O "dia das mentiras" sempre foi, para mim, como o Carnaval: não aprecio. Talvez porque ninguém me mentiu com a intenção de me fazer rir, afugentar o medo, ou seja, para me fazer feliz. Minto: a minha mãe (teria eu 4 ou 5 anos), para me evitar o sofrimento de ter "perdido" a minha gata, mentiu ("desapareceu! Um dia destes volta!..."), acabando um ano ou dois depois, por inadvertidamente me revelar a verdade, frente a um canteiro de "rapazinhos" ("coitada da Carochinha!..."). O problema é que fiquei demasiado infeliz e revoltada, apesar de todo o amor que a minha mãe me dera com a sua "mentira pontual"...Ainda assim, e em nome da "verdade", pode causar-se um pior sofrimento: descontextualizar afirmações, relembrar amiúde episódios de sofrimento... e por aí fora. Talvez por isso tenha havido necessidade de inventar a "mentira piedosa" (que até pode ser o silêncio), como se a palavra "Verdade" pertencesse ao mundo feliz e organizado da mente e dos afectos, ou mesmo da alma... E como conceito, é assim que a entendo. Não gosto por isso do "dia das mentiras". Até que alguém me dê a mentira como forma de dizer a "verdade" (ex: uma boa "anedota", sobretudo se vier construída em jogos de palavras...).
Será que a diferença entre a Verdade e a Mentira está sobretudo (e só) na intenção do que se diz?
"Mais vale o erro em que se crê do que a realidade em que não se crê; pois não é o erro, e sim a mentira, o que mata a alma."
Miguel de Unamuno, Ensaios
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