Mais católico e tradicional
ou mais do ano inteiro, porque sim e sempre
o Natal é tempo de aconchego e ternura, com todos nós mais simples e crianças. Talvez por isso haja mais sorrisos de boa vontade... e eu gosto.
sábado, 25 de dezembro de 2010
segunda-feira, 20 de dezembro de 2010
Dia Internacional da Solidariedade Humana
Primeiro levaram os negros
Mas não me importei com isso
Eu não era negro
Em seguida levaram alguns operários
Mas não me importei com isso
Eu também não era operário
Depois prenderam os miseráveis
Mas não me importei com isso
Porque eu não sou miserável
Depois agarraram uns desempregados
Mas como tenho meu emprego
Também não me importei
Agora estão me levando
Mas já é tarde.
Como eu não me importei com ninguém
Ninguém se importa comigo.
Bertold Brecht (1898-1956)
Pode-se dizer que Mónica trabalha de sol a sol.
De facto, para conquistar todo o sucesso e todos os gloriosos bens que possui, Mónica teve que renunciar a três coisas: à poesia, ao amor e à santidade. (...)
Ela é íntima de mandarins e de banqueiros e é também íntima de manicuras, caixeiros e cabeleireiros. Quando ela chega a um cabeleireiro ou a uma loja, fala sempre com a voz num tom mais elevado para que todos compreendam que ela chegou. E precipitam-se manicuras e caixeiros. A chegada de Mónica é, em toda a parte, sempre um sucesso. Quando ela está na praia, o próprio Sol se enerva.
O marido de Mónica é um pobre diabo que Mónica transformou num homem importantíssimo. Deste marido maçador Mónica tem tirado o máximo rendimento. Ela ajuda-o, aconselha-o, governa-o. Quando ele é nomeado administrador de mais alguma coisa, é Mónica que é nomeada. Eles não são o homem e a mulher. Não são o casamento. São, antes, dois sócios trabalhando para o triunfo da mesma firma. O contrato que os une é indissolúvel, pois o divórcio arruína as situações mundanas. O mundo dos negócios é bem-pensante.
É por isso que Mónica, tendo renunciado à santidade, se dedica com grande dinamismo a obras de caridade. Ela faz casacos de tricot para as crianças que os seus amigos condenam à fome. Às vezes, quando os casacos estão prontos, as crianças já morreram de fome. Mas a vida continua. E o sucesso de Mónica também. Ela todos os anos parece mais nova. A miséria, a humilhação, a ruína não roçam sequer a fímbria dos seus vestidos. Entre ela e os humilhados e ofendidos não há nada de comum.(...)
Há vários meses que não vejo Mónica. Ultimamente contaram-me que em certa festa ela estivera muito tempo conversando com o Príncipe deste Mundo. Falavam os dois com grande intimidade. Nisto não há evidentemente, nenhum mal. Toda a gente sabe que Mónica é seriíssima toda a gente sabe que o Príncipe deste Mundo é um homem austero e casto.
Não é o desejo do amor que os une. O que os une e justamente uma vontade sem amor.
E é natural que ele mostre publicamente a sua gratidão por Mónica. Todos sabemos que ela é o seu maior apoio; mais firme fundamento do seu poder.
Sophia de Mello Breyner Andresen
Contos Exemplares, Porto, Figueirinhas, 1996 (29ª ed.).
in http://cvc.instituto-camoes.pt/contomes/19/texto.html (dá para ouvir o texto, no site. Muito bom!)
SOLUÇÃO: a ironia, às vezes, é mesmo uma pomba branca com a penugem em pé...
Mas não me importei com isso
Eu não era negro
Em seguida levaram alguns operários
Mas não me importei com isso
Eu também não era operário
Depois prenderam os miseráveis
Mas não me importei com isso
Porque eu não sou miserável
Depois agarraram uns desempregados
Mas como tenho meu emprego
Também não me importei
Agora estão me levando
Mas já é tarde.
Como eu não me importei com ninguém
Ninguém se importa comigo.
Bertold Brecht (1898-1956)
RETRATO DE MÓNICA
Mónica é uma pessoa tão extraordinária que consegue simultaneamente: ser boa mãe de família, ser chiquíssima, ser dirigente da «Liga Internacional das Mulheres Inúteis», ajudar o marido nos negócios, fazer ginástica todas as manhãs, ser pontual, ter imensos amigos, dar muitos jantares, ir a muitos jantares, não fumar, não envelhecer, gostar de toda a gente, gostar dela, dizer bem de toda a gente, toda a gente dizer bem dela, coleccionar colheres do séc. XVII, jogar golfe, deitar-se tarde, levantar-se cedo, comer iogurte, fazer ioga, gostar de pintura abstracta, ser sócia de todas as sociedades musicais, estar sempre divertida, ser um belo exemplo de virtudes, ter muito sucesso e ser muito séria. (...)Pode-se dizer que Mónica trabalha de sol a sol.
De facto, para conquistar todo o sucesso e todos os gloriosos bens que possui, Mónica teve que renunciar a três coisas: à poesia, ao amor e à santidade. (...)
Ela é íntima de mandarins e de banqueiros e é também íntima de manicuras, caixeiros e cabeleireiros. Quando ela chega a um cabeleireiro ou a uma loja, fala sempre com a voz num tom mais elevado para que todos compreendam que ela chegou. E precipitam-se manicuras e caixeiros. A chegada de Mónica é, em toda a parte, sempre um sucesso. Quando ela está na praia, o próprio Sol se enerva.
