segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

Dia Internacional da Solidariedade Humana

Primeiro levaram os negros
Mas não me importei com isso
Eu não era negro

Em seguida levaram alguns operários

Mas não me importei com isso
Eu também não era operário

Depois prenderam os miseráveis
Mas não me importei com isso
Porque eu não sou miserável

Depois agarraram uns desempregados
Mas como tenho meu emprego
Também não me importei
Agora estão me levando
Mas já é tarde.

Como eu não me importei com ninguém
Ninguém se importa comigo.

Bertold Brecht (1898-1956)

RETRATO DE MÓNICA
Mónica é uma pessoa tão extraordinária que consegue simultaneamente: ser boa mãe de família, ser chiquíssima, ser dirigente da «Liga Internacional das Mulheres Inúteis», ajudar o marido nos negócios, fazer ginástica todas as manhãs, ser pontual, ter imensos amigos, dar muitos jantares, ir a muitos jantares, não fumar, não envelhecer, gostar de toda a gente, gostar dela, dizer bem de toda a gente, toda a gente dizer bem dela, coleccionar colheres do séc. XVII, jogar golfe, deitar-se tarde, levantar-se cedo, comer iogurte, fazer ioga, gostar de pintura abstracta, ser sócia de todas as sociedades musicais, estar sempre divertida, ser um belo exemplo de virtudes, ter muito sucesso e ser muito séria. (...)

Pode-se dizer que Mónica trabalha de sol a sol.

De facto, para conquistar todo o sucesso e todos os gloriosos bens que possui, Mónica teve que renunciar a três coisas: à poesia, ao amor e à santidade. (...)

Ela é íntima de mandarins e de banqueiros e é também íntima de manicuras, caixeiros e cabeleireiros. Quando ela chega a um cabeleireiro ou a uma loja, fala sempre com a voz num tom mais elevado para que todos compreendam que ela chegou. E precipitam-se manicuras e caixeiros. A chegada de Mónica é, em toda a parte, sempre um sucesso. Quando ela está na praia, o próprio Sol se enerva.

O marido de Mónica é um pobre diabo que Mónica transformou num homem importantíssimo. Deste marido maçador Mónica tem tirado o máximo rendimento. Ela ajuda-o, aconselha-o, governa-o. Quando ele é nomeado administrador de mais alguma coisa, é Mónica que é nomeada. Eles não são o homem e a mulher. Não são o casamento. São, antes, dois sócios trabalhando para o triunfo da mesma firma. O contrato que os une é indissolúvel, pois o divórcio arruína as situações mundanas. O mundo dos negócios é bem-pensante.
É por isso que Mónica, tendo renunciado à santidade, se dedica com grande dinamismo a obras de caridade. Ela faz casacos de tricot para as crianças que os seus amigos condenam à fome. Às vezes, quando os casacos estão prontos, as crianças já morreram de fome. Mas a vida continua. E o sucesso de Mónica também. Ela todos os anos parece mais nova. A miséria, a humilhação, a ruína não roçam sequer a fímbria dos seus vestidos. Entre ela e os humilhados e ofendidos não há nada de comum.(...)

Há vários meses que não vejo Mónica. Ultimamente contaram-me que em certa festa ela estivera muito tempo conversando com o Príncipe deste Mundo. Falavam os dois com grande intimidade. Nisto não há evidentemente, nenhum mal. Toda a gente sabe que Mónica é seriíssima toda a gente sabe que o Príncipe deste Mundo é um homem austero e casto.

Não é o desejo do amor que os une. O que os une e justamente uma vontade sem amor.
E é natural que ele mostre publicamente a sua gratidão por Mónica. Todos sabemos que ela é o seu maior apoio; mais firme fundamento do seu poder.

Sophia de Mello Breyner Andresen
Contos Exemplares, Porto, Figueirinhas, 1996 (29ª ed.).

in http://cvc.instituto-camoes.pt/contomes/19/texto.html (dá para ouvir o texto, no site. Muito bom!)



Os Pobrezinhos

Os Pobrezinhos
Tão engraçados
Pedem esmolinha
Com mil cuidados

Todos sujinhos
E tão magrinhos
A linda graça
Dos pobrezinhos

De porta em porta
Sempre rotinhos
Tão delicados
Os pobrezinhos

Não façam mal
Aos pobrezinhos
Dêem-lhes pão
E tostõezinhos

Os pobrezinhos
tão engraçados
pedem esmolinha
com mil cuidados.

Armindo Mendes de Carvalho
http://mulher.sapo.pt/actualidade/noticias/dia-internacional-da-solidarie-1114385.html

 SOLUÇÃO: a ironia, às vezes, é mesmo uma pomba branca com a penugem em pé...

2 comentários:

António Serrano disse...

Luísa,
Três textos "de arrasar" muito bem escolhidos para a época e para a situação económico-social que atravessamos.
Aprecio e agradeço a partilha, senhora Professora.
Seu modesto aluno, com Amizade.

Luísa Antunes disse...

Querido Professor Serrano:
Eu sei que é generosidade sua, mas não me atrapalhe, que eu sou leitora assídua do seu blogue!... Este "post" tem mais a ver com o meu outro blogue e era lá que devia estar, mas quando dei conta do tom irónico, tive preguiça de o levar para outro lado. Eu queria mesmo era não entrar por este tom, mas...
Abracinho.