O meu pai tinha os olhos azuis e contava histórias. Às vezes, no seu joelho, eu era mesmo a "Arranca-pinheiros", com os meus dois irmãos mais novos (o "Arrasa-montanhas" e o "Zé da Burra"), a demandar no outro joelho os mesmos caminhos que eu desbravara e que só o mais novo conseguia decifrar. É claro que o "Zé da Burra" sorria sempre de satisfação: afinal, o menos promissor (menos idade, menos força, menos "esperteza saloia"...) acabava sempre por sair coroado de herói naquelas aventuras... E olha, lá me fui habituando a que, quando não é à primeira, nem à segunda, é a terceira, já que o objectivo da demanda é sempre o mesmo, até que alguém o cumpra... Felizmente, já fui "Zé da Burra" umas quantas vezes na vida e... gostei muito.De que alturas falam os pais, quando nos contam histórias na infância? A que mundo de fantasia as vamos recuperar?... Sempre actuais, elas são-nos lastro de vida e o amor com que nos foram contadas vem sempre aureolado de uns olhos azuis de cristal sossegado e de um baloiço de pernas que conduz ao caminho da "princesa do pai"...
(no ano passado, deixou de ir ao jardim dar uma volta e depois deixou de dormir em casa e... não voltou... ... ... mas continua a ter olhos azuis, a contar histórias e a apontar-me o caminho do terceiro filho dos contos tradicionais... acho que ia gostar do Papageno que tem uma plumagem azul de África, da cor da imaginação que bailava nos seus olhos... Fica aqui para ele... Beijinhos.)
Sem comentários:
Enviar um comentário