domingo, 22 de março de 2009

Dia Mundial da Água / Dia do Teatro Amador

Dia Mundial da Água

Diz quem sabe que a maior parte de nós é água (fora a água que metemos e nunca é pouca!)... E como acho que esta informação é por demais importante para ousar brincar, valho-me do querido poeta António gedeão e professor Rómulo de Carvalho e trago para aqui as suas
"Lições sobre a Água"



Este líquido é água.Quando pura
é inodora, insípida e incolor.
Reduzida a vapor,
sob tensão e a alta temperatura,
move os êmbolos das máquinas que, por isso,
se denominam máquinas de vapor.
É um bom dissolvente.

Embora com excepções mas de um modo geral,
dissolve tudo bem, bases e sais.
Congela a zero graus centesimais
e ferve a 100, quando à pressão normal.
Foi neste líquido que numa noite cálida de Verão,

sob um luar gomoso e branco de camélia,
apareceu a boiar o cadáver de Ofélia
com um nenúfar na mão.
António Gedeão


e a sua "Lágrima de Preta" e, pelo menos, fica tudo dito, por ora...


Encontrei uma preta

que estava a chorar,

pedi-lhe uma lágrima

para a analisar.

Recolhi a lágrima

com todo o cuidado

num tubo de ensaio

bem esterilizado.

Olhei-a de um lado,

do outro e de frente:

tinha um ar de gotamuito transparente.

Mandei vir os ácidos,

as bases e os sais,

as drogas usadas

em casos que tais.

Ensaiei a frio,

experimentei ao lume,

de todas as vezes

deu-me o que é costume:

nem sinais de negro,

nem vestígios de ódio.

Água (quase tudo)

e cloreto de sódio.
António Gedeão



Dia do Teatro Amador


Acho o teatro uma forma privilegiada de comunicação: no mesmo espaço e no mesmo tempo, actores e público vivem uma história com todos os riscos da vida real. Lembro com grande ternura o Luís Miguel Cintra com uma crise de riso sem conseguir acabar o texto (penso que do António José da Silva), o Mário Viegas sem conseguir continuar o texto de tantas e tã sonoras gargalhadas da plateia ("Contos do Gin Tónico") ou o tropeção e correris desajeitada do Carlos Daniel no D. Maria, quando fazia o D. João de Molière... Estas "imperfeições" do espectáculo são para mim uma mais-valia e, nos casos referidos, tornaram mais "humanos" actores que me habituei a considerar "de excelência" (como sói dizer-se, nos tempos que correm)... Que também eu fui crescendo ao ritmo destas aprendizagens... Pena que não tivesse tido mais oportunidades de, amadoramente, me enfrentar com os outros de mim (público). Para quem dá aulas, é absolutamente necessário e, infelizmente, só uma vez me constou do currículo (curso de leitores, com o Jacinto Ramos)... A verdade é que eu nem teatro amador fiz... Só que este dia me faz sempre sorrir, pois me lembro da primeira vez que, com 7 anos (ou 8), desempenhei o meu primeiro papel teatral num palco, sob orientação do Padre Manuel (que viria a ser um querido professor meu de Português no ensino secundário)... Ele era novo, claro está, para ter toda aquela paciência, mas a verdade é que conseguiu levar um grupo de criancinhas da catequese a levar à cena a "Vida de Santa Inês". Coube-me o papel da protagonista e nunca esquecerei os gritos do ensaiador por eu não conseguir parar de rir quando, já morta e sobre um palanque, os meus colegas de catequese me cantavam um hino religioso em memória de mim, a santa Inês... O próprio Padre Manuel se esboroou a rir mais de uma vez, mas tantas ameaças de "vergonha" e "responsabilidade" me fez que, no dia aprazado (terá sido num 21 de janeiro?), lhe fui uma Santa Inês digna e responsável, com direito a muitos elogios e palmas do público!... E mais não conto... Teatro, sempre e amador, para quem o assim deseje. Eu gosto!

(a ilustração é da "Santa Inês", um dos "santinhos" que coleccionava em criança e que agora reencontrei bem a propósito!...)

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