quinta-feira, 25 de novembro de 2010

Dia Internacional para a Eliminação da Violência contra as Mulheres/ Dia Nacional do Empresário)

NOTICIA DE JORNAL

Tentou contra a existência
Num humilde barracão,
Joana de tal, por causa de um tal João.
Depois de medicada,
Retirou-se pro seu lar.
Aí a notícia carece de exatidão,
O lar não mais existe
Ninguém volta ao que acabou
Joana é mais uma mulata triste que errou.
Errou na dose
Errou no amor
Joana errou de joão
Ninguém notou
Ninguém morou na dor que era o seu mal
A dor da gente não sai no jornal.

Chico Buarque, (1975, A Gota de Água)

(para ouvir a composição de chico Buarque, aqui, nos 38 segundos iniciais...


e, a seguir, uma apresentação em vídeo de cartoons sobre este tema, patente na Assembleia da República.)


... E como hoje também é o "Dia nacional do Empresário", já aqui ficam algumas ideias para "Grandes Empresas" (que "lucros" há muitos: tantos quantos os "Serviços" prestados à Comunidade)... e, como inspiração, uma imagem que bem podia ser ilustrativa da nossa "Empresa dos Descobrimentos"...
(se a jovem Senhora em terra é uma triste viúva de vivos embarcados ou uma bela e divina deusa da Ilha dos Amores de cada um... a cada um caberá sonhá-la e vê-la nas "formas invisíveis da imprecisa distância", como dizia Pessoa...) 

sábado, 6 de novembro de 2010

Dia Internacional para a Prevenção da Exploração do Meio Ambiente em Tempos de Guerra e Conflito Armado/ Aniversário de Sophia de Mello Breyner A.

 "Convém tornar claro o coração do homem"
Sophia, "Ressurgiremos"


Segundo declarações da ONU, "desde que a guerra existe, o ambiente e os recursos naturais têm sido suas vítimas silenciosas. As colheitas são incendiadas, os poços de água poluídos, os solos envenenados e os animais mortos. Os objectivos têm variado: obter uma vantagem estratégica, desmoralizar as populações locais, vencer a resistência ou simplesmente alimentar os soldados. Mas, mesmo quando não são intencionais, as consequências são sempre catastróficas. Temos assistido a actos de destruição pura e simples, concretamente, a liberação de poluentes e de substâncias perigosas".
in http://blogdosdias.blogs.sapo.pt/1689.html

É sempre melhor ouvir a  Poetisa... nela há  um Silêncio (pre)claro e justo.
(Parabéns, querida Poetisa: Voz de tantos silêncios nossos.)

«Sempre a poesia foi para mim uma perseguição do real. Um poema foi sempre um círculo traçado à roda duma coisa, um círculo onde o pássaro do real fica preso. E se a minha poesia, tendo partido do ar, do mar e da luz, evoluiu, evoluiu sempre dessa busca atenta. Quem procura uma relação justa com a pedra, com a árvore, com o rio, é necessariamente levado, pelo espírito de verdade que o anima, a procurar uma relação justa com o homem. Aquele que vê o espantoso esplendor do mundo é logicamente levado a ver o espantoso sofrimento do mundo. Aquele que vê o fenómeno quer ver todo o fenómeno. É apenas uma questão de atenção, de sequência e de rigor."
in http://www.triplov.com/sophia/grades.html



ESTE É O TEMPO

Este é o tempo
Da selva mais obscura
Até o ar azul se tornou grades
E a luz do sol se tornou impura

Esta é a noite
Densa de chacais
Pesada de amargura
Este é o tempo em que os homens renunciam


DATA

Tempo de solidão e de incerteza
Tempo de medo e tempo de traição
Tempo de injustiça e de vileza
Tempo de negação

Tempo de covardia e tempo de ira
Tempo de mascarada e de mentira
Tempo que mata quem o denuncia
Tempo de escravidão.

Sophia, in Grades


domingo, 10 de outubro de 2010

Dia Mundial da Saúde Mental / Dia Europeu contra a Pena de Morte / Aniversário de Giuseppe Verdi

