Faz hoje 47 (ou 48) anos que recitei o meu primeiro poema no "dia da mãe", que o era dantes, nesta data. Difícil, o soneto de Antero de Quental que me coube em sorte, tinha eu 5 anos, mas que me fez pensar que "quando eu for grande, vou perceber tudo, que isto é um poema para a minha mãe" e parece que também para Nossa senhora, que é a mãe do Menino Jesus (com este sim, eu tinha uma grande empatia: era rechonchudinho e sorridente no presépio, traquinas e alegre como criança... um reguila feliz, afinal, e muito, muito bom... era ele que me servia também de modelo e era ele que falava por mim à Mãe, se possível, que eu às vezes não era flor que se cheirasse...). A vida foi correndo e por entre os segundos do feriado religioso de hoje, dia da Padroeira de Portugal, relembrei uma comovente e sereníssima imagem de Nossa Senhora da Conceição, no Convento de S. Gonçalo em Angra de Heroísmo e o meu primeiro soneto "à Mãe", dito em público: aqui ficam ambas as recordações (a foto e o a versão fac-similada pela Biblioteca nacional do soneto de A
ntero). À VIRGEM SANTÍSSIMA (Cheia de Graça, Mãe de Misericórdia)
Num sonho todo feito de incerteza,
De noturna e indizível ansiedade
É que eu vi teu olhar de piedade
E (mais que piedade) de tristeza...
Não era o vulgar brilho da beleza,
Nem o ardor banal da mocidade...
Era outra luz, era outra suavidade,
Que até nem sei se as há na natureza...
Um místico sofrer... uma ventura
Feita só do perdão, só ternura
E da paz da nossa hora derradeira...
Ó visão, visão triste e piedosa!
Fita-me assim calada, assim chorosa...
E deixa-me sonhar a vida inteira!
Antero de Quental, Sonetos
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