quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

Aniversário de Damião de Góis

Culto, livre, viajado, humanista, Damião de Góis não devia ter jeito para Herói, nem Santo, nem vítima sacrificial de qualquer espécie: tal como Galileu, abjurou perante a Inquisição - acredito que por amor à vida -,  mas acaba por morrer sozinho, de forma estranha, acreditando-se que poderá ter sido assassinado. Razões?... Para nós, hoje, as invocadas pela Inquisição não deixam de nos causar espanto e repúdio (senão repulsa), tanto mais que a própria família nelas terá estado envolvida. Um exemplo: à sobrinha, grávida, que lhe confessa ter desejos de carne em dia de defeso da Igreja, ele terá afirmado que "o que entra pela boca é de Deus"... sacrilégio! (bem como privar com Erasmo de Roterdão, Lutero, Melanchton e outros "heréticos" com quem conviveu nas suas viagens)...
Saramago, na peça "Que farei com este livro", coloca-o como amigo de Luís de Camões (de quem foi contemporâneo) e é pela sua boca que entendemos aquelas exclamações finais de desalento do nosso maior poeta nos finais de alguns cantos de "Os Lusíadas": foram escritos já em Portugal, após o regresso do Oriente (onde redigiu toda a heróica aventura dos Portugueses centrada na viagem de Vasco da Gama à Índia)... Também Camões teve problemas com a Inquisição (por causa da mitologia greco-latina, do canto IX do seu poema épico...), mas o livro que salvara a nado nas águas do oceano "lá" acaba por ser publicado... Um e outro foram d' "aqueles que por obras valerosas / se vão da lei da morte libertando"... pena que a lei da morte lhes tenha sido tão pesada em vida!...

Que pecado (religioso) ou crime (profano) cometeram homens como Sócrates, Galileu, Damião de Góis?!!!... O da Tolerância?...

(A ilustração é de um retrato de Damião de Góis, pintado por Albrecht Dürer, com quem igualmente privou.)

“Quando relemos hoje o processo de Damião de Goes, não é sem um grito de indignação que vamos tomando conhecimento das acusações que lhe serviram de base — desde “comer carne em dia de defeso” e desprezar as imagens dos santos a ter falado com Lutero e ser amigo de Erasmo, desde a sua oposição à confissão auricular até à sua desvalorização das indulgências papais, assim pondo em causa o poder do Papa e a existência do Purgatório… Acusações reveladoras do vírus dogmatizante tantas vezes presente nas crenças religiosas, com a sua tendência para excluírem, com maior ou menor perseguição, aqueles que não se conformam ou ousam pôr em causa, no todo ou em parte, as suas doutrinas. Acusações que deixam também evidente o quanto de pernicioso pode existir no fenómeno de acasalamento entre um poder religioso ou ideológico, qualquer que ele seja, e o poder político.”
in Raul Rêgo, O Processo de Damião de Goes na Inquisição
Damião de Góis na peça teatral de José Saramago "Que farei com este livro?":
"É Damião de Góis quem percebe as diferenças, existentes na obra de Camões, entre o que foi escrito na Índia e os acréscimos e as alterações “por causa do que cá viestes encontrar” (QFL,II,1,103). Camões, atendendo a seu pedido, enumera as partes novas: a dedicatória a D. Sebastião, “o final do canto quinto, também do sétimo, algumas oitavas do canto nono, outras no canto décimo” (QFL,II,1,104) e a referência ao fato de a família de Vasco da Gama não honrar a memória de seu ilustre antepassado. No final do canto quinto, há um excurso do poeta criticando os portugueses de sua época por não valorizarem o canto que enaltece “a justa glória/ Dos próprios feitos” (Lus.V,92,vv.1-2); na estância 99, o poeta chama a atenção para o fato de que nem o Gama, “nem quem na estirpe seu se chama” prezam as musas inspiradoras do canto épico. Camões questiona o próprio herói da epopéia e sua descendência, perspectivando não só o valor que cerca a heroicidade, como a importância de obra com tal herói. Só não deixa de louvar o canto, embora pareça prever o frio acolhimento a seu texto, uma vez que apenas as “Tágides gentis” manifestam o propósito “De dar a todo o Lusitano feito/ Seu louvor” (Lus.V,100). O excurso ao final do canto sétimo é também um lamento que se exala do poeta. Queixa-se de seus infortúnios no mar e na guerra e da ingratidão daqueles que foram exaltados em seus versos. Novamente ataca os portugueses, seus contemporâneos, por não recompensarem devidamente os artistas que queiram celebrá-los. Enumera aqueles que não serão privilegiados com seu canto: qualquer homem ilustre, por lisonja; homens interesseiros e ambiciosos; os que abusam do poder, os inconstantes, os que roubam o povo e ainda os que seguem os desmandos do rei para vilipendiar a “servil gente”. Em contrapartida, propõe-se a exaltar os portugueses que arriscam sua vida por seu Deus ou por seu rei. As oitavas do canto nono, sugeridas por Saramago, bem podem ser aquelas finais em que Camões exorta os que suspiram por imortalizar o seu nome a despertarem “do sono do ócio ignavo”, a frearem a cobiça, a ambição, a tirania; o texto camoniano apela já por igualdade social, ainda que defenda um ideário cruzadístico de ataque aos gentios: “Ou daí na paz as leis iguais, constantes,/ Que aos grandes não dem o dos pequenos,/ Ou vos vesti nas armas rutilantes,/ Contra a Lei dos immigos Sarracenos:/ Fareis os Reinos grandes e possantes,/E todos tereis mais e nenhum menos” (Lus.IX,94). No canto décimo, o final do grande texto – que exalta “As armas e os barões assinalados” – manifesta o desalento e o cansaço do poeta:




No mais, Musa, no mais, que a Lira tenho
Destemperada e a voz enrouquecida,
E não do canto, mas de ver que venho
Cantar a gente surda e endurecida.
O favor com que mais se acende o engenho
Não no dá a pátria, não, que está metida
No gosto da cobiça e na rudeza
Dhua austera, apagada e vil tristeza. (Lus.X,145)


O tom é melancólico, não “sublimado”, fruto – como atenta Saramago pela fala de Damião de Góis -, da desilusão pessoal causada pela própria vida e pela realidade social portuguesa, obra de remendão: “O que trouxestes da Índia, Luís Vaz, foi a história do antigo Portugal, mais a grande navegação. Tudo isso que acrescentastes são casos dos nossos dias de agora, deste tempo em que não sabemos para onde Portugal vai.” (QFL,II,1,104)."
in http://www.filologia.org.br/soletras/4/01.htm

Outros links interessantes:
http://cvc.instituto-camoes.pt/olingua/03/lingua04.html
http://www.vidaslusofonas.pt/damiao_de_gois.htm
http://www.arlindo-correia.com/160810.html

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