Há cerca de 2500 anos, na antiga Grécia, Sócrates, acusado de corromper a juventude, é condenado à pena de morte por envenenamento com cicuta: (cada sociedade, cada código penal...)... Consta que o filósofo do "conhece-te a ti mesmo" teria afirmado poder evitar a sua condenação, caso renunciasse à sua "vida justa" ou, após a condenação, ter recorrido à influência dos seus amigos na "pólis". Não quis.
Há cerca de 500 anos, na antiga Florença, Galileu Galilei, acusado de heresia (por defender que era o Sol a girar à volta da Terra e não o contrário), é condenado  pelo Tribunal do Santo Ofício à pena de morte, posteriormente comutada com o auxílio de amigos para a pena de "confinamento" ("preso em casa"). E é nessa condição que morre anos mais tarde.
Giuseppe Verdi faz hoje 197 anos. Aos 27 anos, perde a mulher e filhos,  fracassa a sua 2ª ópera e decide então abandonar a composição musical, o que acaba por não acontecer, já que um seu amigo, director do La Scalla, o convence a estudar a peça de teatro Nabucco, sobre a qual acaba por compor uma das suas mais afamadas e aclamadas óperas. A ária "Va, pensiero" parece fazer eco desse período de "luto" pessoal do grande compositor,  acabando por também dar voz, simbolicamente, ao sentimento de escravidão do povo italiano, à época reprimido por  franceses e austríacos, da mesma maneira que o povo Hebreu o fora por Nabucodonosor.E é ao "Pensamento"- amigo, confidente e último refúgio -  que todos se dirigem e só a ele confidenciam, numa toada nostálgica e melancolicamente digna as suas  memórias de tristeza e de saudade de todo um passado glorioso e feliz...
Bendito amigo que tratou da "saúde mental" de Verdi, benditos amigos que preservaram a "saúde mental" de Galileu nos últimos anos da sua vida e, pena foi, que ao grande filósofo do "Conhece-te a ti mesmo" não tenha sido possível dar idêntico final feliz: para seu próprio bem e bem de nós todos, em vias a uma sociedade mais justa, responsável e com mais saúde (com melhor conhecimento de si)...
(Frágil, frágil, a nossa saúde mental, que um ligeiro "pensiero" pode fragilizar ainda mais ou fortalecer para a eternidade. "Voa, pensamento: pousa, perfuma, cumprimenta, reacende , traduz...".
Pela saúde mental, contra a pena de morte, com Verdi e com todos os artistas que nos ensinam a esperar e transformar em beleza os nossos melhores anseios de futuro).

"Voa, pensamento

Voa, pensamento, com tuas asas douradas;
voa, pousa-te nas encostas e no topo das colinas,
onde perfumam mornas e macias
as brisas doces do solo natal!


Cumprimenta as margens do rio Jordão,
as torres derrubadas de Jerusalém...
Oh minha pátria tão bela e perdida!
Oh lembrança tão cara e fatal!


Harpa dourada dos grandes poetas,
porque agora estás muda?
Reacende as memórias no nosso peito,
fala-nos do bom tempo que foi!


Como Sólima fez com o destino
traduz em música o nosso sofrimento,
deixa-te inspirar pelo Senhor"

tradução da ária "Va, pensiero " da ópera Nabucco de Verdi, aqui


sábado, 9 de outubro de 2010

Dia Mundial da União Postal Universal (/da Carta)

Seguem 2 cartas de amor...
Que levem, a quem as ler, tão boas notícias como a mim me trouxeram...

NAMORO

Mandei-lhe uma carta em papel perfumado

e com letra bonita eu disse ela tinha
um sorrir luminoso tão quente e gaiato
como o sol de Novembro brincando de artista
nas acácias floridas espalhando diamantes
na fímbria do mar
e dando calor ao sumo das mangas
Sua pele macia era sumaúma
Sua pele macia, da cor do jambo,
cheirando a rosas sua pele macia
guardava as doçuras do corpo rijo
tão rijo e tão doce como o maboque
Seus seios, laranjas laranjas do Loje
seus dentes marfim
Mandei-lhe essa carta
e ela disse que não.
Mandei-lhe um cartão
que o amigo Maninho tipografou:
Por ti sofre o meu coração
Num canto SIM,
noutro canto NÃO
E ela o canto do NÃO dobrou

Mandei-lhe um recado pela Zefa do Sete
pedindo, rogando de joelhos no chão
pela Senhora do Cabo, pela Santa Ifigenia,
me desse a ventura do seu namoro
E ela disse que não.
Levei à Avo Chica, quimbanda de fama
à areia da marca que o seu pé deixou
para que fizesse um feitiço forte e seguro
que nela nascesse um amor como o meu
E o feitiço falhou.

Esperei-a de tarde, à porta da fabrica,
ofertei-lhe um colar e um anel e um broche,
paguei-lhe doces na calçada da Missão,
ficamos num banco do largo da Estátua,
afaguei-lhe as mãos
falei-lhe de amor
e ela disse que não.
Andei barbudo, sujo e descalço,
como um mona-ngamba.
Procuraram por mim
-Não viu(ai não viu? ) não viu Benjamim?

