Escolhi 3 documentos para lembrar esta efeméride, em ordem crescente de cooperação e paz. Às vezes, é mesmo bom interrogar o passado...O caminho das dores
(Poema inspirado em uma visita à velha Jerusalém)
A terra
dos braseiros em chamas
o caminho calçado de punhais
o itinerário da provação e das dores
se prolonga, sem fim
as pedras da rua me falam
da provação
daquele que levou a coroa de espinhos
seu sangue que cheira corre, corre
e o sol acelera a sangria
a rua... ondas de gargantas
abrasadas pelo chicote gritam:
"Senhor... resiste ao crucifixo
ou roga a teu deus todo poderoso".
E a planície devolve os ecos
que ressoam através dos séculos
"Ó senhor... resite à provação..."
O Senhor se cansou de seu crucifixo
Ó verdugos
Pilatos não é eterno
os dias se encarregarão dele
o itinerário da provação das dores
guiará as massas humanas aos lugares de crucificação
nós continuaremos caminhando sem cessar
e em nossa marcha construiermos a paz
o hino da dignidade nos envolve
o chamado da justiça nos adverte
semeia hoje, colherás amanhã
colheremos as sementes com nossas mãos
felicidade - paz - dignidade.
Às vezes apetece dizer com António Gedeão e pelas mesmas razões que ele enumera "Abaixo o mistério da poesia"!...
PÁSSARO MORTO
Durante muito tempo me interroguei
quando virás? Quando surgirás tu?
Nascerás da erva
emergirás do desconhecido
ou não és mais que um impossível amanhã?
Durante muito tempo me interroguei
e quando sondei os espelhos do tanque
dispersei-me entre os fragmentos dos espelhos
não encontrei o meu rosto em estilhaços
Vi-te a ti
e quando estendi as mãos
para tocar o teu rosto
os sinais da minha última ilusão dissiparam-se
tu dispersaste-te como os espelhos do tanque
e sobre a água ficou
um pássaro morto
SAMIH AL-QASSIMPequena Antologia da Poesia Palestiniana Contemporânea, selecção e tradução de Albano Martins,Asa, 2004
Memórias felizes de outros tempos felizes (cooperação...)
Notes to some Stories of Arabische Maerchen, 2nd vol., translated and edited by Max Weisweler (Notas a Algumas Histórias dos Arabischen Maerchen, 2º volume, traduzido e editado por Max Weisweiler)Elisheva Schoenfeld
Nos Arabische Maerchen, Weiseiler publicou histórias das colecções de Al-Ibshihi, Al-Jaffη’η, Ibn Hijjah, assim como do tratado de zoologia As Vidas dos Animais, de Damiri. Estes autores viveram entre meados dos sécs. XIV e XV. As histórias examinadas são extraídas do capítulo “Von den Wundern der Gnade” (=sobre a magia da misericórdia) e transmitem sobretudo valores morais. É investigada a questão de quando e como as histórias judaicas foram absorvidas pelos muçulmanos, assim como a estreita relação entre as lendas dos dois povos.
Para comparar o material árabe e judeu, seleccionámos nove histórias. Cinco das lendas investigadas, assim como o motivo do “Nome Inefável” na história com o mesmo nome, parecem ser de origem judaica, uma vez que os paralelos hebraicos apontam para fontes que precedem o Alcorão e têm em parte origem numa minoria judaica vivendo num território hostil. A origem das restantes histórias não pôde ser determinada, uma vez que as fontes dos paralelos na literatura judaica são posteriores ao Alcorão.
Como as culturas judaica e islâmica viveram lado a lado durante séculos, influenciando-se mutuamente, também os contos foram transmitidos em ambos os sentidos. Além de recorrer à sua própria imaginação, os contadores profissionais árabes assimilaram de fontes judaicas e cristãs, assim como os escritores judeus e os Midrasim absorveram histórias de origem “mista”. O longo período de influências mútuas é, segundo a formulação do Prof. Goitren, um período de “simbiose creativa”. Esperemos que uma “simbiose creativa” venha a ser restabelecida, em particular entre os Israelitas e os Palestinianos.
in revista ELO, nº3, Centro de Estudos Ataíde Oliveira
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