É condição do "herói" partir. Partir para se encontrar e encontrar as condições de vida que lhe permitem aceder a "ser" (humano). Partir por si e/ou pela Humanidade é o mesmo. Por cada homem feliz (o "herói") há uma parcela de Humanidade que... . É por isso que gosto de "olhar... a memória... de passarem aves", num feliz encontro de Jorge de Sena com as palavras de Sá de Miranda, para quem "caem co'a calma as aves"...Aqui ficam, pois, Jorge de Sena e Manuel Freire, dois dos que continuam a traçar o rumo das "migrações" que vejo passar ano após ano, rumo a um mapa de encontros e de sonhos...
...DE PASSAREM AVESÀ memória de Sá de Miranda
Das aves passam as sombras,
um momento, no chão, perto de mim.
No tardo Verão que as trouxe e as demora,
por que beirais não sei
onde se abrigam piando
como ao passar chilreiam.
Um momento só. Rápidas voam!
E a vida em que regressam de outras terras
não é tão rápida: fiquei olhando
as sombras não, mas a memória delas,
das sombras não, mas de passarem aves.
Jorge de Sena, Pedra Filosofal
Ei-los que partem
Ei-los que partem
novos e velhos
buscando a sorte
noutras paragens
noutras aragens
entre outros povos
ei-los que partem
velhos e novos
Ei-los que partem
de olhos molhados
coração triste
e a saca às costas
esperança em riste
sonhos dourados
ei-los que partem
de olhos molhados
Virão um dia
ricos ou não
contando histórias
de lá de longe
onde o suor
se fez em pão
virão um dia
ou não
Manuel Freire
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