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domingo, 22 de fevereiro de 2009

Dia Europeu da Vítima de Crime


Nunca me esqueci de uma reportagem que li, há anos, sobre as vítimas do crime do Holocausto nazi: a maioria dos sobreviventes recusava-se a falar sobre o assunto, já que "ninguém perceberia do sofrimento inflingido" (palavras minhas).
Tenho dúvidas cada vez maiores sobre a bondade de algumas curas psicanalíticas e afins: recordar, escalpelizar traumas é mergulhar de novo no "caos" e a verdade é que as palavras em situações - limite nos faltam, porque se fala do "inverosímil, do será verdade?, de traições e abandonos cruéis, seja de pessoas, seja de ideais / valores humanos" e essa não é a linguagem da ciência, que se quer objectiva, racional, coerente... Nessas alturas, o que é absolutamente necessário é amor e a única luta que cada um de nós faz é a da sobrevivência e a do amor à vida... Quando deparamos com a nossa vida a ser condicionada por mentiras bem urdidas por detrás das nossas costas, cobardemente cimentadas e arreigadas até lhes sentirmos a aleivosia "oficial" (ou, pior ainda, oficializada) no nosso dia-a-dia, percebemos que as palavras - se as soltarmos - vêm cheias da mágoa e do ressentimento de que as próprias mentiras são urdidas. O melhor mesmo é o silêncio, até ao momento em que ele nos não emparede e afaste da "realidade social" onde há de outras coisas, para além de mentiras e traições.
Quanto a mim, e por enquanto, acho que quem quer ajudar só deve falar da verdade do mundo, sendo que essa verdade é do mundo dos arquétipos e a mentira uma espécie de "macaco de Deus", devendo por isso esta última ser o menos nomeada possível. Não se fale de "caos" a quem lhe sobreviveu e quem quiser dele conhecer oxalá o faça de forma e com o único objectivo de - como moléstia que é - o evitar na Humanidade.
Dê-se à "vítima de crime" a única coisa que o restaura como ser Humano: Amor. Eu "só sei que vou por aqui". E não peço desculpa ao querido poeta José Régio por lhe ter invertido o verso do seu "Cântico Negro". É que ele me tem feito companhia ao longo da vida e a força (bruta) com que reage à sociedade tem o seu correlato no amor que dedica ao Universo.