E perdido me deram no morro da Samba.
Para me distrair
levaram-me ao baile do Sô Januario
mas ela lá estava num canto a rir
contando o meu caso
às moças mais lindas do Bairro Operário.
Tocaram uma rumba dancei com ela
e num passo maluco voámos na sala
qual uma estrela riscando o céu!
E a malta gritou: Aí Benjamim !
Olhei-a nos olhos sorriu para mim
pedi-lhe um beijo e ela disse que sim.
Viriato Cruz (de Angola)
 

 
 "Carta de Direitos das Gerações Futuras" de Jacques Costeau, base do projeto de uma política oceânica global que o cientista encaminhou à Assembléia Geral das Nações Unidas. Os cinco artigos resumiram as preocupações e advertências e normas que devem ser respeitadas, com a cooperação de todas as nações do mundo, para preservar as condições naturais e de sobrevivência do ecossistema planetário com toda sua fauna e flora.


"Conscientes das determinações proclamadas pelos povos do mundo nas Nações Unidas, no sentido de reafirmar a fé na dignidade e no valor da pessoa humana, e para promover o progresso social e melhorar padrões de vida e maior liberdade;

Reconhecendo, entre estas, o propósito das Nações Unidas em ativar a cooperação internacional para resolver problemas mundiais e ser um centro para harmonizar a ação das nações na busca deste fim;

Reconhecendo que, para primeira vez na história, os direitos das futuras gerações exercitarem opções com respeito à continuidade da vida e ao enriquecimento de seu meio ambiente físico e mental são seriamente consdierados;

Acreditando que a preservação e promoção desses direitos têm ressonância na consciência de todas as pessoas e de todas as nações;

Convencidos que cada geração tem os direitos herdados para determinar seu próprio destino, e a correspondente responsabilidade de concordar com similares direitos para as futuras gerações, como uma extensão do direito à vida.
Solenemente proclamamos a necessidade de garantir o reconhecimento universal destes direitos e destas responsabilidades, e, com este fim,
DECLARAMOS QUE:

Artigo 1º - As futuras gerações têm direito a uma terra incontaminada e sem danos, e a uma participação na base da história humana, da cultura e das normas sociais que fazem de cada geração e de cada indivíduo, um membro da família humana.

Artigo 2º - Cada geração, no uso e na herança da Terra, é depositária da confiança das futuras gerações, e tem o dever de prevenir danos irreversíveis e irreparáveis para a vida na Terra e para a liberdade e dignidade humanas.


Artigo 3º - É, entretanto, da maior responsabilidade de cada geração, manter-se constantemente vigilante e prudente em relação aos distúrbios e modificações tecnológicas que afetem adversamente a vida na Terra, o equilíbrio das natureza e a evolução da humanidade, no sentido de proteger os direitos das futuras gerações.

Artigo 4º - Todas as medidas apropriadas, inclusive educação, pesquisa e legislação, devem ser tomadas para garantir estes direitos e assegurar que eles não serão sacrificados por expedientes e conveniências do momento.

Artigo 5º - Governos, organizações não governamentais e indivíduos são solicitados, assim, a promover imaginativamente estes princípios, como se estivessem realmente na presença destas futuras gerações, cujos direitos buscamos estabelecer e perpetuar".

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

Dia Internacional do Trabalho Digno (/decente)

 
"Só há liberdade a sério, quando houver a paz, o pão, habitação, saúde, educação...",  Sérgio Godinho
ou
"O Trabalho faz o Homem...", Michel Giacometti
ou
Calçada de Carriche

Luísa sobe,
sobe a calçada,
sobe e não pode
que vai cansada.
Sobe, Luísa,
Luísa, sobe,
sobe que sobe
sobe a calçada.

