segunda-feira, 9 de abril de 2012

Dia de Nossa Senhora do Incenso


Hoje, 2ª feira a seguir ao domingo de Páscoa, é dia da romaria de Nossa Senhora do Incenso.
A cerca de 4 km do centro da vila de Penamacor, a capela da Srª do Incenso é ponto de encontro obrigatório dos Penamacorenses: encontro de todos com cada um, em convívio e alegria, mas também de cada um consigo mesmo, num tempo interior de recolhimento com a "Mãe" da fé e do milagre. Hoje, é dia de, sentidamente, cantar:

"Viva a Senhora Virgem do Incenso
Que em cada filho tem um altar
E reina sempre nas nossas almas
Com o carinho de mãe sem par."

E é dia do grande piquenique das famílias e amigos, da alegre partilha das "merendas" do almoço, de risadas, brincadeiras, de conversas adiadas na lufa-lufa da vida de cada um, de beber da água fresca do poço da Srª e também de percorrer as tendas, comprar fios de pinhões, amêndoas e demais quinquilharias que os novos tempos vão trazendo com os seus artefactos de feira ansiosa (hélas!)... e mais... e mais... até para o ano!... Altura de entrar de novo na capela, despedir-se da "Senhora" e partir para fora daquele templo sagrado e do tempo sagrado de harmonia e bem-querer que o tempo da festa para si convoca.

Não estive lá. Mas estive. E por isso fui digitalizar o que sobre a Srª do Incenso escreveu o ilustre Professor e Etnógrafo José Manuel Landeiro (O Concelho de Penamacor na História, na Tradição e na Lenda, "Ermida de Nossa Senhora do Incenso", pp. 235-241, 2ª ed.)

Ermida de Nossa Senhora do Incenso
Penamacor, vila fronteiriça, e seu concelho foram sempre fervorosos devotos de Nossa Senhora. (p. 235)





E, por isso, junto também o vídeo que fiz sobre esta romaria há 2 anos atrás, com música recolhida por José Alberto Sardinha (como se diz em comentário no youtube)


E ainda um excelente "post" de António Serrano, revisitando de forma circunstanciada e feliz a romaria à Srª do Incenso nos anos 50, a partir das aldeias do concelho (neste caso, Aldeia de João Pires):

http://palavrassopalavras.blogspot.pt/2009/04/caminho-da-senhora-do-incenso.html

Até p'ró ano!...

segunda-feira, 19 de março de 2012

DIA do PAI


Enquanto houver um pai que baloice a filha nos joelhos, és tu que me baloiças no teu cavalinho das pernas. Enquanto me contas mais uma história para eu aprender a ser grande.

(Saudades... de quando o azul dos teus olhos pintava de azul primavera aquela camisa azul de manga curta... era dia de estares feliz.)

sexta-feira, 25 de novembro de 2011

quinta-feira, 24 de novembro de 2011

Aniversário de António Gedeão

Não pode Amor por mais que as falas mude
exprimir quanto pesa ou quanto mede.
Se acaso a comoção falar concede
é tão mesquinho o tom que o desilude.

Busca no rosto a cor que mais o ajude,
magoado parecer aos olhos pede,
pois quando a fala a tudo o mais excede
não pode ser Amor com tal virtude.

Também eu das palavras me arreceio,
também sofro do mal sem saber onde
busque a expressão maior do meu anseio.

E acaso perde, o Amor que a fala esconde,
em verdade, em beleza, em doce enleio?
Olha bem os meus olhos, e responde.

António Gedeão, in “Poesias Completas”




Este é o poema do amor.
O poema que o poeta propositadamente escreveu
só para falar de amor,
de amor,
de amor,
de amor,
para repetir muitas vezes amor,
amor,
amor,
amor.
Para que um dia, quando o Cérebro Electrónico
contar as palavras que o poeta escreveu,
tantos que,
tantos se,
tantos lhe,
tantos tu,
tantos ela,
tantos eu,
conclua que a palavra que o poeta mais vezes escreveu
foi amor,
amor,
amor.
Este é o poema do amor.
António Gedeão
Imagem: Rick Clement

