Ora aí está a canção que mais me entusiasmou, antes de entrar na Escola Primária... Tendo em conta que não me calava com ela, pouco mais devia ser, na altura, que um desenho animado... (ainda hoje não sei do que fala, mas que sabia a letra de cor, sabia..)
sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011
terça-feira, 8 de fevereiro de 2011
Aniversário de Júlio Verne
Eu tinha 13 anos e vi nessa tarde de 20 de Julho de 1969 (terá sido?) , na televisão a preto e branco, um homem encapsulado num escafandro pisar "aos saltinhos" o solo da Lua e falar em inglês qualquer coisa "mastigada" que depois foi traduzida e toda a gente conhece. E vi a alegria dos técnicos da NASA, entre palmas e rostos felizes, comemorarem o que senti bem ser a realização de um sonho. E fiquei feliz com eles...
Ao longo dos anos, fui percebendo melhor esta "odisseia no espaço": lera Júlio Verne, vi os desenhos de "foguetões" de Leonardo da Vinci, aprendi de cor a "Pedra Filosofal" do nosso professor Rómulo de Carvalho e poeta António Gedeão e cantei-lhe os versos com um sonho de Humanidade, pela voz de Manuel Freire. Dei-o nas aulas aos alunos em contraponto com o "Velho do Restelo" de Camões, discutimos e sonhámos... falámos da vida pujante da Língua e da sua sempre renovada modernidade e "alunar" foi neologismo que sempre me serviu de referência, porque sonhou em todas as direcções a minha adolescência: "Eles não sabem nem sonham / que o sonho comanda a vida / e que sempre que um homem sonha / o mundo pula e avança..."
E, cuidado, que também ouvi anos mais tarde, a mãe da cabeleireira indignar-se educadamente comigo por eu acreditar que o homem fora à lua e que o homem descia darwinianamente do macaco... Era um ultraje ao seu Deus... Hoje sorrio ainda e, pensando nela, constato que acabei por ficar com os cientistas que, perante a falência das teorias e a incapacidade de se arranjar uma explicação para o "Universo", se encontram com a palavra "Deus", que pode ser também quem nos comanda a "vida" (ou a "alma", o que em divino se sonha e sonha).
Júlio Verne chegou à minha vida, pouco depois de "esgotar" os Contos de Fadas: conservava a fantasia da infância, mas iniciava-me no gosto da ciência. Lembro-me bem de Philleas Fogg e de achar que todas as suas histórias eram a verdade mesmo de um mundo que eu ia conhecer quando fosse grande... Foi um grande companheiro e um bom amigo... quase tanto como o Sr. Abel, o senhor que desde os meus 6 anos me escolhia os livros na Biblioteca Itinerante da Gulbenkian, onde todos os meses ia religiosamente entregar os lidos e recolher mais uma "molhada", depois de lhe dar conta - sim, que o Sr Abel não brincava em serviço - de quais gostara mais e porquê e... que era uma vergonha uma menina de 10 anos ainda querer levar à sorrelfa uns Contos de Fadas e enfiou-me com as Mil e Uma Noites para ler, só com umas minúsculas, pobres e negras ilustrações a que eu não achei graça nenhuma ao ponto de temer pela minha vida de leitora quando adulta, se só por (só) ter 10 anos já tinha de me iniciar naquele breu de cores do mundo de quando for grande, que grande chatice e lá vai mais uma molhada e 2 ou 3 de Fadas bem escondidos tudo ao molho e fé em Deus e lá passavam...
(E não é que, bem mais tarde, acabei por ler as Mil e Uma Noites, bem à luz do dia e sem nenhuma imagem, porque a edição era de bolso e bem mais barata, que a magra bolsa tinha outras prioridades...e gostei que me fartei e gosto hoje, sempre de maneira diferente, que as 1001 noites da vida nos trazem para a luz 1001 formas de alvorecer os dias...)
Enfim, histórias da infância e já nem tanto, com um Júlio Verne de permeio a levar-me à Lua, ao centro da Terra, à volta do Mundo em 80 dias e... ao Rick Wakemann, no fulgor da adolescência, de quem continuo fã incondicional (também deixo aqui o sonho do músico na sua magistral "Journey to the Center of the Earth"...)
