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quinta-feira, 24 de novembro de 2011

Aniversário de António Gedeão

Não pode Amor por mais que as falas mude
exprimir quanto pesa ou quanto mede.
Se acaso a comoção falar concede
é tão mesquinho o tom que o desilude.

Busca no rosto a cor que mais o ajude,
magoado parecer aos olhos pede,
pois quando a fala a tudo o mais excede
não pode ser Amor com tal virtude.

Também eu das palavras me arreceio,
também sofro do mal sem saber onde
busque a expressão maior do meu anseio.

E acaso perde, o Amor que a fala esconde,
em verdade, em beleza, em doce enleio?
Olha bem os meus olhos, e responde.

António Gedeão, in “Poesias Completas”




Este é o poema do amor.
O poema que o poeta propositadamente escreveu
só para falar de amor,
de amor,
de amor,
de amor,
para repetir muitas vezes amor,
amor,
amor,
amor.
Para que um dia, quando o Cérebro Electrónico
contar as palavras que o poeta escreveu,
tantos que,
tantos se,
tantos lhe,
tantos tu,
tantos ela,
tantos eu,
conclua que a palavra que o poeta mais vezes escreveu
foi amor,
amor,
amor.
Este é o poema do amor.
António Gedeão
Imagem: Rick Clement

sexta-feira, 22 de abril de 2011

Dia Mundial da Terra

PASTORAL

Não há, não,
duas folhas iguais em toda a criação.

Ou nervura a menos, ou célula a mais,
não há de certeza, duas folhas iguais.

Limbo, todas têm,
que é próprio das folhas;
pecíolo algumas;
baínha nem todas.
Umas são fendidas,
crenadas, lobadas,
inteiras, partidas,
singelas, dobradas.
Outras acerosas,
redondas, agudas,
macias, viscosas,
fibrosas, carnudas.
Nas formas presentes,
nos actos distantes,
mesmo semelhantes
são sempre diferentes.

Umas vão e caem no charco cinzento,
e lançam apelo nas ondas que fazem;
outras vão e jazem
sem mais movimento.
Mas outras não jazem,
nem caem, nem gritam,
apenas volitam
nas dobras do vento.


É dessas que eu sou.

António Gedeão

N. B.: a ilustração foi retirada de art's, belíssimo site com trabalhos sobre folhas secas, entre outras "obras de arte"... e tudo começou com uma história de amor entre um rapaz chinês que encontrou a folha exacta para declarar o seu amor à mulher amada... O amor é a melhor escolha... verdade!!!...

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

Dia Internacional do Trabalho Digno (/decente)

 
"Só há liberdade a sério, quando houver a paz, o pão, habitação, saúde, educação...",  Sérgio Godinho
ou
"O Trabalho faz o Homem...", Michel Giacometti
ou
Calçada de Carriche

Luísa sobe,
sobe a calçada,
sobe e não pode
que vai cansada.
Sobe, Luísa,
Luísa, sobe,
sobe que sobe
sobe a calçada.

Saiu de casa
de madrugada;
regressa a casa
é já noite fechada.
Na mão grosseira,
de pele queimada,
leva a lancheira
desengonçada.
Anda, Luísa,
Luísa, sobe,
sobe que sobe,
sobe a calçada.
Luísa é nova,
desenxovalhada,
tem perna gorda,
bem torneada.
Ferve-lhe o sangue
de afogueada;
saltam-lhe os peitos
na caminhada.
Anda, Luísa.
Luísa, sobe,
sobe que sobe,
sobe a calçada.
Passam magalas,
rapaziada,
palpam-lhe as coxas,
não dá por nada.
Anda, Luísa,
Luísa, sobe,
sobe que sobe,
sobe a calçada.
Chegou a casa
não disse nada.
Pegou na filha,
deu-lhe a mamada;
bebeu da sopa
numa golada;
lavou a loiça,
varreu a escada;
deu jeito à casa
desarranjada;
coseu a roupa
já remendada;
despiu-se à pressa,
desinteressada;
caiu na cama
de uma assentada;
chegou o homem,
viu-a deitada;
serviu-se dela,
não deu por nada.
Anda, Luísa.
Luísa, sobe,
sobe que sobe,
sobe a calçada.
Na manhã débil,
sem alvorada,
salta da cama,
desembestada;
puxa da filha,
dá-lhe a mamada;
veste-se à pressa,
desengonçada;
anda, ciranda,
desaustinada;
range o soalho
a cada passada;
salta para a rua,
corre açodada,
galga o passeio,
desce a calçada,
desce a calçada,
chega à oficina
à hora marcada,
puxa que puxa,
larga que larga,
puxa que puxa,
larga que larga,
puxa que puxa,
larga que larga,
puxa que puxa,
larga que larga;
toca a sineta
na hora aprazada,
corre à cantina,
volta à toada,
puxa que puxa,
larga que larga,
puxa que puxa,
larga que larga,
puxa que puxa,
larga que larga.
Regressa a casa
é já noite fechada.
Luísa arqueja
pela calçada.
Anda, Luísa,
Luísa, sobe,
sobe que sobe,
sobe a calçada,
sobe que sobe,
sobe a calçada,
sobe que sobe,
sobe a calçada.
Anda, Luísa,
Luísa, sobe,
sobe que sobe,
sobe a calçada.

