A poesia - cristal de palavras - vive em oferta permanente ao leitor. Hoje, e a propósito desta efeméride, prescindi das minhas dúvidas "filosóficas" sobre o assunto e recorri a quem muito sabe sobre a vida: ao poeta. Jorge de Sena fala de Camões (e de si também, claro), a propósito da autoria (propriedade) de textos e ideias e da justiça que a eternidade da palavra poética acaba por convocar historicamente."O seu a seu dono" em vida dos intelectuais, que está a história farta de ver partir prematuramente muitos dos seus melhores, com a eufemística desculpa de que "morrem cedo os que os deuses amam"...
"Camões dirige-se aos seus contemporâneos"
Podereis roubar-me tudo:
as ideias, as palavras, as imagens,
e também as metáforas, os temas, os motivos,
os símbolos, e a primazia
nas dores sofridas de uma língua nova,
no entendimento de outros, na coragem
de combater, julgar, de penetrarem
recessos de amor para que sois castrados.
E podereis depois não me citar,
suprimir-me, ignorar-me, aclamar até
outros ladrões mais felizes.
Não importa nada: que o castigo
será terrível. Não só quando
vossos netos não souberem já quem sois
terão de me saber melhor ainda
do que fingis que não sabeis,
como tudo, tudo o que laboriosamente pilhais,
reverterá para o meu nome. E mesmo será meu,
tido por meu, contado por meu,
até mesmo aquele pouco e miserável
que, só por vós, sem roubo, haveríeis feito.
Nada tereis, mas nada: nem os ossos,
que um vosso esqueleto há-de ser buscado,
para passar por meu. E para outros ladrões,
iguais a vós, de joelhos, porem flores no túmulo.
Jorge de Sena
1 comentário:
Olá Maria Luiza, parabéns pelo blog, voltarei aqui com mais calma para revê-lo.
abraços literários
Marco
Bula LiteralEm tempo: Muito bom o post de Camões.
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