segunda-feira, 29 de junho de 2009

Dia de S. Pedro


O S. Pedro era meu vizinho e eu gostava de o visitar: tinha uma igreja pequenina e antiga, com paredes revestidas de azulejos árabes e um tecto azul pejado de estrelas douradas. Só lá cabia ele no altar principal e, miúda que era, sempre lhe guardei um certo respeito e até temor: pequenino e em talha dourada, com uma chave na mão, parecia-me um menino grande que gostava que eu brincasse por ali, na sua vizinhança... mas os olhos, ai os olhos... grandes e redondos, pretos e brilhantes como os do escriba egípcio (que vim a conhecer mais tarde), pareciam estar sempre à espreita da primeira escorregadela para o "pecado", para me admoestarem e lembrar que... Na minha família havia alguns parentes com aqueles olhos, que acrescentavam às atrás descritas características um subtil e fluente estilo de humor... Se o S. Pedro, meu vizinho de brincadeiras, estivesse a sorrir um pouco, teria com certeza aquele olhar maroto de quem vai dizendo verdades com travessuras na voz! Que eu gostava muito dele, gostava (e da Santa Maria, que agora morava ali, desde que desaparecera a sua igreja, em anos dos tempos que já lá vão, do ainda assim nomeado Largo de Santa Maria, mais acima deste Largo de S. Pedro)... que os meninos mais novos que eu lhe plantaram uma tília que continua lá, também é verdade e que tenho muita pena de já não ter a fotografia que lhe tirei há muitos e muitos anos e que gos tava tanto de colocar aqui, entristece-me um bocadinho! Afinal, ele foi sempre um bom amigo e protector das minhas brincadeiras infantis e várias vezes deve ter evitado que fizesse mais umas asneirolas (daquelas que a mãe não gostava), só porque me tinha olhado nos olhos e não estava a sorrir e era logo a minha mãe que eu ouvia...
Tenho pena de não me lembrar de nenhuma quadra daquelas que eu ouvia quando era miúda e que muito me intrigavam: como é que os santos da igreja católica, tão sérios e de milagres, podiam ser alvo de tanta brincadeira malandreca? Vira o disco e toca o mesmo: tanto o S. António, como o S. João, como o S. Pedro ouviam os mesmos elogios (uns "thrickster" pagãos era o que era, uns namoradeiros malandrecos, uns... só durante este mês de Junho, é um facto...)...

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