sábado, 8 de janeiro de 2011

Aniversário de Michel Giacometti


(Para uma biografia de Michel Giacometti)
Ao ritmo do coração


Nasceu em Ajaccio (Córsega), tal como Napoleão,
mas em vez de ser soldado, quis servir o coração:
não conquistou , foi conquistado;
não se serviu, serviu... e foi servido.

Como no mito ou no conto “A Aia” de Eça de Queirós,
 foi-lhe a infância atribulada:

Em Oran, na Argélia atribulada do já extinto império francês,
onde o seu tio servia e o criava também,
é raptado por uma tribo: tinha três anos de idade.
Herratin, velha criada,
negra que o trouxera ao colo,
salva o pequeno Michel
desse destino funesto...

Fadado está para o sucesso a crer no que o mito conta:
ele é Moisés pequenino a ser salvo pela “ama”;
ele é o pequeno rei do conto do nosso Eça,
salvo pela velha escrava que o amava, que o amava...

Como em todas as infâncias de todos estes heróis,
cai o pano do silêncio sobre os anos em que cresce:
provavelmente cresceu em um dia tanto, tanto,
que a sua infância cresceu já ao ritmo dos mais velhos...
É o que nos conta o mito e é assim que deve ser!...

Dizem as fontes (bem poucas), que fui encontrando aos poucos
que, já com vinte e três anos, se sonhava em rebeldia.
Em rebeldia sonhava, porque a justiça era pouca...
É que, lutando pelos Árabes, que em Argel não eram gente,
foi pela França afastado, pelo prazo de cinco anos
do seu trabalho de então: estudar na Universidade.

Longe da França e do império
(e da rebeldia jovem que lhe é fome de justiça),
corre mundo e outras Escolas: universidades são 9
e porque tem de comer, de profissões teve 30... ou mais,
dizem as fontes, as poucas que encontrei.

Finda a pena (o exílio, digo eu...),
com nova sabedoria e outros modos de vida
regressa à velhinha França.
Vai para a Sorbonne e termina
 aí o doutoramento em Letras e Etnologia.
E porque respeita os homens e é por eles respeitado,
é que ele se fez um Homem!

Entra então no “Quadro de Honra” do velho sonho académico:
“O vento só sopra a favor de quem sabe para onde ir”.
Ele sabia e foi. Foi às ilhas mediterrânicas
e por lá as estudou, com outros comparsas seus.
Da missão internacional regressou então, depois.

A vida continuou.

Eis senão quando, um dia, nos idos de 58,
no “Museu do Homem” vê,
numa velha prateleira um distinto alfarrábio
de um outro comparsa seu: Kurt Schindler era o seu nome
e também se apaixonara pelo que a alma portuguesa
ainda aqui conservava:
Folk Music and Poetry of Spain and Portugal”,
assim se chamava o livro.

Casado já com a senhora
portuguesa, que o amava,
vem então a Portugal...
Foram só três meses breves os que aqui se conservou,
sem ir desvendar a terra longínqua de Trás-os-Montes...
Por lá ficou, e com ele, o amor a esta terra
que aqui o conservou
por pouco mais de 30 anos
(metade da sua vida e + 1...ano).

Fez de tudo, sonhou tudo e tudo o que ia encontrando
ia anotando, gravando, registando por escrito
e no ouvido também:
danças de roda, rodas de carros
de bois, pois então,
e cantos profanos, sagrados,
velhinhos romances também;
histórias de fadas, amores,
desamores de gente comum,
dos filhos do povo que o amam assim,
porque ele é singelo e pobre outro tanto...
Não pobre do auxílio que o povo lhe canta,
mas pobre do “money” que o estado não tem
para dar aos que o servem mui bem, muito bem.
Encantou-se, claro está...
Deixa-o estar... ‘tá-se bem!

Empunhando o gravador, faz da luta o seu labor:
“tripalium” era o dinheiro que não tinha e não vinha nem mesmo pela Gulbenkian,
que este velhinho país estava à beira de uma crise,
que era mesmo doença: de doença se caía, decaía, corrompia
e tanto se co-rompeu que, em 25 de Abril,
“foi tudo para o galheiro”!

Fica feliz o artista com os cravos que despontam?

Meu Deus!.. Da aura de exílio sufocada na garganta,
regressam homens aos montes...:

“Pergunto ao vento que passa
 notícias do meu país”. E o vento falou a graça
de os trazer para aqui.

