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quarta-feira, 1 de abril de 2009

Dia das Mentiras

O "dia das mentiras" sempre foi, para mim, como o Carnaval: não aprecio. Talvez porque ninguém me mentiu com a intenção de me fazer rir, afugentar o medo, ou seja, para me fazer feliz. Minto: a minha mãe (teria eu 4 ou 5 anos), para me evitar o sofrimento de ter "perdido" a minha gata, mentiu ("desapareceu! Um dia destes volta!..."), acabando um ano ou dois depois, por inadvertidamente me revelar a verdade, frente a um canteiro de "rapazinhos" ("coitada da Carochinha!..."). O problema é que fiquei demasiado infeliz e revoltada, apesar de todo o amor que a minha mãe me dera com a sua "mentira pontual"...
Ainda assim, e em nome da "verdade", pode causar-se um pior sofrimento: descontextualizar afirmações, relembrar amiúde episódios de sofrimento... e por aí fora. Talvez por isso tenha havido necessidade de inventar a "mentira piedosa" (que até pode ser o silêncio), como se a palavra "Verdade" pertencesse ao mundo feliz e organizado da mente e dos afectos, ou mesmo da alma... E como conceito, é assim que a entendo. Não gosto por isso do "dia das mentiras". Até que alguém me dê a mentira como forma de dizer a "verdade" (ex: uma boa "anedota", sobretudo se vier construída em jogos de palavras...).


Será que a diferença entre a Verdade e a Mentira está sobretudo (e só) na intenção do que se diz?


"Mais vale o erro em que se crê do que a realidade em que não se crê; pois não é o erro, e sim a mentira, o que mata a alma."

Miguel de Unamuno, Ensaios

domingo, 22 de fevereiro de 2009

Dia Europeu da Vítima de Crime


Nunca me esqueci de uma reportagem que li, há anos, sobre as vítimas do crime do Holocausto nazi: a maioria dos sobreviventes recusava-se a falar sobre o assunto, já que "ninguém perceberia do sofrimento inflingido" (palavras minhas).
Tenho dúvidas cada vez maiores sobre a bondade de algumas curas psicanalíticas e afins: recordar, escalpelizar traumas é mergulhar de novo no "caos" e a verdade é que as palavras em situações - limite nos faltam, porque se fala do "inverosímil, do será verdade?, de traições e abandonos cruéis, seja de pessoas, seja de ideais / valores humanos" e essa não é a linguagem da ciência, que se quer objectiva, racional, coerente... Nessas alturas, o que é absolutamente necessário é amor e a única luta que cada um de nós faz é a da sobrevivência e a do amor à vida... Quando deparamos com a nossa vida a ser condicionada por mentiras bem urdidas por detrás das nossas costas, cobardemente cimentadas e arreigadas até lhes sentirmos a aleivosia "oficial" (ou, pior ainda, oficializada) no nosso dia-a-dia, percebemos que as palavras - se as soltarmos - vêm cheias da mágoa e do ressentimento de que as próprias mentiras são urdidas. O melhor mesmo é o silêncio, até ao momento em que ele nos não emparede e afaste da "realidade social" onde há de outras coisas, para além de mentiras e traições.
Quanto a mim, e por enquanto, acho que quem quer ajudar só deve falar da verdade do mundo, sendo que essa verdade é do mundo dos arquétipos e a mentira uma espécie de "macaco de Deus", devendo por isso esta última ser o menos nomeada possível. Não se fale de "caos" a quem lhe sobreviveu e quem quiser dele conhecer oxalá o faça de forma e com o único objectivo de - como moléstia que é - o evitar na Humanidade.
Dê-se à "vítima de crime" a única coisa que o restaura como ser Humano: Amor. Eu "só sei que vou por aqui". E não peço desculpa ao querido poeta José Régio por lhe ter invertido o verso do seu "Cântico Negro". É que ele me tem feito companhia ao longo da vida e a força (bruta) com que reage à sociedade tem o seu correlato no amor que dedica ao Universo.