(Para uma biografia de Michel Giacometti)
Ao ritmo do coração
Nasceu em Ajaccio (Córsega), tal como Napoleão,
mas em vez de ser soldado, quis servir o coração:
não conquistou , foi conquistado;
não se serviu, serviu... e foi servido.
Como no mito ou no conto “A Aia” de Eça de Queirós,
foi-lhe a infância atribulada:
Em Oran, na Argélia atribulada do já extinto império francês,
onde o seu tio servia e o criava também,
é raptado por uma tribo: tinha três anos de idade.
Herratin, velha criada,
negra que o trouxera ao colo,
salva o pequeno Michel
desse destino funesto...
Fadado está para o sucesso a crer no que o mito conta:
ele é Moisés pequenino a ser salvo pela “ama”;
ele é o pequeno rei do conto do nosso Eça,
salvo pela velha escrava que o amava, que o amava...
Como em todas as infâncias de todos estes heróis,
cai o pano do silêncio sobre os anos em que cresce:
provavelmente cresceu em um dia tanto, tanto,
que a sua infância cresceu já ao ritmo dos mais velhos...
É o que nos conta o mito e é assim que deve ser!...
Dizem as fontes (bem poucas), que fui encontrando aos poucos
que, já com vinte e três anos, se sonhava em rebeldia.
Em rebeldia sonhava, porque a justiça era pouca...
É que, lutando pelos Árabes, que em Argel não eram gente,
foi pela França afastado, pelo prazo de cinco anos
do seu trabalho de então: estudar na Universidade.
Longe da França e do império
(e da rebeldia jovem que lhe é fome de justiça),
corre mundo e outras Escolas: universidades são 9
e porque tem de comer, de profissões teve 30... ou mais,
dizem as fontes, as poucas que encontrei.
Finda a pena (o exílio, digo eu...),
com nova sabedoria e outros modos de vida
regressa à velhinha França.
Vai para a Sorbonne e termina
aí o doutoramento em Letras e Etnologia.
E porque respeita os homens e é por eles respeitado,
é que ele se fez um Homem!
Entra então no “Quadro de Honra” do velho sonho académico:
“O vento só sopra a favor de quem sabe para onde ir”.
Ele sabia e foi. Foi às ilhas mediterrânicas
e por lá as estudou, com outros comparsas seus.
Da missão internacional regressou então, depois.
A vida continuou.
Eis senão quando, um dia, nos idos de 58,
no “Museu do Homem” vê,
numa velha prateleira um distinto alfarrábio
de um outro comparsa seu: Kurt Schindler era o seu nome
e também se apaixonara pelo que a alma portuguesa
ainda aqui conservava:
“Folk Music and Poetry of Spain and Portugal”,
assim se chamava o livro.
Casado já com a senhora
portuguesa, que o amava,
vem então a Portugal...
Foram só três meses breves os que aqui se conservou,
sem ir desvendar a terra longínqua de Trás-os-Montes...
Por lá ficou, e com ele, o amor a esta terra
que aqui o conservou
por pouco mais de 30 anos
(metade da sua vida e + 1...ano).
Fez de tudo, sonhou tudo e tudo o que ia encontrando
ia anotando, gravando, registando por escrito
e no ouvido também:
danças de roda, rodas de carros
de bois, pois então,
e cantos profanos, sagrados,
velhinhos romances também;
histórias de fadas, amores,
desamores de gente comum,
dos filhos do povo que o amam assim,
porque ele é singelo e pobre outro tanto...
Não pobre do auxílio que o povo lhe canta,
mas pobre do “money” que o estado não tem
para dar aos que o servem mui bem, muito bem.
Encantou-se, claro está...
Deixa-o estar... ‘tá-se bem!
Empunhando o gravador, faz da luta o seu labor:
“tripalium” era o dinheiro que não tinha e não vinha nem mesmo pela Gulbenkian,
que este velhinho país estava à beira de uma crise,
que era mesmo doença: de doença se caía, decaía, corrompia
e tanto se co-rompeu que, em 25 de Abril,
“foi tudo para o galheiro”!
Fica feliz o artista com os cravos que despontam?
Meu Deus!.. Da aura de exílio sufocada na garganta,
regressam homens aos montes...:
“Pergunto ao vento que passa
notícias do meu país”. E o vento falou a graça
de os trazer para aqui.
Eram homens sonhadores e
abandonadas as dores que os corromperam aqui,
todos à uma sonharam a alma deste país... Cada um com o seu canto,
todos, todos, cá ficaram.
