Actual, universal e intemporal, Os Lusíadas de Luís de Camões apresenta-nos para além da sua dimensão estética, páginas de História pátria com uma reflexão filosófica aprofundada sobre a nossa identidade enquanto povo. Homem de ciência (que as "letras e humanidades" o são também ), Camões parte da realidade do Portugal que viveu para deduzir (glorificar ou invectivar)características que ele considera habituais nos portugueses: valentia e coragem nos feitos guerreiros e marítimos, mas falta de cultura e ciência na forma de encarar a sociedade. Como ele nos diz, excelentemente (estrofe 99), a sorte de Vasco da Gama foi ter alguém (ele próprio, Camões)que lhe eternizasse pela escrita os feitos bélicos, senão seria mais um dos muitos Portugueses valorosos, esquecidos pelo futuro da Pátria lusa... A cultura (e a ciência, como uma sua forma de expressão) acaba por ser erigida em "valor humano universal", absolutamente necessário a quem governa ou assume lugares de chefia na Nação: é ela que faz as chefias mais humildes, mais justas, mais tolerantes, mais sábias... Ontem, como hoje, Camões ajuda-nos a interpretar a realidade histórica e humana da sociedade em que vivemos.
(seria bom e justo não esquecermos pelo menos a dívida que a sociedade lhe tem para a eternidade, tendo em conta os sofrimentos físicos e anímicos a que o sujeitou em vida... É que Camões continua por aí e arriscamo-nos a enviá-lo para o exílio, para a prisão e a dar-lhe como meio de subsistência pelos "Elevados Serviços à Nação" uma magérrima "tença" da Segurança Social,...)
Para LER com calma ( e ao longo da vida...)
95
Dá a terra lusitana Cipiões,
Césares, Alexandros, e dá Augustos;
Mas não lhe dá contudo aqueles dões
Cuja falta os faz duros e robustos.
Octávio, entre as maiores opressões,
Compunha versos doutos e venustos.
Não dirá Fúlvia certo que é mentira,
Quando a deixava António por Glafira,
96
Vai César, sojugando toda França,
E as armas não lhe impedem a ciência;
Mas , numa mão a pena e noutra a lança,
Igualava de Cícero a eloquência.
O que de Cipião se sabe e alcança,
É nas comédias grande experiência.
Lia Alexandro a Homero de maneira
Que sempre se lhe sabe à cabeceira.
97
Enfim, não houve forte capitão,
Que não fosse também douto e ciente,
Da Lácia, Grega, ou Bárbara nação,
Senão da Portuguesa tão somente.
Sem vergonha o não digo, que a razão
De algum não ser por versos excelente,
É não se ver prezado o verso e rima,
Porque, quem não sabe arte, não na estima.
98
Por isso, e não por falta de natura,
Não há também Virgílios nem Homeros;
Nem haverá, se este costume dura,
Pios Eneias, nem Aquiles feros.
Mas o pior de tudo é que a ventura
Tão ásperos os fez, e tão austeros,
Tão rudos, e de engenho tão remisso,
Que a muitos lhe dá pouco, ou nada disso.
99
As Musas agradeça o nosso Gama
o Muito amor da Pátria, que as obriga
A dar aos seus na lira nome e fama
De toda a ilustre e bélica fadiga:
Que ele, nem quem na estirpe seu se chama,
Calíope não tem por tão amiga,
Nem as filhas do Tejo, que deixassem
As telas douro fino, e que o cantassem.
100
Porque o amor fraterno e puro gosto
De dar a todo o Lusitano feito
Seu louvor, é somente o pressuposto
Das Tágides gentis, e seu respeito.
Porém não deixe enfim de ter disposto
Ninguém a grandes obras sempre o peito,
Que por esta, ou por outra qualquer via,
Não perderá seu preço, e sua valia.
(e, a propósito do final da estrofe 100, é quase impossível não ouvir Fernando Pessoa:"...Tudo vale a pena / se a alma não é pequena..."
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