quinta-feira, 7 de outubro de 2010

Dia Internacional do Trabalho Digno (/decente)

 
"Só há liberdade a sério, quando houver a paz, o pão, habitação, saúde, educação...",  Sérgio Godinho
ou
"O Trabalho faz o Homem...", Michel Giacometti
ou
Calçada de Carriche

Luísa sobe,
sobe a calçada,
sobe e não pode
que vai cansada.
Sobe, Luísa,
Luísa, sobe,
sobe que sobe
sobe a calçada.

Saiu de casa
de madrugada;
regressa a casa
é já noite fechada.
Na mão grosseira,
de pele queimada,
leva a lancheira
desengonçada.
Anda, Luísa,
Luísa, sobe,
sobe que sobe,
sobe a calçada.
Luísa é nova,
desenxovalhada,
tem perna gorda,
bem torneada.
Ferve-lhe o sangue
de afogueada;
saltam-lhe os peitos
na caminhada.
Anda, Luísa.
Luísa, sobe,
sobe que sobe,
sobe a calçada.
Passam magalas,
rapaziada,
palpam-lhe as coxas,
não dá por nada.
Anda, Luísa,
Luísa, sobe,
sobe que sobe,
sobe a calçada.
Chegou a casa
não disse nada.
Pegou na filha,
deu-lhe a mamada;
bebeu da sopa
numa golada;
lavou a loiça,
varreu a escada;
deu jeito à casa
desarranjada;
coseu a roupa
já remendada;
despiu-se à pressa,
desinteressada;
caiu na cama
de uma assentada;
chegou o homem,
viu-a deitada;
serviu-se dela,
não deu por nada.
Anda, Luísa.
Luísa, sobe,
sobe que sobe,
sobe a calçada.
Na manhã débil,
sem alvorada,
salta da cama,
desembestada;
puxa da filha,
dá-lhe a mamada;
veste-se à pressa,
desengonçada;
anda, ciranda,
desaustinada;
range o soalho
a cada passada;
salta para a rua,
corre açodada,
galga o passeio,
desce a calçada,
desce a calçada,
chega à oficina
à hora marcada,
puxa que puxa,
larga que larga,
puxa que puxa,
larga que larga,
puxa que puxa,
larga que larga,
puxa que puxa,
larga que larga;
toca a sineta
na hora aprazada,
corre à cantina,
volta à toada,
puxa que puxa,
larga que larga,
puxa que puxa,
larga que larga,
puxa que puxa,
larga que larga.
Regressa a casa
é já noite fechada.
Luísa arqueja
pela calçada.
Anda, Luísa,
Luísa, sobe,
sobe que sobe,
sobe a calçada,
sobe que sobe,
sobe a calçada,
sobe que sobe,
sobe a calçada.
Anda, Luísa,
Luísa, sobe,
sobe que sobe,
sobe a calçada.

António Gedeão, in Teatro do Mundo
ou
...

4 comentários:

António Serrano disse...

Professora sempre!
Obrigado.

Natália Mosa disse...

Este sim, é um poema belo e forte! Tão forte que nos impede de ficar indiferentes perante estas Luisas de antes e de agora que fazem da vida luta e da luta um modo de vida.
Faz parte dos poemas dos meus afectos. Foi bom e oportuno recordar.

prohensa disse...

Isso do "Anda, Luísa,
Luísa, sobe,
sobe que sobe,
sobe a calçada.
", não tem nada a ver com a calçada que tu subias para ires para o colégio, pois não?

Muitíssimo bem escolhido!...

Luísa Antunes disse...

eheheh!... O que tu não sabes é que eu subi algumas vezes aquela calçada com o poema na cabeça mas num ritmo muito mais acelerado e achava que aquilo era um incentivo para eu ir sempre mais rápido... eis senão, quando, uns anos mais tarde, dei por mim a "ouvir" o poema e a perceber que aquela Luísa não era exactamente eu... Mas que dá para qualquer calçada ao ritmo das palavras do poeta-professor Gedeão, ai isso dá! Concordo contigo... Bjnhos e para o Prof. Serrano também.