domingo, 29 de novembro de 2009

Dia Internacional de Solidariedade com o Povo Palestiniano

Escolhi 3 documentos para lembrar esta efeméride, em ordem crescente de cooperação e paz. Às vezes, é mesmo bom interrogar o passado...


O caminho das dores
(Poema inspirado em uma visita à velha Jerusalém)

A terra
dos braseiros em chamas
o caminho calçado de punhais
o itinerário da provação e das dores
se prolonga, sem fim
as pedras da rua me falam
da provação
daquele que levou a coroa de espinhos
seu sangue que cheira corre, corre
e o sol acelera a sangria
a rua... ondas de gargantas
abrasadas pelo chicote gritam:
"Senhor... resiste ao crucifixo
ou roga a teu deus todo poderoso".

E a planície devolve os ecos
que ressoam através dos séculos
"Ó senhor... resite à provação..."

O Senhor se cansou de seu crucifixo
Ó verdugos
Pilatos não é eterno
os dias se encarregarão dele
o itinerário da provação das dores
guiará as massas humanas aos lugares de crucificação
nós continuaremos caminhando sem cessar
e em nossa marcha construiermos a paz
o hino da dignidade nos envolve
o chamado da justiça nos adverte
semeia hoje, colherás amanhã
colheremos as sementes com nossas mãos
felicidade - paz - dignidade.

Às vezes apetece dizer com António Gedeão e pelas mesmas razões que ele enumera "Abaixo o mistério da poesia"!...

PÁSSARO MORTO
Durante muito tempo me interroguei
quando virás? Quando surgirás tu?
Nascerás da erva
emergirás do desconhecido
ou não és mais que um impossível amanhã?
Durante muito tempo me interroguei
e quando sondei os espelhos do tanque
dispersei-me entre os fragmentos dos espelhos
não encontrei o meu rosto em estilhaços
Vi-te a ti
e quando estendi as mãos
para tocar o teu rosto
os sinais da minha última ilusão dissiparam-se
tu dispersaste-te como os espelhos do tanque
e sobre a água ficou
um pássaro morto

SAMIH AL-QASSIMPequena Antologia da Poesia Palestiniana Contemporânea, selecção e tradução de Albano Martins,Asa, 2004

Memórias felizes de outros tempos felizes (cooperação...)

Notes to some Stories of Arabische Maerchen, 2nd vol., translated and edited by Max Weisweler (Notas a Algumas Histórias dos Arabischen Maerchen, 2º volume, traduzido e editado por Max Weisweiler)Elisheva Schoenfeld
Nos Arabische Maerchen, Weiseiler publicou histórias das colecções de Al-Ibshihi, Al-Jaffη’η, Ibn Hijjah, assim como do tratado de zoologia As Vidas dos Animais, de Damiri. Estes autores viveram entre meados dos sécs. XIV e XV. As histórias examinadas são extraídas do capítulo “Von den Wundern der Gnade” (=sobre a magia da misericórdia) e transmitem sobretudo valores morais. É investigada a questão de quando e como as histórias judaicas foram absorvidas pelos muçulmanos, assim como a estreita relação entre as lendas dos dois povos.

Para comparar o material árabe e judeu, seleccionámos nove histórias. Cinco das lendas investigadas, assim como o motivo do “Nome Inefável” na história com o mesmo nome, parecem ser de origem judaica, uma vez que os paralelos hebraicos apontam para fontes que precedem o Alcorão e têm em parte origem numa minoria judaica vivendo num território hostil. A origem das restantes histórias não pôde ser determinada, uma vez que as fontes dos paralelos na literatura judaica são posteriores ao Alcorão.