(E não é que, bem mais tarde, acabei por ler as Mil e Uma Noites, bem à luz do dia e sem nenhuma imagem, porque a edição era de bolso e bem mais barata, que a magra bolsa tinha outras prioridades...e gostei que me fartei e gosto hoje, sempre de maneira diferente, que as 1001 noites da vida nos trazem para a luz 1001 formas de alvorecer os dias...)
Enfim, histórias da infância e já nem tanto, com um Júlio Verne de permeio a levar-me à Lua, ao centro da Terra, à volta do Mundo em 80 dias e... ao Rick Wakemann, no fulgor da adolescência, de quem continuo fã incondicional (também deixo aqui o sonho do músico na sua magistral "Journey to the Center of the Earth"...)
Joyeux Anniversaire, Mr. Verne!... Gros bisous de mon enfance...
domingo, 6 de fevereiro de 2011
Aniversário do Padre António Vieira
(painel de azulejos na Igreja de S. Simão de Vila Fresca de Azeitão)
(Problema sério é ouvir quem lhe copie a retórica para a transformar em manipulação... É o que acontece a todos os grandes criadores!...)
" A diferença que há entre o pão e os outros comeres, é que para a carne, há dias de carne, e para o peixe, dias de peixe, e para as frutas, diferentes meses no ano; porém o pão é comer de todos os dias, que sempre e continuadamente se come: e isto é o que padecem os pequenos. São o pão quotidiano dos grandes; e assim como o pão se come com tudo, assim com tudo e em tudo são comidos os miseráveis pequenos, não tendo nem fazendo ofício em que os não carreguem, em que os não multem, em que os não defraudem, em que os não comam, traguem e devorem (...)"
in Padre Antonio Vieira, Sermão de Santo António aos Peixes
http://www.snpcultura.org/pedras_angulares_sermao_4a_feira_cinzas.html (excelente "post")
sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011
Aniversário de Almeida Garrett
Eu acho que gosto do Garrett todo, até daquele daqueles dias do mês... assim dos de "Folhas Caídas" e "Flores sem Fruto", em que a gente sofre ay Deus e hu é e sofre e sofre Pede o desejo, Dama, que vos veja e sofre e não te amo, quero-te, o amor vem de alma... e eu na alma tenho a calma, a calma do jazigo... Ai, não te amo não...
É fácil viajar com ele e é quase sempre muito agradável... vamos fazendo as Viagens na Minha Terra, relembramos o Romanceiro tradicional, os dramas da Nação sem rei e do Homem sem identidade: Quem és tu, romeiro, quem és tu? - ... Ninguém e vemo-nos todos Ninguém no auge do sofrimento sem rei nem lei nem paz nem guerra... e é Portugal a entristecer (quer dizer, nós com ele).
Não, não vou consultar nenhum dos poemas que o Garrett me ofereceu nesta Viagem à roda dos seus anos, não vou rever os textos, porque ele merece ter dia de anos e que a gente viaje por ele em paz e só me é permitido confirmar a BARCA BELA, que aqui vou deixar... e como eu também sou pescador e tenho uma barca bela sempre pronta e aparelhada para ir pela barra fora, é melhor me precaver. Vou ouvir os conselhos do João Baptista, escrevendo-os ritmadamente, como se barca bela a navegar (-me)...
(Ah!... e quando eu não quiser ouvir os conselhos dele, baloiço-me ao ritmo da sua barca bela e durmo, sa voz manselinha fremoso cantando...)
Pescador da barca bela,
Onde vais pescar com ela.
Que é tão bela,
Oh pescador?
Não vês que a última estrela
No céu nublado se vela?
Colhe a vela,
Oh pescador!
Deita o lanço com cautela,
Que a sereia canta bela...
Mas cautela,
Oh pescador!
Não se enrede a rede nela,
Que perdido é remo e vela,
Só de vê-la,
Oh pescador.
Pescador da barca bela,
Inda é tempo, foge dela
Foge dela
Oh pescador!