O marido de Mónica é um pobre diabo que Mónica transformou num homem importantíssimo. Deste marido maçador Mónica tem tirado o máximo rendimento. Ela ajuda-o, aconselha-o, governa-o. Quando ele é nomeado administrador de mais alguma coisa, é Mónica que é nomeada. Eles não são o homem e a mulher. Não são o casamento. São, antes, dois sócios trabalhando para o triunfo da mesma firma. O contrato que os une é indissolúvel, pois o divórcio arruína as situações mundanas. O mundo dos negócios é bem-pensante.
É por isso que Mónica, tendo renunciado à santidade, se dedica com grande dinamismo a obras de caridade. Ela faz casacos de tricot para as crianças que os seus amigos condenam à fome. Às vezes, quando os casacos estão prontos, as crianças já morreram de fome. Mas a vida continua. E o sucesso de Mónica também. Ela todos os anos parece mais nova. A miséria, a humilhação, a ruína não roçam sequer a fímbria dos seus vestidos. Entre ela e os humilhados e ofendidos não há nada de comum.(...)
Há vários meses que não vejo Mónica. Ultimamente contaram-me que em certa festa ela estivera muito tempo conversando com o Príncipe deste Mundo. Falavam os dois com grande intimidade. Nisto não há evidentemente, nenhum mal. Toda a gente sabe que Mónica é seriíssima toda a gente sabe que o Príncipe deste Mundo é um homem austero e casto.
Não é o desejo do amor que os une. O que os une e justamente uma vontade sem amor.
E é natural que ele mostre publicamente a sua gratidão por Mónica. Todos sabemos que ela é o seu maior apoio; mais firme fundamento do seu poder.
Sophia de Mello Breyner Andresen
Contos Exemplares, Porto, Figueirinhas, 1996 (29ª ed.).
in http://cvc.instituto-camoes.pt/contomes/19/texto.html (dá para ouvir o texto, no site. Muito bom!)
Os Pobrezinhos
Os Pobrezinhos
Tão engraçados
Pedem esmolinha
Com mil cuidados
Todos sujinhos
E tão magrinhos
A linda graça
Dos pobrezinhos
De porta em porta
Sempre rotinhos
Tão delicados
Os pobrezinhos
Não façam mal
Aos pobrezinhos
Dêem-lhes pão
E tostõezinhos
Os pobrezinhos
tão engraçados
pedem esmolinha
com mil cuidados.
Armindo Mendes de Carvalho
http://mulher.sapo.pt/actualidade/noticias/dia-internacional-da-solidarie-1114385.htmlSOLUÇÃO: a ironia, às vezes, é mesmo uma pomba branca com a penugem em pé...
domingo, 19 de dezembro de 2010
Aniversário de Alexandre O'Neill
O Poeta-cigarra
Velha Fábula em Bossa Nova
Minuciosa formiga
não tem que se lhe diga:
leva a sua palhinha
asinha, asinha.
Assim devera eu ser
e não esta cigarra
que se põe a cantar
e me deita a perder.
Assim devera eu ser:
de patinhas no chão,
formiguinha ao trabalho
e ao tostão.
Assim devera eu ser
se não fora
não querer.
(-Obrigado, formiga!
Mas a palha não cabe
onde você sabe...)
Alexandre O'Neill
de quem eu guardei da adolescência um verso-retrato
(título de um livro seu):
AS ANDORINHAS NÃO TÊM RESTAURANTE
http://www.arlindo-correia.com/250900.html#Soneto
quarta-feira, 1 de dezembro de 2010
Dia da Restauração da Independência
Quando era miúda, um dos meus irmãos, o Filipe II, divertia-me a bom rir com a sua pratada de anedotas sempre prontas e certeiras... era um contador de anedotas em "full-time"! E eu, que sempre fui uma ouvinte distraída de anedotas, crédula e um pouco infantil, ouvia, ria, gargalhava e esquecia. Deve ser por isso que já não consigo lembrar-me dos meandros da que eu preferia (não é contador de anedotas" quem quer...) e que versava sobre o mediático carisma do "Zezinho dos plásticos": personagem que conhecia toda a gente e toda a gente conhecia no universo e que justificava a sua fama universal com um lapidar: "O que é preciso é publicidade"!...
O que tem isto a ver com a "restauração da independência", 370 anos depois, se já não há Filipes de Espanha como havia antigamente, daqueles que criaram "Armadas Invencíveis" com o sonho dos pinhais de D. Dinis ou das terras a oriente do Preste João ou...? Não há?!... Haverá?... Receio que a nossa falta de Independência se deva também aos Zezinhos dos Plásticos intestinos que, à sombra (sobranceira) dos paraísos artificiais por onde desenvolvem a sua mediática imagem e delírios de grandeza, nos enfileiram nas suas "naus a haver" dos mercados internacionais, mercados bolsistas, mercados off-shores, mercados de bulas, abstinências, jejuns, perdões fiscais, tudo ao molho e fé em Deus que é quem nos dirige a barca e a bolsa e o arrependimento e desculpem lá portugueses que tive de ceder a satã pactuar e calar pelos altos desígnios da Nação Portuguesa tão somente... No media-market da nação e na língua-franca de Sua Majestade vendem-se imagens de salvação, de papão, de feijão e muito outro palavrão terminado em -ão, como chouriço que acaba em cordel, como me ensinou a Maria João que também se emigrou para as terras do Preste João a ver se a sua alta classificação aí lhe garantia o pão... Ãouh!.. Ãouah!... que apetece ladrar às canelas do tempo: Ourrah!... Irra!... Porra!... ... 'tá bem... Arroz!...
República ou Monarquia? Sei lá!... Olhe, aquela que deixar o Zezinho dos Plásticos confinado às anedotas do Filipe, meu irmão...
(que não há paciência para esta falta de independência... arroz, arroz, arroz... prontos... ponto.)
(Retrato Económico da União Europeia. Desconheço o autor.)
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