Como as culturas judaica e islâmica viveram lado a lado durante séculos, influenciando-se mutuamente, também os contos foram transmitidos em ambos os sentidos. Além de recorrer à sua própria imaginação, os contadores profissionais árabes assimilaram de fontes judaicas e cristãs, assim como os escritores judeus e os Midrasim absorveram histórias de origem “mista”. O longo período de influências mútuas é, segundo a formulação do Prof. Goitren, um período de “simbiose creativa”. Esperemos que uma “simbiose creativa” venha a ser restabelecida, em particular entre os Israelitas e os Palestinianos.
in revista ELO, nº3, Centro de Estudos Ataíde Oliveira

sexta-feira, 27 de novembro de 2009

Dia Nacional da Cultura e da Ciência

Actual, universal e intemporal, Os Lusíadas de Luís de Camões apresenta-nos para além da sua dimensão estética, páginas de História pátria com uma reflexão filosófica aprofundada sobre a nossa identidade enquanto povo. Homem de ciência (que as "letras e humanidades" o são também ), Camões parte da realidade do Portugal que viveu para deduzir (glorificar ou invectivar)características que ele considera habituais nos portugueses: valentia e coragem nos feitos guerreiros e marítimos, mas falta de cultura e ciência na forma de encarar a sociedade. Como ele nos diz, excelentemente (estrofe 99), a sorte de Vasco da Gama foi ter alguém (ele próprio, Camões)que lhe eternizasse pela escrita os feitos bélicos, senão seria mais um dos muitos Portugueses valorosos, esquecidos pelo futuro da Pátria lusa...
A cultura (e a ciência, como uma sua forma de expressão) acaba por ser erigida em "valor humano universal", absolutamente necessário a quem governa ou assume lugares de chefia na Nação: é ela que faz as chefias mais humildes, mais justas, mais tolerantes, mais sábias... Ontem, como hoje, Camões ajuda-nos a interpretar a realidade histórica e humana da sociedade em que vivemos.
(seria bom e justo não esquecermos pelo menos a dívida que a sociedade lhe tem para a eternidade, tendo em conta os sofrimentos físicos e anímicos a que o sujeitou em vida... É que Camões continua por aí e arriscamo-nos a enviá-lo para o exílio, para a prisão e a dar-lhe como meio de subsistência pelos "Elevados Serviços à Nação" uma magérrima "tença" da Segurança Social,...)

Para LER com calma ( e ao longo da vida...)

95

Dá a terra lusitana Cipiões,
Césares, Alexandros, e dá Augustos;
Mas não lhe dá contudo aqueles dões
Cuja falta os faz duros e robustos.
Octávio, entre as maiores opressões,
Compunha versos doutos e venustos.
Não dirá Fúlvia certo que é mentira,
Quando a deixava António por Glafira,

96

Vai César, sojugando toda França,
E as armas não lhe impedem a ciência;
Mas , numa mão a pena e noutra a lança,
Igualava de Cícero a eloquência.
O que de Cipião se sabe e alcança,
É nas comédias grande experiência.
Lia Alexandro a Homero de maneira
Que sempre se lhe sabe à cabeceira.

97

Enfim, não houve forte capitão,
Que não fosse também douto e ciente
,
Da Lácia, Grega, ou Bárbara nação,
Senão da Portuguesa tão somente
.
Sem vergonha o não digo, que a razão
De algum não ser por versos excelente,
É não se ver prezado o verso e rima,
Porque, quem não sabe arte, não na estima.

98

Por isso, e não por falta de natura,
Não há também Virgílios nem Homeros;
Nem haverá, se este costume dura,
Pios Eneias, nem Aquiles feros.
Mas o pior de tudo é que a ventura
Tão ásperos os fez, e tão austeros,
Tão rudos, e de engenho tão remisso,
Que a muitos lhe dá pouco, ou nada disso
.

99

As Musas agradeça o nosso Gama
o Muito amor da Pátria, que as obriga
A dar aos seus na lira nome e fama

De toda a ilustre e bélica fadiga:
Que ele, nem quem na estirpe seu se chama,
Calíope não tem por tão amiga,
Nem as filhas do Tejo,
que deixassem
As telas douro fino, e que o cantassem.

100

Porque o amor fraterno e puro gosto
De dar a todo o Lusitano feito
Seu louvor, é somente o pressuposto
Das Tágides gentis, e seu respeito.
Porém não deixe enfim de ter disposto
Ninguém a grandes obras sempre o peito,
Que por esta, ou por outra qualquer via,
Não perderá seu preço, e sua valia.