Folhas Caídas
É fácil viajar com ele e é quase sempre muito agradável... vamos fazendo as Viagens na Minha Terra, relembramos o Romanceiro tradicional, os dramas da Nação sem rei e do Homem sem identidade: Quem és tu, romeiro, quem és tu? - ... Ninguém e vemo-nos todos Ninguém no auge do sofrimento sem rei nem lei nem paz nem guerra... e é Portugal a entristecer (quer dizer, nós com ele).
Não, não vou consultar nenhum dos poemas que o Garrett me ofereceu nesta Viagem à roda dos seus anos, não vou rever os textos, porque ele merece ter dia de anos e que a gente viaje por ele em paz e só me é permitido confirmar a BARCA BELA, que aqui vou deixar... e como eu também sou pescador e tenho uma barca bela sempre pronta e aparelhada para ir pela barra fora, é melhor me precaver. Vou ouvir os conselhos do João Baptista, escrevendo-os ritmadamente, como se barca bela a navegar (-me)...
(Ah!... e quando eu não quiser ouvir os conselhos dele, baloiço-me ao ritmo da sua barca bela e durmo, sa voz manselinha fremoso cantando...)
Pescador da barca bela,
Onde vais pescar com ela.
Que é tão bela,
Oh pescador?
Não vês que a última estrela
No céu nublado se vela?
Colhe a vela,
Oh pescador!
Deita o lanço com cautela,
Que a sereia canta bela...
Mas cautela,
Oh pescador!
Não se enrede a rede nela,
Que perdido é remo e vela,
Só de vê-la,
Oh pescador.
Pescador da barca bela,
Inda é tempo, foge dela
Foge dela
Oh pescador!
Folhas Caídas
quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011
Aniversário de Damião de Góis
Culto, livre, viajado, humanista, Damião de Góis não devia ter jeito para Herói, nem Santo, nem vítima sacrificial de qualquer espécie: tal como Galileu, abjurou perante a Inquisição - acredito que por amor à vida -, mas acaba por morrer sozinho, de forma estranha, acreditando-se que poderá ter sido assassinado. Razões?... Para nós, hoje, as invocadas pela Inquisição não deixam de nos causar espanto e repúdio (senão repulsa), tanto mais que a própria família nelas terá estado envolvida. Um exemplo: à sobrinha, grávida, que lhe confessa ter desejos de carne em dia de defeso da Igreja, ele terá afirmado que "o que entra pela boca é de Deus"... sacrilégio! (bem como privar com Erasmo de Roterdão, Lutero, Melanchton e outros "heréticos" com quem conviveu nas suas viagens)...
Saramago, na peça "Que farei com este livro", coloca-o como amigo de Luís de Camões (de quem foi contemporâneo) e é pela sua boca que entendemos aquelas exclamações finais de desalento do nosso maior poeta nos finais de alguns cantos de "Os Lusíadas": foram escritos já em Portugal, após o regresso do Oriente (onde redigiu toda a heróica aventura dos Portugueses centrada na viagem de Vasco da Gama à Índia)... Também Camões teve problemas com a Inquisição (por causa da mitologia greco-latina, do canto IX do seu poema épico...), mas o livro que salvara a nado nas águas do oceano "lá" acaba por ser publicado... Um e outro foram d' "aqueles que por obras valerosas / se vão da lei da morte libertando"... pena que a lei da morte lhes tenha sido tão pesada em vida!...
Que pecado (religioso) ou crime (profano) cometeram homens como Sócrates, Galileu, Damião de Góis?!!!... O da Tolerância?...
(A ilustração é de um retrato de Damião de Góis, pintado por Albrecht Dürer, com quem igualmente privou.)
