Não conheço melhor homenagem literária ao Infante D. Henrique, que "O Infante" no poema-epopeia (?) Mensagem, de Fernando Pessoa:
O INFANTE
Deus quer, o homem sonha, a obra nasce
Deus quis que a terra fosse toda uma,
Que o mar unisse, já não separasse.
Sagrou-te, e foste desvendando a espuma,
E a orla branca foi de ilha em continente,
Clareou, correndo, até ao fim do mundo,
E viu-se a terra inteira, de repente,
Surgir, redonda, do azul profundo.
Quem te sagrou criou-te português.
Do mar e nós em ti nos deu sinal.
Cumpriu-se o mar, e o Império se desfez.
Senhor, falta cumprir-se Portugal!
Fernando Pessoa, Mensagem
... e quanto a homenagem musical, lembro-me sempre do excelente "Por este rio acima" de Fausto que, baseado na Peregrinação de Fernão Mendes Pinto, constrói uma também epopeia das nossas "Descobertas" (Fernão Mendes é o português embarcado nas naus do Infante...)
(no vídeo, a interpretação de Teresa Salgueiro; não melhor que a de Fausto, quanto a mim)
... e para ouvir o ano inteiro, uma oferta de António Vivaldi à eternidade (aqui, também num bonito vídeo...)
e, a propósito de música, um bocadinho da "música das vogais" do nosso Eugénio de Castro (aqui, todo em "E"), que alguma influência deve ter tido no nosso Fernando Pessoa da "Saudade Dada" (aqui, mais para o "I" e "A"...)
Um Sonho
Na messe, que enlourece, estremece a quermesse...
O sol, o celestial girassol, esmorece...
E as cantilenas de serenos sons amenos
Fogem fluidas, fluindo à fina flor dos fenos...
(...)
Eugénio de Castro, Oaristos
Saudade Dada Em horas inda louras, lindas
Clorindas e Belindas, brandas,
Brincam no tempo das berlindas,
As vindas vendo das varandas.
De onde ouvem vir a rir as vindas
Fitam a fio as frias bandas.
(...)
Fernando Pessoa