(e, a propósito do final da estrofe 100, é quase impossível não ouvir Fernando Pessoa:"...Tudo vale a pena / se a alma não é pequena..."

quarta-feira, 25 de novembro de 2009

Dia Internacional para a Eliminação da Violência contra as Mulheres / Dia Nacional do Empresário

Seria bom que a resolução da "violência contra as mulheres" passasse por soluções como a deste excelente (e delicioso) poema de Jorge Barbosa, escritor cabo-verdiano:


POEMA

Por causa que tu
não quiseste dançar
comigo no baile
fiquei com um ácido
no meu coração
fiquei a pensar
em mortes violentas
crimes passionais
qual escolher para te matar.

Isso era antes
no tempo de eu moço.

Agora tens netos
e filhos também
evidentemente.

Entretanto acontece
que os netos e os filhos
são de nós dois.

Jorge Barbosa, Sal, 1966

terça-feira, 24 de novembro de 2009

Dia Nacional da Cultura Científica / Aniversário de António Gedeão / Dia Mundial da Ciência

...Problema mesmo é pensar que a verdade do mundo é a verdade que eu leio dele; problema mesmo é pensar que a verdade reside na verdade provisória da ciência. Problema nenhum é, para mim, acreditar que nascemos para ser felizes. É assim que eu completo interiormente este poema de António Gedeão, nosso poeta-cientista-filósofo que, hoje, faz anos e se (nos) interpelou sobre a validade do sofrimento humano...
... e para que a ciência sirva sempre a felicidade do Homem...

Poema do alegre desespero

Compreende-se que lá para o ano três mil e tal
ninguém se lembre de certo Fernão barbudo
que plantava couves em Oliveira do Hospital,

ou da minha virtuosa tia-avó Maria das Dores
que tirou um retrato toda vestida de veludo
sentada num canapé junto de um vaso com flores.

Compreende-se.

E até mesmo que já ninguém se lembre que houve três impérios no Egipto
(o Alto Império, o Médio Império e o Baixo Império)
com muitos faraós, todos a caminharem de lado e a fazerem tudo de perfil,
e o Estrabão, o Artaxerpes, e o Xenofonte, e o Heraclito,
e o desfiladeiro das Termópilas, e a mulher do Péricles, e a retirada dos dez mil,
e os reis de barbas encaracoladas que eram senhores de muitas terras,
que conquistavam o Lácio e perdiam o Épiro, e conquistavam o Épiro e perdiam o Lácio,

e passavam a vida inteira a fazer guerras,
e quando batiam com o pé no chão faziam tremer todo o palácio,
e o resto tudo por aí fora,
e a Guerra dos Cem Anos,
e a Invencível Armada,
e as campanhas de Napoleão,
e a bomba de hidrogénio,
e os poemas de António Gedeão.

Compreende-se.

Mais império menos império,
mais faraó menos faraó,
será tudo um vastíssimo cemitério,
cacos, cinzas e pó.

Compreende-se.
Lá para o ano três mil e tal.

E o nosso sofrimento para que serviu afinal?
António Gedeão

sábado, 21 de novembro de 2009

Dia da Saudação

Um dia, fiz um lago no jardim e no lago viveram a Rã, a Rela e a Reineta e o primeiro lótus que lá nasceu e floriu era igual a este que fica aqui... Para todos os que me visitam no blogue.

Dia Mundial da Televisão / Dia M. da Memória das Vítimas da Estrada / Dia Int. da Saudação / Dia Mundial da Spina Bífida e Hidrocefalia

O inventor da televisão foi John Baird , um escocês. Foi apenas a partir de 1934, quando Vladmir Zworykin, um russo a viver nos EUA, criou o iconoscópio, que surgiram as primeiras aplicações práticas. Do que eu me lembro bem, quando era miúda, é da publicidade à Jota Pimenta ( em animação), do Speedy Gonzalez (um herói de rato...), do Silvester (um malandro de gato), do Sandokan (um "príncipe encantado", minha quase "paixão" televisiva pré-adolescente) e... sei lá que mais: um encantamento! Aqui fica uma imagem e um lik de vídeo do rato mais veloz do México com o seu arqui-inimigo gato Silvester e mais população que continua, arquetipicamente, à nossa volta! Como resistir a esta delícia de desenhos, ainda por cima animados?!... Está lá o nosso dia-a-dia todo...

(a estes amiguinhos, conheci-os pela televisão...)

sexta-feira, 20 de novembro de 2009

Dia Universal da Criança / Dia da Industrialização da África

Declaração dos Direitos da Criança

Proclamada pela Resolução da Assembleia Geral 1386 (XIV), de 20 de Novembro de 1959.