“Quando relemos hoje o processo de Damião de Goes, não é sem um grito de indignação que vamos tomando conhecimento das acusações que lhe serviram de base — desde “comer carne em dia de defeso” e desprezar as imagens dos santos a ter falado com Lutero e ser amigo de Erasmo, desde a sua oposição à confissão auricular até à sua desvalorização das indulgências papais, assim pondo em causa o poder do Papa e a existência do Purgatório… Acusações reveladoras do vírus dogmatizante tantas vezes presente nas crenças religiosas, com a sua tendência para excluírem, com maior ou menor perseguição, aqueles que não se conformam ou ousam pôr em causa, no todo ou em parte, as suas doutrinas. Acusações que deixam também evidente o quanto de pernicioso pode existir no fenómeno de acasalamento entre um poder religioso ou ideológico, qualquer que ele seja, e o poder político.”
in Raul Rêgo, O Processo de Damião de Goes na Inquisição
Damião de Góis na peça teatral de José Saramago "Que farei com este livro?":
"É Damião de Góis quem percebe as diferenças, existentes na obra de Camões, entre o que foi escrito na Índia e os acréscimos e as alterações “por causa do que cá viestes encontrar” (QFL,II,1,103). Camões, atendendo a seu pedido, enumera as partes novas: a dedicatória a D. Sebastião, “o final do canto quinto, também do sétimo, algumas oitavas do canto nono, outras no canto décimo” (QFL,II,1,104) e a referência ao fato de a família de Vasco da Gama não honrar a memória de seu ilustre antepassado. No final do canto quinto, há um excurso do poeta criticando os portugueses de sua época por não valorizarem o canto que enaltece “a justa glória/ Dos próprios feitos” (Lus.V,92,vv.1-2); na estância 99, o poeta chama a atenção para o fato de que nem o Gama, “nem quem na estirpe seu se chama” prezam as musas inspiradoras do canto épico. Camões questiona o próprio herói da epopéia e sua descendência, perspectivando não só o valor que cerca a heroicidade, como a importância de obra com tal herói. Só não deixa de louvar o canto, embora pareça prever o frio acolhimento a seu texto, uma vez que apenas as “Tágides gentis” manifestam o propósito “De dar a todo o Lusitano feito/ Seu louvor” (Lus.V,100). O excurso ao final do canto sétimo é também um lamento que se exala do poeta. Queixa-se de seus infortúnios no mar e na guerra e da ingratidão daqueles que foram exaltados em seus versos. Novamente ataca os portugueses, seus contemporâneos, por não recompensarem devidamente os artistas que queiram celebrá-los. Enumera aqueles que não serão privilegiados com seu canto: qualquer homem ilustre, por lisonja; homens interesseiros e ambiciosos; os que abusam do poder, os inconstantes, os que roubam o povo e ainda os que seguem os desmandos do rei para vilipendiar a “servil gente”. Em contrapartida, propõe-se a exaltar os portugueses que arriscam sua vida por seu Deus ou por seu rei. As oitavas do canto nono, sugeridas por Saramago, bem podem ser aquelas finais em que Camões exorta os que suspiram por imortalizar o seu nome a despertarem “do sono do ócio ignavo”, a frearem a cobiça, a ambição, a tirania; o texto camoniano apela já por igualdade social, ainda que defenda um ideário cruzadístico de ataque aos gentios: “Ou daí na paz as leis iguais, constantes,/ Que aos grandes não dem o dos pequenos,/ Ou vos vesti nas armas rutilantes,/ Contra a Lei dos immigos Sarracenos:/ Fareis os Reinos grandes e possantes,/E todos tereis mais e nenhum menos” (Lus.IX,94). No canto décimo, o final do grande texto – que exalta “As armas e os barões assinalados” – manifesta o desalento e o cansaço do poeta:
No mais, Musa, no mais, que a Lira tenho
Destemperada e a voz enrouquecida,
E não do canto, mas de ver que venho
Cantar a gente surda e endurecida.