Entretanto,
e porque a vida é feliz pelo simples facto de o ser,
encontra Giacometti aqui
o Lopes Graça com quem
acaba por recolher e dar a lume também
a grande “Antologia
da Música Regional Portuguesa”.
Mui saudada pela crítica no país e fora dele,~
só mesmo em 99 será ela reeditada.
Pela rádio difundindo a música tradicional,
Giacometti não se cala: era então já Portugal
o seu velho país natal.
Não se ficou por aqui:
com a TV a acenar e só a RTP no ar,
documenta o que o encanta: ele é
“O Povo que Canta: Vozes e Imagens” também,
tudo aliás bem registado nos seus “Arquivos Sonoros”
e no rol de fotos, fotos ,
com que a todos documenta: é o homem do trabalho
que o espanta e o encanta.
É ele povo também?
É que ninguém cala a garganta
do velho povo, velhinho que canta, dança e recita,
aprende e ensina também. São sempre lições de vida
que lhes saem pela garganta...
Com o 25 de Abril, vem então o seu projecto:
é mestre já e organiza o plano “Trabalho e Cultura”:
são 31 as equipas,
124 os estudantes, e durante esses 3 meses
que durou a intervenção dos estudantes entre o povo,
muito terão aprendido...
e porque eu não estive lá
e só sei que eram novatos, candidatos à Universidade
e que dinheiro não auferiam,
tenho eu cá para mim que “O Clube dos Poetas Mortos” foi primeiro vivido ali
do que o foi em Hollywood...
PEDAGOGO, sim senhor, foi o que ele foi ali,
que o fruto do seu trabalho foi tanto e de tal monta
que ainda há hoje por aí muito acervo por estudar e espólio por repartir.
Só que eu saiba há 3 museus,
onde já se recolheu uma parte desse espólio:
em Setúbal, o do Trabalho;
em Cascais, o da Música Regional Portuguesa, claro está,
e em Belém, o central,
o velho Museu estatal de Etnografia, também.
Pouco mais há para dizer do trabalho que aqui fez;
trabalhou até ao fim da sua vida de mestre (e de aluno deste povo,
cuja alma o encantou): em 81, publicou o Cancioneiro Popular,
em 87, regeu “O Trabalho faz o Homem” – mostra de uma colecção
de materiais do trabalho
e em 90 morreu
(trabalhava, nessa altura, numa nova colecção
do velho “cante” alentejano).
Em Peroguarda ficou, remota aldeia de Beja,
onde por fim enquadrou o desejo expresso em vida:
“Quando morrer, quero ser enterrado no meio do povo português que tanto amei.”
E porque falou de Amor, falando deste país,
este país se alegrou:
foi no dia 10 de Junho do ano de 2002, que o Estado-Nação português
finalmente o condecorou com a Comenda do Infante.
Fiquei contente e feliz porque, como cidadão
sofreu como um Português a falta de apoio cívico
de que todos nos queixamos: temos ideias, florimos;
falta o dinheiro, murchamos.
Murchou ele?
Só com a falta de dinheiro:
vendeu ao Estado-Nação aquilo que em Portugal
de há muito longe se ouvia: foram os “Arquivos Sonoros”
que ele próprio fundara, depois foram os instrumentos
musicais que adquirira e, por fim, a biblioteca
pessoal, que enriquecera a sua forma de estar.
Ficou só com o usufruto e desse dinheiro viveu,
sempre, sempre, a trabalhar.
Trabalhou até ao fim; por isso, tem
o “Museu do Trabalho”, com o seu nome...
Sonhou, viveu e morreu com as cordas da garganta
sempre afinadas pela Terra:
Em Cascais, tem o seu nome
junto à música consagrado
e é como homem de cultura que em Portugal conviveu, reflectiu e foi feliz
que à Nação fica ligado.
L. A. (escrito ao ritmo do coração, no final de 2002)
Aqui fica também a que é, até ao momento, a minha recolha preferida daquelas que lhe conheço: os bombos de Lavacolhos, que me acordaram em algumas manhãs festivas e me continuam a acordar ritmica e sonoramente para a Terra...

2 comentários:
Excelente homenagem a Michel Giacometti...
Beijinhos Luísa...
gostei muito do texto em verso! Parabéns! E dos bombos nem se fala!Lembro-me bem das imagens de Giacometti, de gravador em punho...
Bjs e continua!
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