Preâmbulo

Considerando que os povos das Nações Unidas reafirmaram, na Carta, a sua fé nos direitos fundamentais, na dignidade do homem e no valor da pessoa humana e que resolveram favorecer o progresso social e instaurar melhores condições de vida numa liberdade mais ampla;

Considerando que as Nações Unidas, na Declaração dos Direitos do Homem, proclamaram que todos gozam dos direitos e liberdades nela estabelecidas, sem discriminação alguma, de raça, cor, sexo, língua, religião, opinião política ou outra, origem nacional ou social, fortuna ou outra situação;

Considerandoque a criança, por motivo da sua falta de maturidade física e intelectual, tem necessidade uma protecção e cuidados especiais, nomeadamente de protecção jurídica adequada, tanto antes como depois do nascimento;

Considerando que a necessidade de tal protecção foi proclamada na Declaração de Genebra dos Direitos da Criança de 1924 e reconhecida na Declaração Universal dos Direitos do Homem e nos estatutos de organismos especializados e organizações internacionais preocupadas com o bem-estar das crianças;

Considerando que a Humanidade deve à criança o melhor que tem para dar,

A Assembleia Geral

Proclama esta Declaração dos Direitos da Criança com vista a uma infância feliz e ao gozo, para bem da criança e da sociedade, dos direitos e liberdades aqui estabelecidos e com vista a chamar a atenção dos pais, enquanto homens e mulheres, das organizações voluntárias, autoridades locais e Governos nacionais, para o reconhecimento dos direitos e para a necessidade de se empenharem na respectiva aplicação através de medidas legislativas ou outras progressivamente tomadas de acordo com os seguintes princípios:


Princípio 1.º

A criança gozará dos direitos enunciados nesta Declaração. Estes direitos serão reconhecidos a todas as crianças sem discriminação alguma, independentemente de qualquer consideração de raça, cor, sexo, idioma, religião, opinião política ou outra da criança, ou da sua família, da sua origem nacional ou social, fortuna, nascimento ou de qualquer outra situação.

Princípio 2.º

A criança gozará de uma protecção especial e beneficiará de oportunidades e serviços dispensados pela lei e outros meios, para que possa desenvolver-se física, intelectual, moral, espiritual e socialmente de forma saudável e normal, assim como em condições de liberdade e dignidade. Ao promulgar leis com este fim, a consideração fundamental a que se atenderá será o interesse superior da criança.

Princípio 3.º

A criança tem direito desde o nascimento a um nome e a uma nacionalidade.

Princípio 4.º

A criança deve beneficiar da segurança social. Tem direito a crescer e a desenvolver-se com boa saúde; para este fim, deverão proporcionar-se quer à criança quer à sua mãe cuidados especiais, designadamente, tratamento pré e pós-natal. A criança tem direito a uma adequada alimentação, habitação, recreio e cuidados médicos.

Princípio 5.º

A criança mental e físicamente deficiente ou que sofra de alguma diminuição social, deve beneficiar de tratamento, da educação e dos cuidados especiais requeridos pela sua particular condição.

Princípio 6.º

A criança precisa de amor e compreensão para o pleno e harmonioso desenvolvimento da sua personalidade. Na medida do possível, deverá crescer com os cuidados e sob a responsabilidade dos seus pais e, em qualquer caso, num ambiente de afecto e segurança moral e material; salvo em circunstâncias excepcionais, a criança de tenra idade não deve ser separada da sua mãe. A sociedade e as autoridades públicas têm o dever de cuidar especialmente das crianças sem família e das que careçam de meios de subsistência. Para a manutenção dos filhos de famílias numerosas é conveniente a atribuição de subsídios estatais ou outra assistência.

Princípio 7.º

A criança tem direito à educação, que deve ser gratuita e obrigatória, pelo menos nos graus elementares. Deve ser-lhe ministrada uma educação que promova a sua cultura e lhe permita, em condições de igualdade de oportunidades, desenvolver as suas aptidões mentais, o seu sentido de responsabilidade moral e social e tornar-se um membro útil à sociedade.
O interesse superior da criança deve ser o princípio directivo de quem tem a responsabilidade da sua educação e orientação, responsabilidade essa que cabe, em primeiro lugar, aos seus pais.
A criança deve ter plena oportunidade para brincar e para se dedicar a actividades recreativas, que devem ser orientados para os mesmos objectivos da educação; a sociedade e as autoridades públicas deverão esforçar-se por promover o gozo destes direitos.

