado de estrelas douradas. Só lá cabia ele no altar principal e, miúda que era, sempre lhe guardei um certo respeito e até temor: pequenino e em talha dourada, com uma chave na mão, parecia-me um menino grande que gostava que eu brincasse por ali, na sua vizinhança... mas os olhos, ai os olhos... grandes e redondos, pretos e brilhantes como os do escriba egípcio (que vim a conhecer mais tarde), pareciam estar sempre à espreita da primeira escorregadela para o "pecado", para me admoestarem e lembrar que... Na minha família havia alguns parentes com aqueles olhos, que acrescentavam às atrás descritas características um subtil e fluente estilo de humor... Se o S. Pedro, meu vizinho de brincadeiras, estivesse a sorrir um pouco, teria com certeza aquele olhar maroto de quem vai dizendo verdades com travessuras na voz! Que eu gostava muito dele, gostava (e da Santa Maria, que agora morava ali, desde que desaparecera a sua igreja, em anos dos tempos que já lá vão, do ainda assim nomeado Largo de Santa Maria, mais acima deste Largo de S. Pedro)... que os meninos mais novos que eu lhe plantaram uma tília que continua lá, também é verdade e que tenho muita pena de já não ter a fotografia que lhe tirei há muitos e muitos anos e que gos tava tanto de colocar aqui, entristece-me um bocadinho! Afinal, ele foi sempre um bom amigo e protector das minhas brincadeiras infantis e várias vezes deve ter evitado que fizesse mais umas asneirolas (daquelas que a mãe não gostava), só porque me tinha olhado nos olhos e não estava a sorrir e era logo a minha mãe que eu ouvia...
Tenho pena de não me lembrar de nenhuma quadra daquelas que eu ouvia quando era miúda e que muito me intrigavam: como é que os santos da igreja católica, tão sérios e de milagres, podiam ser alvo de tanta brincadeira malandreca? Vira o disco e toca o mesmo: tanto o S. António, como o S. João, como o S. Pedro ouviam os mesmos elogios (uns "thrickster" pagãos era o que era, uns namoradeiros malandrecos, uns... só durante este mês de Junho, é um facto...)...
quarta-feira, 24 de junho de 2009
Dia de S. João / Dia do Ardina

O melhor do S. João era o cheiro acre a rosmaninho, a "fogueira" grande e alta encimada por uma boneca toda vestida de cores garridas (a rimar com os arcos de bandeiras e balões de papel, que decoravam as ruas), o içar dessa "fogueira" (um tronco de pinheiro altíssimo, vestido e revestido de rosmaninho) e, lá pela meia-noite, o lançar fogo à "fogueira", ao som de cantos profanos que enchiam de alegria os ares, perfumados do cheiro forte e saudável das encostas dos montes, que davam garridice às gargantas e agilidade para o bailarico e para saltar as últimas labaredas dos lumes... E tudo a rir e a cantar:
S. João p'ra ver as moças
fez uma fonte de prata...
As moças não vão a ela,
S. João todo se mata...
(esta referência às fontes tinha ainda ritualização não pelo S. João, mas pelo Santo António: a população "corria as fontes", ou seja, percorria algumas das várias fontes da vila de Penamacor e, em cada uma, cantava e dançava quadras alusivas aos três santos populares que, como se pode deduzir da breve referência anterior à festa de S. João, mergulhavam as suas raízes na antiguidade pagã e parecem ser memória das "fogueiras de Beltane" celtas, por exemplo, que ritualizavam o solstício de verão de forma bastante semelhante...)
S. João surge nestas quadras como paradigma do homem folião, malandrão, engatatão (" S. João era bom homem / se não fosse tão velhaco..."), bem afastado do que sobre ele a Bíblia nos conta. A cristianização destas festas ancestrais não conseguiu apagar as memórias de cultos pagãos da natureza, rituais de fertilidade e ritos iniciáticos a que muitas delas estão associados.
Gosto do S. João e do Santo António e do S. Pedro... e das recordações felizes que, ao longo dos anos, têm semeado a minha vida "festiva"...
(A ver se ainda consigo recolher algumas das quadras da minha infância, porque de momento só consegui trazer à memória a que aqui transcrevi!... E vamos a mais uma sardinha assada e a um bom copo de vinho tinto!... Até p'ró ano!...)
sábado, 7 de março de 2009
Ribeiro Sanches faz 310 anos...

António Nunes Ribeiro Sanches, estrangeirado ecléctico e com grandes serviços à Nação (que, até ao fim, o impediu de regressar a Portugal, por ser de origem judaica), faz hoje 310 anos. Sobre ele ficam estes links, deixando para outra altura o texto que gostava de escrever. Afinal, devo-lhe o "orgulho" de ser penamacorense, assisti à inauguração do seu busto no largo da Câmara e iniciei a minha vida profissional na escola que aí ostenta o seu nome.
Ainda assim e porque nos tempos que correm as áreas do Ensino e Educação no nosso país continuam agitadas e muito "conflituosas", decidi aqui deixar um pouco da minha preocupação, através de breves excertos da obra de Ribeiro Sanches e da de Luís de Camões:
“… Além disso o povo não faz boas nem más acções e raríssimas vezes se move por sistema nem por reflexão: será cortês ou grosseiro, sisudo ou ralhador, pacífico ou insultador, conforme for tratado pelo seu cura, pelo seu juiz, pelo escudeiro ou lavrador honrado. O povo imita as acções dos seus maiores. A gente das vilas imita o trato das cidades à roda; as cidades o trato da capital; e a capital o da corte. Deste modo, que a mocidade plebeia tenha ou não mestre, os costumes, que tiver serão sempre a imitação dos que virem nos seus maiores, e não do ensino que tiveram nas escolas …”.
in Cartas sobre a Educação da Mocidade
E é por estas razões que me "atrapalham" os atropelos constantes à língua portuguesa, oriundos dos que Ribeiro Sanches apelida de "maiores". Nestas alturas vem-me à memória Os Lusíadas e prefiro que seja Camões a desancar epicamente esses "maiores" quando não o sabem ser :
"Enfim, não houve forte Capitão
Que não fosse também douto e ciente,
Da Lácia, Grega ou Bárbara nação,
Senão da Portuguesa tão-somente.
Sem vergonha o não digo, que a razão
De algum não ser por versos excelente
É não se ver prezado o verso e a rima,
Porque quem não sabe arte, não na estima."
in Os Lusíadas, V, 97
(Bom, bom... Este tom não é o da toada de "umdiapormuitosebonsanos" ... A verdade é que hoje é o dia de "Parabéns a Você" do menino António Nunes Ribeiro Sanches e além de uma salva de palmas, deixo-lhe uma fotografia bem mais bonita do que aquela com que convivi nos idos de Penamacor..)
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