Saiu de casa
de madrugada;
regressa a casa
é já noite fechada.
Na mão grosseira,
de pele queimada,
leva a lancheira
desengonçada.
Anda, Luísa,
Luísa, sobe,
sobe que sobe,
sobe a calçada.
Luísa é nova,
desenxovalhada,
tem perna gorda,
bem torneada.
Ferve-lhe o sangue
de afogueada;
saltam-lhe os peitos
na caminhada.
Anda, Luísa.
Luísa, sobe,
sobe que sobe,
sobe a calçada.
Passam magalas,
rapaziada,
palpam-lhe as coxas,
não dá por nada.
Anda, Luísa,
Luísa, sobe,
sobe que sobe,
sobe a calçada.
Chegou a casa
não disse nada.
Pegou na filha,
deu-lhe a mamada;
bebeu da sopa
numa golada;
lavou a loiça,
varreu a escada;
deu jeito à casa
desarranjada;
coseu a roupa
já remendada;
despiu-se à pressa,
desinteressada;
caiu na cama
de uma assentada;
chegou o homem,
viu-a deitada;
serviu-se dela,
não deu por nada.
Anda, Luísa.
Luísa, sobe,
sobe que sobe,
sobe a calçada.
Na manhã débil,
sem alvorada,
salta da cama,
desembestada;
puxa da filha,
dá-lhe a mamada;
veste-se à pressa,
desengonçada;
anda, ciranda,
desaustinada;
range o soalho
a cada passada;
salta para a rua,
corre açodada,
galga o passeio,
desce a calçada,
desce a calçada,
chega à oficina
à hora marcada,
puxa que puxa,
larga que larga,
puxa que puxa,
larga que larga,
puxa que puxa,
larga que larga,
puxa que puxa,
larga que larga;
toca a sineta
na hora aprazada,
corre à cantina,
volta à toada,
puxa que puxa,
larga que larga,
puxa que puxa,
larga que larga,
puxa que puxa,
larga que larga.
Regressa a casa
é já noite fechada.
Luísa arqueja
pela calçada.
Anda, Luísa,
Luísa, sobe,
sobe que sobe,
sobe a calçada,
sobe que sobe,
sobe a calçada,
sobe que sobe,
sobe a calçada.
Anda, Luísa,
Luísa, sobe,
sobe que sobe,
sobe a calçada.

António Gedeão, in Teatro do Mundo
ou
...

terça-feira, 5 de outubro de 2010

Dia do Professor

O meu professor de Português era o Padre António Vieira dos sermões da Semana Santa na Beira Baixa... Foi ele que me explicou que aquilo de "fazer chorar as mulheres e levar os homens às lágrimas" fazia parte de uma disciplina chamada Retórica, que também vivia da capacidade de representação dramática do orador: teatro, portanto... e um alívio para mim que, tremendo, contava os meus dias de miúda na católica quaresma, para que o "Sermão do Encontro" e o da "Descida da Cruz" passassem rápido e com o mínimo de sofrimento possível! (Ainda hoje não entendo bem aquela coisa da "catarse" da tragédia clássica: faz bem, porquê? Descarga de adrenalina e fica tudo mais calmo... Ainda bem que é com os outros e não comigo?... Ná!... que eu saiba, comigo não funciona ou funciona mal: cuidado, cuidado, cuidado, medo, medo, medo, às vezes terror)...
A verdade é que desde aquela aula ("hoje é que vos vou explicar como é que eu faço chorar as mulheres nos Sermões da Semana Santa") em que o Padre Fatela nos levou às lágrimas de tanta gargalhada ao parodiar os seus próprios sermões, as suas técnicas de retórica ("eu começo sempre assim: Desde os mais altos picos das montanhas dos Himalaias e o seu cume do Evereste até às abissais profundezas da Fossa do Mindanau..."), os seus conhecimentos de Psicologia Colectiva ("e eu já não dizia nada... choravam homens, choravam mulheres, choravam crianças e eu só gritava em desespero para onde se não ouvia ainda o choro da tragédia de Cristo Nosso Senhor: AAAAAAArrrrrrgggghhhhhh!... e todos choravam...."), foi desde essa aula, dizia eu, que percebi  que o meu Professor - orador era um sábio, um cientista da língua, um arquitecto de linguagens, um feroz Mestre e um Homem gentil, sensível e com grande sentido e saber de Humor (1).
Recordo-o com muita ternura e reconhecimento por tudo o que ele (consciente ou inconscientemente) fez por mim. Talvez ser professor seja só um acto de amor.

"Olha, minha filha, um dia hás-de ser escritora!", sonhou-me ele.
E acabei em professora de Português.
Como ele.
(BEM haja, professor querido. Hoje, também é o seu dia, sim?...)

Ilustração:(a partir da animação italiana do conto de Luís Sepúlveda, História de uma gaivota e do Gato que a ensinou a Voar)


(1) O meu primeiro professor de Inglês, então muito jovem,  e colega do Padre Fatela contou-me uma anedota que este lhe contou numa reunião-festa de  professores, a propósito dos "Cigarros Kart... dão kilómetros de prazer!" /(...)/ Palavra puxa palavra, cigarro puxa cigarro e, a páginas tantas, o padre volta-se para mim e pergunta: "Sabe porque é que o Kart é o cigarro dos padres?!" Francamente lhe respondi que ignorava a razão do fato, e aguardei a explicação! Chegando-se mais a mim, segredou-me ao ouvido: "É porque é o cigarro que dá kilómetros de prazer aos que não podem ter o prazer dos centímetros!..."