Eram homens sonhadores e
abandonadas as dores que os corromperam aqui,
todos à uma sonharam a alma deste país... Cada um com o seu canto,
todos, todos, cá ficaram.

Entretanto,
e porque a vida é feliz pelo simples facto de o ser,
encontra Giacometti aqui
o Lopes Graça com quem
acaba por recolher e dar a lume também
a grande “Antologia 
da Música Regional Portuguesa”.
Mui saudada pela crítica no país e fora dele,~
só mesmo em 99 será ela reeditada.
Pela rádio difundindo a música tradicional,
Giacometti não se cala: era então já Portugal
o seu velho país natal.

Não se ficou por aqui:
com a TV a acenar e só a RTP no ar,
documenta o que o encanta: ele é
“O Povo que Canta: Vozes e Imagens” também,
tudo aliás bem registado  nos seus “Arquivos Sonoros
e no rol de fotos, fotos ,
com que a todos documenta: é o homem do trabalho
que o espanta e o encanta.

É ele povo também?

É que ninguém cala a garganta
do velho povo, velhinho que canta, dança e recita,
aprende e ensina também. São sempre lições de vida
que lhes saem pela garganta...

Com o 25 de Abril, vem então o seu projecto:
é mestre já e organiza o plano “Trabalho e Cultura”:
são 31 as equipas,
124 os estudantes, e durante esses 3 meses
que durou a intervenção dos estudantes entre o povo,
muito terão aprendido...
e porque eu não estive lá
e só sei que eram novatos, candidatos à Universidade
e que dinheiro não auferiam,
tenho eu cá para mim que “O Clube dos Poetas Mortos” foi primeiro vivido ali
do que o foi em Hollywood...

PEDAGOGO, sim senhor, foi o que ele foi ali,
que o fruto do seu trabalho foi tanto e de tal monta
que ainda há hoje por aí muito acervo por estudar e espólio por repartir.
Só que eu saiba há 3 museus,
onde já se recolheu uma parte desse espólio:
em Setúbal, o do Trabalho;
em Cascais, o da Música Regional Portuguesa, claro está,
e em Belém, o central,
o velho Museu estatal de Etnografia, também.

Pouco mais há para dizer do trabalho que aqui fez;
trabalhou até ao fim da sua vida de mestre (e de aluno deste povo,
cuja alma o encantou): em 81, publicou o Cancioneiro Popular,
em 87, regeu “O Trabalho faz o Homem” – mostra de uma colecção
de materiais do trabalho
e em 90 morreu
(trabalhava, nessa altura, numa nova colecção
do velho “cante” alentejano).
Em Peroguarda ficou, remota aldeia de Beja,
onde por fim enquadrou o desejo expresso em vida:

“Quando morrer, quero ser enterrado no meio do povo português que tanto amei.”

E porque falou de Amor, falando deste país,
este país se alegrou:
foi no dia 10 de Junho do ano de 2002, que o Estado-Nação português
finalmente o condecorou com a Comenda do Infante.
Fiquei contente e feliz porque, como cidadão
sofreu como um Português a falta de apoio cívico
de que todos nos queixamos: temos ideias, florimos;
falta o dinheiro, murchamos.

Murchou ele?

Só com a falta de dinheiro:
vendeu ao Estado-Nação aquilo que em Portugal
de há muito longe se ouvia: foram os “Arquivos Sonoros”
que ele próprio fundara, depois foram os instrumentos
musicais que adquirira e, por fim, a biblioteca
pessoal, que enriquecera a sua forma de estar.
Ficou só com o usufruto e desse dinheiro viveu,
sempre, sempre, a trabalhar.
Trabalhou até ao fim; por isso, tem
o “Museu do Trabalho”, com o seu nome...
Sonhou, viveu e morreu com as cordas da garganta
sempre afinadas pela Terra:
Em Cascais, tem o seu nome
junto à música consagrado
e é como homem de cultura que em Portugal conviveu, reflectiu e foi feliz
que à Nação fica ligado.

L. A. (escrito ao ritmo do coração, no final de 2002)

Aqui fica também a que é, até ao momento, a minha recolha preferida daquelas que lhe conheço: os bombos de Lavacolhos, que me acordaram em algumas manhãs festivas e me continuam a acordar ritmica e sonoramente para a Terra...

2 comentários:

prohensa disse...

Excelente homenagem a Michel Giacometti...
Beijinhos Luísa...

shanti disse...

gostei muito do texto em verso! Parabéns! E dos bombos nem se fala!Lembro-me bem das imagens de Giacometti, de gravador em punho...
Bjs e continua!