O favor com que mais se acende o engenho
Não no dá a pátria, não, que está metida
No gosto da cobiça e na rudeza
Dhua austera, apagada e vil tristeza. (Lus.X,145)
O tom é melancólico, não “sublimado”, fruto – como atenta Saramago pela fala de Damião de Góis -, da desilusão pessoal causada pela própria vida e pela realidade social portuguesa, obra de remendão: “O que trouxestes da Índia, Luís Vaz, foi a história do antigo Portugal, mais a grande navegação. Tudo isso que acrescentastes são casos dos nossos dias de agora, deste tempo em que não sabemos para onde Portugal vai.” (QFL,II,1,104)."
in http://www.filologia.org.br/soletras/4/01.htm
Outros links interessantes:
http://cvc.instituto-camoes.pt/olingua/03/lingua04.html
http://www.vidaslusofonas.pt/damiao_de_gois.htm
http://www.arlindo-correia.com/160810.html
Saramago, na peça "Que farei com este livro", coloca-o como amigo de Luís de Camões (de quem foi contemporâneo) e é pela sua boca que entendemos aquelas exclamações finais de desalento do nosso maior poeta nos finais de alguns cantos de "Os Lusíadas": foram escritos já em Portugal, após o regresso do Oriente (onde redigiu toda a heróica aventura dos Portugueses centrada na viagem de Vasco da Gama à Índia)... Também Camões teve problemas com a Inquisição (por causa da mitologia greco-latina, do canto IX do seu poema épico...), mas o livro que salvara a nado nas águas do oceano "lá" acaba por ser publicado... Um e outro foram d' "aqueles que por obras valerosas / se vão da lei da morte libertando"... pena que a lei da morte lhes tenha sido tão pesada em vida!...
Que pecado (religioso) ou crime (profano) cometeram homens como Sócrates, Galileu, Damião de Góis?!!!... O da Tolerância?...
(A ilustração é de um retrato de Damião de Góis, pintado por Albrecht Dürer, com quem igualmente privou.)
“Quando relemos hoje o processo de Damião de Goes, não é sem um grito de indignação que vamos tomando conhecimento das acusações que lhe serviram de base — desde “comer carne em dia de defeso” e desprezar as imagens dos santos a ter falado com Lutero e ser amigo de Erasmo, desde a sua oposição à confissão auricular até à sua desvalorização das indulgências papais, assim pondo em causa o poder do Papa e a existência do Purgatório… Acusações reveladoras do vírus dogmatizante tantas vezes presente nas crenças religiosas, com a sua tendência para excluírem, com maior ou menor perseguição, aqueles que não se conformam ou ousam pôr em causa, no todo ou em parte, as suas doutrinas. Acusações que deixam também evidente o quanto de pernicioso pode existir no fenómeno de acasalamento entre um poder religioso ou ideológico, qualquer que ele seja, e o poder político.”
in Raul Rêgo, O Processo de Damião de Goes na Inquisição
Damião de Góis na peça teatral de José Saramago "Que farei com este livro?":
"É Damião de Góis quem percebe as diferenças, existentes na obra de Camões, entre o que foi escrito na Índia e os acréscimos e as alterações “por causa do que cá viestes encontrar” (QFL,II,1,103). Camões, atendendo a seu pedido, enumera as partes novas: a dedicatória a D. Sebastião, “o final do canto quinto, também do sétimo, algumas oitavas do canto nono, outras no canto décimo” (QFL,II,1,104) e a referência ao fato de a família de Vasco da Gama não honrar a memória de seu ilustre antepassado. No final do canto quinto, há um excurso do poeta criticando os portugueses de sua época por não valorizarem o canto que enaltece “a justa glória/ Dos próprios feitos” (Lus.V,92,vv.1-2); na estância 99, o poeta chama a atenção para o fato de que nem o Gama, “nem quem na estirpe seu se chama” prezam as musas inspiradoras do canto épico. Camões questiona o próprio herói da epopéia e sua descendência, perspectivando não só o valor que cerca a heroicidade, como a importância de obra com tal herói. Só não deixa de louvar o canto, embora pareça prever o frio acolhimento a seu texto, uma vez que apenas as “Tágides gentis” manifestam o propósito “De dar a todo o Lusitano feito/ Seu