Princípio 8.º

A criança deve, em todas as circunstâncias, ser das primeiras a beneficiar de protecção e socorro.

Princípio 9.º

A criança deve ser protegida contra todas as formas de abandono, crueldade e exploração, e não deverá ser objecto de qualquer tipo de tráfico. A criança não deverá ser admitida ao emprego antes de uma idade mínima adequada, e em caso algum será permitido que se dedique a uma ocupação ou emprego que possa prejudicar a sua saúde e impedir o seu desenvolvimento físico, mental e moral.

Princípio 10.º

A criança deve ser protegida contra as práticas que possam fomentar a discriminação racial, religiosa ou de qualquer outra natureza. Deve ser educada num espírito de compreensão, tolerância, amizade entre os povos, paz e fraternidade universal, e com plena consciência de que deve devotar as suas energias e aptidões ao serviço dos seus semelhantes.

terça-feira, 17 de novembro de 2009

Dia Nacional do não fumador

Comecei a fumar na idade do porque não, vulgo, adolescência. Não comemoro este dia, visto que continuo a fumar, embora espere bem que um dia possa comemorá-lo com uma história simpática de um fumador qualquer (tipo aquela bibliotecária que fumou até aos 80 e tal anos e faleceu com cento e tal, em França, penso...). Na verdade, gostaria de não ter começado e dou comigo a refilar desde esses tempos pelo facto de a "sociedade" (as empresas do tabaco, presumo e o poder político que as sustém) me ter criado e incentivado esse hábito social de irreverência, de glamour, de prazer ("king size, quilómetros de prazer...", com uma espécie de Lucky Luke solitário e aventureiro na rota das planícies americanas...)... Aborrece-me esta "obediência" prazenteira em que fluímos ao ritmo da publicidade criativa e inteligente, capaz de dialogar com as nossas necessidades mais básicas e dar resposta de momento (qual melhoral, não faz bem, nem faz mal) às nossas "dores de crescimento".
Se houve tanto cuidado nas estratégias para criar o hábito de fumar, por que razão não se coloca a mesma criatividade e subtileza nas estratégias para deixar de o fazer?... Aos sonhos iniciais responde o mesmo "poder" com os nossos fantasmas e maiores receios: infertilidade, doença letal, morte, multa, impostos, proibição, discriminação...
Todos sabemos que há que tomar cuidado com as "modas" e as novas necessidades (e oportunidades) de consumo que a sociedade nos propõe. Por este andar e modo de fazer política, ainda veremos a penalização dos "adictos" do turismo dos paraísos artificiais, porque degradam as condições de vida do planeta, contribuem para a exploração social e humana dos autóctones, endividam-se para poder passear, etc., etc., etc...
Ser forte, às vezes, é dizer que não e aprendemos isso de forma veemente na nossa adolescência. A verdade, porém, é que ao dizermos que não a uma franja do social que nos vê como um "patinho feio", corremos o risco de repetir a história na sociedade de "cisnes" que nos mostraram. E o "canto do cisne" não é de todo agradável...
Resumindo e concluindo: comecei a fumar, mas nunca deixei de ouvir a minha voz interior que me aconselhava a não o fazer, por uma questão de saúde. Já lá vão muitos anos, fui-me consolando com uma opinião da psicologia e neurologia que , em traços largos, demonstrava que o tabaco funcionava como um "ansiolítico" e... sabem que mais? Deixem-nos em paz e quando nos aumentarem o tabaco, não se esqueçam de dar melhores condições de vida às populações autóctones das ilhas paradisíacas... para ver se não temos ainda que nos chatear com as "fragilidades do sistema" e mais mil e uma reportagens bem indigestas a seguir a um "telejornal" recheado de "adictos" da velocidade, do dinheiro ou da beleza de bisturi.
Que se lixe! Hoje, ainda não consegui celebrar... Deve haver outra efeméride qualquer para eu poder fazer um brinde... Hip... hip.. hurra!...

