Creio que foi Einstein quem afirmou que "um corrupto é um homem que deixou de trabalhar". Agrada-me esta definição pela simplicidade e também pelo valor humano que aqui é oferecido ao "trabalho": não só valor social, mas individual; não só serviço social, mas serviço a si mesmo; não só em termos materiais, mas também espirituais; não só no plano físico, mas também psicológico ou anímico; o trabalho como valor do humano e da (e em prol da)humanidade. Neste sentido se dirá também que antes de ser corrupto ou se deixar corromper (já que "tão ladrão é o que rouba a fruta como o que fica ao portão"), o homem se atraiçoou a si próprio, começando a construir uma torre de desafios, já sobejamente condenada pela sabedoria do tempo. Babel é-lhes um templo sempre adiado de futuro: porque não tem linguagem que a possa erguer à medida dos sonhos da Humanidade.
Com a sabedoria dos "Clássicos" fica-se bem, por estes temas: corrupção pode ser e é também tirania, violência, injustiça, cobiça, traição, mentira, dinheiro, morte (mas mais vale ouvir Sophia de Mello Breyner e Luís de Camões a falar sobre este tema e ler os 2 cartoons que aqui vos deixo e ganharam prémios no ano passado...)
«Ganharás o pão com o suor do teu rosto»
Assim nos foi imposto
E não:
«Com o suor dos outros ganharás o pão»Sophia,
As pessoas sensíveisNunca choraremos bastante quando vemos
O gesto criador ser impedido
Nunca choraremos bastante quando vemos
Que quem ousa lutar é destruido
Por troças, por insídias, por venenos
E por outras maneiras que sabemos
Tão sábias tão subtis e tão peritas
Que nem podem sequer ser bem descritasSophia,
Pranto pelo dia de hoje
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(...)
Veja agora o juízo curioso
Quanto no rico, assi como no pobre,
Pode
o vil interesse e sede imiga
do dinheiro, que a tudo nos obriga.
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Este
rende munidas fortalezas;
Faz tredores e falsos os amigos;
Este
a mais nobres faz fazer vilezas,
E entrega Capitães aos inimigos;
Este
corrompe virginais purezas,
Sem temer de honra ou fama alguns perigos;
Este
deprava às vezes as ciências,
Os juízos cegando e as consciências.
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Este
interpreta mais que sutilmente
Os textos; este faz e desfaz leis;
Este
causa os perjúrios entre a gente
E mil vezes tiranos torna os Reis.
Até
os que só a Deus omnipotente
Se dedicam, mil vezes ouvireis
Que corrompe este encantador, e ilude;
Mas não sem cor, contudo, de virtude!
Camões,
Os Lusíadas, canto VIII