louvor” (Lus.V,100). O excurso ao final do canto sétimo é também um lamento que se exala do poeta. Queixa-se de seus infortúnios no mar e na guerra e da ingratidão daqueles que foram exaltados em seus versos. Novamente ataca os portugueses, seus contemporâneos, por não recompensarem devidamente os artistas que queiram celebrá-los. Enumera aqueles que não serão privilegiados com seu canto: qualquer homem ilustre, por lisonja; homens interesseiros e ambiciosos; os que abusam do poder, os inconstantes, os que roubam o povo e ainda os que seguem os desmandos do rei para vilipendiar a “servil gente”. Em contrapartida, propõe-se a exaltar os portugueses que arriscam sua vida por seu Deus ou por seu rei. As oitavas do canto nono, sugeridas por Saramago, bem podem ser aquelas finais em que Camões exorta os que suspiram por imortalizar o seu nome a despertarem “do sono do ócio ignavo”, a frearem a cobiça, a ambição, a tirania; o texto camoniano apela já por igualdade social, ainda que defenda um ideário cruzadístico de ataque aos gentios: “Ou daí na paz as leis iguais, constantes,/ Que aos grandes não dem o dos pequenos,/ Ou vos vesti nas armas rutilantes,/ Contra a Lei dos immigos Sarracenos:/ Fareis os Reinos grandes e possantes,/E todos tereis mais e nenhum menos” (Lus.IX,94). No canto décimo, o final do grande texto – que exalta “As armas e os barões assinalados” – manifesta o desalento e o cansaço do poeta:
No mais, Musa, no mais, que a Lira tenho
Destemperada e a voz enrouquecida,
E não do canto, mas de ver que venho
Cantar a gente surda e endurecida.
O favor com que mais se acende o engenho
Não no dá a pátria, não, que está metida
No gosto da cobiça e na rudeza
Dhua austera, apagada e vil tristeza. (Lus.X,145)
O tom é melancólico, não “sublimado”, fruto – como atenta Saramago pela fala de Damião de Góis -, da desilusão pessoal causada pela própria vida e pela realidade social portuguesa, obra de remendão: “O que trouxestes da Índia, Luís Vaz, foi a história do antigo Portugal, mais a grande navegação. Tudo isso que acrescentastes são casos dos nossos dias de agora, deste tempo em que não sabemos para onde Portugal vai.” (QFL,II,1,104)."
in http://www.filologia.org.br/soletras/4/01.htm
Outros links interessantes:
http://cvc.instituto-camoes.pt/olingua/03/lingua04.html
http://www.vidaslusofonas.pt/damiao_de_gois.htm
http://www.arlindo-correia.com/160810.html
domingo, 30 de janeiro de 2011
Dia Escolar da Não-violência e da Paz
Lálálálálálárilálá... oh cachopa se queres ser bonita arrebita arrebita arrebita... lálárálálállálálálá.. lálálálárilálálá... oh ca... caca... qu'é isto? Uma andorinha bébé tinha-se despegado em queda livre e rasante ao meu nariz, lá do beiral do seu telhado... Eu tenho uma andorinha, eu tenho uma andorinha, eu tenho... olhe, mãe, eu tenho... e não sabe voar e fica aqui a viver em casa... não, eu sei que ela não sabe voar, apanhei-a de cima dos meus pés... é minha! Mas não era e, passados aqueles minutos de ninho provisório em que se lhe deve ter transformado a minha mão de criança, ela queria mesmo era voar... que não, que não até que anuí e a deixei voar pela janela. Afinal, eu também não gostava de viver numa gaiola e assim me convenceu a minha paciente mãe. Entretanto, continuo à espera que uma decida fazer o ninho aqui no beiral do meu telhado. Que vá e volte..
Na história do vídeo, é o gato Zorbas que educa e cria a gaivota Ditosa ("Fortunata", em italiano). Vale a pena ver a história toda no youtube. Só deixo aqui uma pequena amostra. Acho que o conto de Luís Sepúlveda também encerra esse ideal de não-violência e paz. Também no meio escolar.
Na história do vídeo, é o gato Zorbas que educa e cria a gaivota Ditosa ("Fortunata", em italiano). Vale a pena ver a história toda no youtube. Só deixo aqui uma pequena amostra. Acho que o conto de Luís Sepúlveda também encerra esse ideal de não-violência e paz. Também no meio escolar.
sexta-feira, 28 de janeiro de 2011
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