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

Dia Internacional da Tolerância / Dia Nacional do Mar

A verdade é, também, que nós cansamos as palavras; sobretudo as que remetem para valores morais. De tanto nos servirmos delas, acabamos por as desgastar. Tolerância é, por isso e também, compreender as variáveis (no espaço e tempo)que nos permitem receber da mesma maneira as lições de vida que os sábios nos vão oferecendo...

A tolerância é a caridade da inteligência. Jules Lemaitre

A tolerância é a melhor das religiões , Victor Hugo

O sistema da igualdade pareceu-me sempre um orgulho de louco. O mesmo não sucede com a tolerância , Voltaire

Entre as palavras e as ideias detesto esta: tolerância. É uma palavra das sociedades morais em face da imoralidade que utilizam. É uma ideia de desdém; parecendo celeste, é diabólica; é um revestimento de desprezo, com a agravante de muita gente que o enverga ficar com a convicção de que anda vestida de raios de sol , Agostinho da Silva

... e, quanto ao "mar anterior nós", ficamo-nos mais uma vez pela Sophia e por mais uma belíssima ilustração de Danuta Wojciechowska...
FUNDO DO MAR

No fundo do mar há brancos pavores,
Onde as plantas são animais
E os animais são flores.
Mundo silencioso que não atinge
A agitação das ondas.
Abrem-se rindo conchas redondas,
Baloiça o cavalo-marinho.
Um polvo avança
No desalinho
Dos seus mil braços,
Uma flor dança,
Sem ruído vibram os espaços.

Sobre a areia o tempo poisa
Leve como um lenço.

Mas por mais bela que seja cada coisa
Tem um monstro em si suspenso.

Sophia de Mello Breyner Andersen

domingo, 15 de novembro de 2009

Dia Nacional da Língua Gestual portuguesa

Para os meus ex-alunos "deficientes auditivos", que me ensinaram, humana e pedagogicamente, muito... e porque a ternura que me deram era simultaneamente profunda e poética, com a espontaneidade própria das crianças (que em si continuava a crescer), fica a música e o poema que André Sardet escreveu, inspiradamente, para a sua filhota
"...Gosto de ti desde aqui até à lua,
Gosto de ti, desde a Lua até aqui.
Gosto de ti, simplesmente porque gosto, e é tão bom viver assim
..."
André Sardet

sábado, 14 de novembro de 2009

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

Dia de S. Martinho / Dia do Armistício

S. Martinho é símbolo de generosidade e caminho. A capa que oferece ao pobre é o seu agasalho de alma, o que lhe permite a ele e a nós sonhar um mundo onde a partilha e a generosidade fazem brilhar e aquecer o sol de Outono. Fiquemo-nos pelas castanhas e água-pé e mais um conto recolhido pelos Grimm (na versão francesa, a que possuo) e que remete para o mesmo sentido: "Quem dá também recebe"... há quem diga que o dobro.. (no conto de Grimm a menina, qual S. Martinho, fica rica para a eternidade; acreditamos que material e espiritualmente)...

L'argent du ciel
Il était une fois une petite fille qui avait perdu son père et sa mère, et qui était pauvre, mais si pauvre qu'elle n'avait plus rien : pas de petite chambre où demeurer, pas de lit pour dormir, rien, si ce n'est les habits qu'elle avait sur le dos et un petit quignon de pain qu'on lui avait donné par charité. Mais c'était une brave petite fille qui avait bon cœur et qui aimait le bon Dieu. Et comme elle se trouvait abandonnée de tous, elle s'en alla à travers la campagne sans perdre sa confiance en Dieu. Voilà qu'elle rencontre un vieillard qui lui dit : « Oh donne-moi quelque chose à manger : j'ai si faim ! » Elle lui tendit son quignon de pain en entier, lui disant : « Dieu te bénit ! » Un peu plus loin, c'est un garçon qui vient à elle en gémissant et qui lui dit : « J'ai si froid à la tête ! Donne-moi quelque chose pour me couvrir ! » Elle ôta alors son bonnet et le lui donna.