quarta-feira, 5 de outubro de 2011

Dia do Professor

O Professor como Mestre
Não me basta o professor honesto e cumpridor dos seus deveres; a sua norma é burocrática e vejo-o como pouco mais fazendo do que exercer a sua profissão; estou pronto a conceder-lhe todas as qualidades, uma relativa inteligência e aquele saber que lhe assegura superioridade ante a classe; acho-o digno dos louvores oficiais e das atenções das pessoas mais sérias; creio mesmo que tal distinção foi expressamente criada para ele e seus pares. De resto, é sempre possível a comparação com tipos inferiores de humanidade; e ante eles o professor exemplar aparece cheio de mérito. Simplesmente, notaremos que o ser mestre não é de modo algum um emprego e que a sua actividade se não pode aferir pelos métodos correntes; ganhar a vida é no professor um acréscimo e não o alvo; e o que importa, no seu juízo final, não é a ideia que fazem dele os homens do tempo; o que verdadeiramente há-de pesar na balança é a pedra que lançou para os alicerces do futuro.






A sua contribuição terá sido mínima se o não moveu a tomar o caminho de mestre um imenso amor da humanidade e a clara inteligência dos destinos a que o espírito o chama; errou o que se fez professor e desconfia dos homens, se defende deles, evita ir ao seu encontro de coração aberto, paga falta com falta e se mantém na moral da luta; esse jamais tornará melhores os seus alunos; poderão ser excelentes as palavras que profere; mas o moço que o escuta vai rindo por dentro porque só o exemplo o abala. Outros há que fazem da marcha do homem sobre a Terra uma estranha concepção; vêem-no girando perpetuamente nos batidos caminhos; e, julgando o mundo por si, não descobrem em volta mais que uma eterna condenação à maldade, à cegueira e à miséria; bem no fundo da alma nenhuma luz que os alumie e solicite; porque não acreditam em progresso nenhuma vontade de melhorar; são os que troçam daquilo a que chamam «a pedagogia moderna»; são os que se riem de certos loucos que pensam o contrário.




Ora o mestre não se fez para rir; é de facto um mestre aquele de que os outros se riem, aquele de que troçam todos os prudentes e todos os bem estabelecidos; pertence-lhe ser extravagante, defender os ideais absurdos, acreditar num futuro de generosidade e de justiça, despojar-se ele próprio de comodidades e de bens, viver incerta vida, ser junto dos irmãos homens e da irmã Natureza inteligência e piedade; a ninguém terá rancor, saberá compreender todas as cóleras e todos os desprezos, pagará o mal com o bem, num esforço obstinado para que o ódio desapareça do mundo; não verá no aluno um inimigo natural, mas o mais belo dom que lhe poderiam conceder; perante ele e os outros nenhum desejo de domínio; o mestre é o homem que não manda; aconselha e canaliza, apazigua e abranda; não é a palavra que incendeia, é a palavra que faz renascer o canto alegre do pastor depois da tempestade; não o interessa vencer, nem ficar em boa posição; tornar alguém melhor — eis todo o seu programa; para si mesmo, a dádiva contínua, a humildade e o amor do próximo.


Agostinho da Silva, in 'Considerações'

quinta-feira, 15 de setembro de 2011

Aniversário de Bocage


Excessivo... explosivo... monumental na dor, no amor e nos afectos... na forma da escrita e no empolamento das paixões... temível e, às vezes, burlesco... "Eis Bocage em quem luz algum talento", dizia ele... Muito talento, acho eu...
Fica um poema satírico, onde o calão é arma de arremesso social e grito de humor e dor.



"A Água"

Meus senhores eu sou a água
que lava a cara, que lava os olhos
que lava a rata e os entrefolhos
que lava a nabiça e os agriões
que lava a piça e os colhões
que lava as damas e o que está vago
pois lava as mamas e por onde cago.

Meus senhores aqui está a água
que rega a salsa e o rabanete
que lava a língua a quem faz minete
que lava o chibo mesmo da raspa
tira o cheiro a bacalhau rasca
que bebe o homem, que bebe o cão
que lava a cona e o berbigão.

Meus senhores aqui está a água
que lava os olhos e os grelinhos
que lava a cona e os paninhos
que lava o sangue das grandes lutas
que lava sérias e lava putas
apaga o lume e o borralho
e que lava as guelras ao caralho

Meus senhores aqui está a água
que rega rosas e manjericos
que lava o bidé, que lava penicos
tira mau cheiro das algibeiras
dá de beber ás fressureiras
lava a tromba a qualquer fantoche e
lava a boca depois de um broche.

Manuel Maria Barbosa du Bocage

Vídeo: "Bocage por detrás da história", making off