António Gedeão, in Teatro do Mundo
ou
...

domingo, 22 de março de 2009

Dia Mundial da Água / Dia do Teatro Amador

Dia Mundial da Água

Diz quem sabe que a maior parte de nós é água (fora a água que metemos e nunca é pouca!)... E como acho que esta informação é por demais importante para ousar brincar, valho-me do querido poeta António gedeão e professor Rómulo de Carvalho e trago para aqui as suas
"Lições sobre a Água"



Este líquido é água.Quando pura
é inodora, insípida e incolor.
Reduzida a vapor,
sob tensão e a alta temperatura,
move os êmbolos das máquinas que, por isso,
se denominam máquinas de vapor.
É um bom dissolvente.

Embora com excepções mas de um modo geral,
dissolve tudo bem, bases e sais.
Congela a zero graus centesimais
e ferve a 100, quando à pressão normal.
Foi neste líquido que numa noite cálida de Verão,

sob um luar gomoso e branco de camélia,
apareceu a boiar o cadáver de Ofélia
com um nenúfar na mão.
António Gedeão


e a sua "Lágrima de Preta" e, pelo menos, fica tudo dito, por ora...


Encontrei uma preta

que estava a chorar,

pedi-lhe uma lágrima

para a analisar.

Recolhi a lágrima

com todo o cuidado

num tubo de ensaio

bem esterilizado.

Olhei-a de um lado,

do outro e de frente:

tinha um ar de gotamuito transparente.

Mandei vir os ácidos,

as bases e os sais,

as drogas usadas

em casos que tais.

Ensaiei a frio,

experimentei ao lume,

de todas as vezes

deu-me o que é costume:

nem sinais de negro,

nem vestígios de ódio.

Água (quase tudo)

e cloreto de sódio.
António Gedeão



Dia do Teatro Amador


Acho o teatro uma forma privilegiada de comunicação: no mesmo espaço e no mesmo tempo, actores e público vivem uma história com todos os riscos da vida real. Lembro com grande ternura o Luís Miguel Cintra com uma crise de riso sem conseguir acabar o texto (penso que do António José da Silva), o Mário Viegas sem conseguir continuar o texto de tantas e tã sonoras gargalhadas da plateia ("Contos do Gin Tónico") ou o tropeção e correris desajeitada do Carlos Daniel no D. Maria, quando fazia o D. João de Molière... Estas "imperfeições" do espectáculo são para mim uma mais-valia e, nos casos referidos, tornaram mais "humanos" actores que me habituei a considerar "de excelência" (como sói dizer-se, nos tempos que correm)... Que também eu fui crescendo ao ritmo destas aprendizagens... Pena que não tivesse tido mais oportunidades de, amadoramente, me enfrentar com os outros de mim (público). Para quem dá aulas, é absolutamente necessário e, infelizmente, só uma vez me constou do currículo (curso de leitores, com o Jacinto Ramos)... A verdade é que eu nem teatro amador fiz... Só que este dia me faz sempre sorrir, pois me lembro da primeira vez que, com 7 anos (ou 8), desempenhei o meu primeiro papel teatral num palco, sob orientação do Padre Manuel (que viria a ser um querido professor meu de Português no ensino secundário)... Ele era novo, claro está, para ter toda aquela paciência, mas a verdade é que conseguiu levar um grupo de criancinhas da catequese a levar à cena a "Vida de Santa Inês". Coube-me o papel da protagonista e nunca esquecerei os gritos do ensaiador por eu não conseguir parar de rir quando, já morta e sobre um palanque, os meus colegas de catequese me cantavam um hino religioso em memória de mim, a santa Inês... O próprio Padre Manuel se esboroou a rir mais de uma vez, mas tantas ameaças de "vergonha" e "responsabilidade" me fez que, no dia aprazado (terá sido num 21 de janeiro?), lhe fui uma Santa Inês digna e responsável, com direito a muitos elogios e palmas do público!... E mais não conto... Teatro, sempre e amador, para quem o assim deseje. Eu gosto!

(a ilustração é da "Santa Inês", um dos "santinhos" que coleccionava em criança e que agora reencontrei bem a propósito!...)