Plus loin encore, ce fut un autre enfant qui tremblait de froid, une fillette qui n'avait pas de corsage ; alors, elle lui donna le sien. Et plus loin encore, il y eut une petite fille sans jupe à laquelle elle donna la sienne également. Puis pour finir, elle était arrivée dans une forêt et il commençait à faire bien sombre quand elle rencontra encore un enfant qui lui demanda sa chemise. La brave petite fille se dit que personne ne la verrait, puisqu'il faisait nuit noire ; alors elle enleva sa petite chemise et la donna à l'enfant tout nu.

Mais comme elle était là, n'ayant plus rien de rien, voilà soudain qu'il tomba une pluie d'étoiles devant elle. Chaque étoile était un bel écu d'argent. Et en même temps, bien qu'elle eût donné sa petite chemise, elle vit qu’elle en portait une pourtant, et de la plus fine toile de lin encore ! Elle ramassa tous les beaux écus et fut riche jusqu'à la fin de ses jours.

J. & W. Grimm, Contes,II, Grand format Flammarion, p. 313

terça-feira, 10 de novembro de 2009

Dia Mundial da Ciência ao Serviço da Paz e do Desenvolvimento

Pedra Filosofal
Eles não sabem que o sonho
é uma constante da vida
tão concreta e definida
como outra coisa qualquer,
como esta pedra cinzenta
em que me sento e descanso,
como este ribeiro manso
em serenos sobressaltos,
como estes pinheiros altos
que em verde e oiro se agitam,
como estas aves que gritam
em bebedeiras de azul.
Eles não sabem que o sonho
é vinho, é espuma, é fermento
,
bichinho álacre e sedento,
de focinho pontiagudo,
que fossa através de tudo
num perpétuo movimento.

Eles não sabem que o sonho
é tela, é cor, é pincel,
base, fuste, capitel,
arco em ogiva, vitral,
pináculo de catedral,
contraponto, sinfonia,
máscara grega, magia,
que é retorta de alquimista,
mapa do mundo distante,
rosa-dos-ventos, Infante,
caravela quinhentista,
que é Cabo da Boa Esperanca,
ouro, canela, marfim,
florete de espadachim,
bastidor, passo de dança,
Colombina e Arlequim,
passarola voadora,
pára-raios, locomotiva,
barco de proa festiva,
alto-forno, geradora,
cisão do átomo, radar,
ultra-som, televisão,
desembarque em foguetão
na superfície lunar.

Eles não sabem, nem sonham,
que o sonho comanda a vida.
Que sempre que um homem sonha
o mundo pula e avança
como bola colorida
entre as mãos duma criança.


António Gedeão, Movimento Perpétuo, 1956

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

Dia Internacional contra o Fascismo e o Anti-semitismo

Andy Warhol retratou alguns judeus e eu gosto muito desta série de retratos. Aqui ficam três de três personalidades que por razões diferentes me são muito caras... Albert Einstein, Franz Kafka, Sigmund Freud, George Gershwin, Sarah Bernhardt, irmãos Marx...Ribeiro Sanches... tantos, tantos que para além de nos continuarem a educar, têm em comum o facto de ser judeus...
"Era uma vez um pintor que tinha um aquário e, dentro do aquário, um peixe encarnado. Vivia o peixe tranquilamente acompanhado pela sua cor encarnada, quando a certa altura começou a tornar-se negro a partir - digamos - de dentro. (...) o artista pintou na sua tela um peixe amarelo" Herberto Helder, Retrato em Movimento, II

domingo, 8 de novembro de 2009

Dia Mundial do Urbanismo

Parece que vamos ter passeios-esplanada no Terreiro do Paço. Que bom! Cada vez que ali me desloco, não consigo deixar de pensar em Veneza e na Praça de São Marcos... Oxalá as esplanadas se encham de orquestras, os cafés e restaurantes das boas iguarias portuguesas e um bom café ( a nossa "bica") e um bom chocolate quente nas noites de névoa e neblina sobre o rio e a praça... e muitas, muitas passeatas a pé e muito silêncio habitado pela música e pelos pombos que, tal como em Veneza, já lá estão e são felizes e são bons comensais e convivas... (e que os nossos artistas aí sejam felizes e nós todos felizes também...)
Ainda bem que alguém decidiu "ouvir" a Praça...

(e vamos lá ver se os "habitantes" da Praça não são os do imperial "Domínio dos Deuses" De Uderzo e Goscinny, que "ces romains sont fous"... antes os de Veneza, que pelo menos protegiam e viviam as artes)...

