terça-feira, 5 de outubro de 2010

Dia do Professor

O meu professor de Português era o Padre António Vieira dos sermões da Semana Santa na Beira Baixa... Foi ele que me explicou que aquilo de "fazer chorar as mulheres e levar os homens às lágrimas" fazia parte de uma disciplina chamada Retórica, que também vivia da capacidade de representação dramática do orador: teatro, portanto... e um alívio para mim que, tremendo, contava os meus dias de miúda na católica quaresma, para que o "Sermão do Encontro" e o da "Descida da Cruz" passassem rápido e com o mínimo de sofrimento possível! (Ainda hoje não entendo bem aquela coisa da "catarse" da tragédia clássica: faz bem, porquê? Descarga de adrenalina e fica tudo mais calmo... Ainda bem que é com os outros e não comigo?... Ná!... que eu saiba, comigo não funciona ou funciona mal: cuidado, cuidado, cuidado, medo, medo, medo, às vezes terror)...
A verdade é que desde aquela aula ("hoje é que vos vou explicar como é que eu faço chorar as mulheres nos Sermões da Semana Santa") em que o Padre Fatela nos levou às lágrimas de tanta gargalhada ao parodiar os seus próprios sermões, as suas técnicas de retórica ("eu começo sempre assim: Desde os mais altos picos das montanhas dos Himalaias e o seu cume do Evereste até às abissais profundezas da Fossa do Mindanau..."), os seus conhecimentos de Psicologia Colectiva ("e eu já não dizia nada... choravam homens, choravam mulheres, choravam crianças e eu só gritava em desespero para onde se não ouvia ainda o choro da tragédia de Cristo Nosso Senhor: AAAAAAArrrrrrgggghhhhhh!... e todos choravam...."), foi desde essa aula, dizia eu, que percebi  que o meu Professor - orador era um sábio, um cientista da língua, um arquitecto de linguagens, um feroz Mestre e um Homem gentil, sensível e com grande sentido e saber de Humor (1).
Recordo-o com muita ternura e reconhecimento por tudo o que ele (consciente ou inconscientemente) fez por mim. Talvez ser professor seja só um acto de amor.

"Olha, minha filha, um dia hás-de ser escritora!", sonhou-me ele.
E acabei em professora de Português.
Como ele.
(BEM haja, professor querido. Hoje, também é o seu dia, sim?...)

Ilustração:(a partir da animação italiana do conto de Luís Sepúlveda, História de uma gaivota e do Gato que a ensinou a Voar)


(1) O meu primeiro professor de Inglês, então muito jovem,  e colega do Padre Fatela contou-me uma anedota que este lhe contou numa reunião-festa de  professores, a propósito dos "Cigarros Kart... dão kilómetros de prazer!" /(...)/ Palavra puxa palavra, cigarro puxa cigarro e, a páginas tantas, o padre volta-se para mim e pergunta: "Sabe porque é que o Kart é o cigarro dos padres?!" Francamente lhe respondi que ignorava a razão do fato, e aguardei a explicação! Chegando-se mais a mim, segredou-me ao ouvido: "É porque é o cigarro que dá kilómetros de prazer aos que não podem ter o prazer dos centímetros!..."

3 comentários:

prohensa disse...

É sempre bom recordar o Padre Fatela, os seus famosos sermões e as suas, não menos famosas, aulas...
Posso pedir-te um favor? Clica ali no ícone do blogger e faz a ligação deste "post" ao blogue do Colégio. Assenta lá que nem uma luva!
bjs

António Serrano disse...

Que texto mais lindo! O Padre César Fatela - não confundir com o seu conterrâneo e penso que primo, Manuel Fatela - não foi meu professor, mas em mais de uma vez lhe ouvi o "Desde os píncaros das montanhas..." e a história daquele infeliz marinheiro que, ao deixar escapar a camisa para dentro do mar encapelado, se atirou à água para a reaver, desobedendo ao comandante. Salvo a custo, questionado severamente, explicou, garantindo o desespero lacrimoso das nossas Mães, Avós e vizinhas:
- É que no bolso daquela camisa ESTAVA O RETRATO DA MINHA MÃE!
Pronto, um retórico, que deixou boas memórias.
Pior lhe aconteceu, quando lá na sua Meimoa lhe acertaram uma dúzia de chumbos no sítio que usamos para nos sentarmos.
Então hoje não é para rir dos/com/para os padres, ai!, professores?!
Parabéns, Amiga. Bem haja por este bem lindo texto. Acabei no princípio?! Olha, que bom!!!

Luísa Antunes disse...

Professor Serrano, não conhecia a história do marinheiro, mas assenta que nem uma luva nos sermões da Semana Santa que lhe ouvia... Ainda hoje se faz chorar assim, em "ondas de aflições" (é do Fernão Lopes esta expressão, não é?...)Abraço e bom Dia do Professor, Professor!
... e para o João, ficam beijinhos. Eu partilhei como tu explicaste, mas acho que fiz asneira... pelos vistos, também se lê assim [e estás muito giro, na Alemanha, armad(ilhad)o de adufe...]