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

Dia Internacional para a Prevenção da Exploração do Meio Ambiente em Tempos de Guerra e Conflito Armado

A Guerra que Aflige com seus Esquadrões
A guerra, que aflige com os seus esquadrões o Mundo,
É o tipo perfeito do erro da filosofia.

A guerra, como tudo humano, quer alterar.
Mas a guerra, mais do que tudo, quer alterar e alterar muito
E alterar depressa.

Mas a guerra inflige a morte.
E a morte é o desprezo do Universo por nós.
Tendo por consequência a morte, a guerra prova que é falsa.
Sendo falsa, prova que é falso todo o querer-alterar.

Deixemos o universo exterior e os outros homens onde a Natureza os pôs.

Tudo é orgulho e inconsciência.
Tudo é querer mexer-se, fazer coisas, deixar rasto.
Para o coração e o comandante dos esquadrões
Regressa aos bocados o universo exterior.

A química directa da Natureza
Não deixa lugar vago para o pensamento.

A humanidade é uma revolta de escravos.
A humanidade é um governo usurpado pelo povo.
Existe porque usurpou, mas erra porque usurpar é não ter direito.

Deixai existir o mundo exterior e a humanidade natural!
Paz a todas as coisas pré-humanas, mesmo no homem,
Paz à essência inteiramente exterior do Universo!

Alberto Caeiro,Poemas Inconjuntos

terça-feira, 3 de novembro de 2009

Dia Mundial do homem

Homens à Beira-mar

(Jean Flandrin Hippolyte ( 1809-1864) , Jovem nu sentado à beira-mar, ...)

Nada trazem consigo. As imagens
Que encontram, vão-se delas despedindo,
Nada trazem consigo, pois partiram
Sós e nus, desde sempre, e os seus caminhos
Levam só ao espaço como o vento.

Embalados no próprio movimento,
Como se andar calasse algum tormento,
O seu olhar fixou-se para sempre
Na aparição sem fim dos horizontes.

Como o animal que sente ao longe as fontes,
Tudo neles se cala para auscultar
O coração crescente da distância,
E longínqua lhes é a própria ânsia.

É-lhes longínquo o sol quando os consome,
É-lhes longínqua noite e a sua fome.
É-lhes longínquo o próprio corpo e o traço,
Que deixam pela areia, passo a passo.

Porque o calor do sol não os consome,
Porque o frio da noite não os gela,
E nem sequer lhes dói a própria fome,
E é-lhes estranho até o próprio rasto.

Nenhum jardim, nenhum olhar os prende,
Intactos nas paisagens onde chegam
Só encontram o longe que se afasta,
As aves estrangeiras que os traspassam,
E o seu corpo é só um nó de frio
Em busca de mais mar e mais vazio.

Sophia de Mello Breyner Andresen in Poesias I-III (1944)


Mulheres à beira-mar

Confundindo os seus cabelos com os cabelos do vento,
têm o corpo feliz de ser tão seu e tão denso em plena liberdade.

Lançam os braços pela praia fora e a brancura dos pulsos penetra nas espumas.

Passam aves de asas agudas e a curva dos seus olhos
prolonga o interminável rastro no céu branco.

Com a boca colada ao horizonte aspiram longamente
a virgindade de um mundo que nasceu.

O extremo dos seus dedos toca o cimo de delícia
e vertigem onde o ar acaba e começa.

E aos seus ombros cola-se uma alga, feliz de ser tão verde.

Sophia de Mello Breyner Andresen

domingo, 1 de novembro de 2009

Dia de Todos os Santos / Dia da Luta contra o cancro


"Distinguem-se quatro tipos de temperamento: o de quem é fácil de provocar e fácil de pacificar - esse ganha o que perde; o de quem é difícil de provocar e difícil de pacificar - esse perde o que ganha; o de quem é difícil de provocar e fácil de pacificar - esse é um santo; o de quem é fácil de provocar e difícil de pacificar - esse é um perverso."
Textos Judaicos, "Pirkei Avot 5,14"

"O hipócrita é um santo pintado; tem as mãos postas, mas não ora; o livro na mão, mas não lê; os olhos no chão, mas não se desestima."
Padre Manuel Bernardes