Sempre me desgostou que tenha havido necessidade de criar um dia dedicado à Mulher, pelas razões que o foi... Mas enfim, também não gosto de quotas e "que las hay, las hay"...com o tempo, a gente habitua-se e vai-lhe transmutando o significado... É um dia de homenagem, não é? E a verdade é que sempre as houve e belíssimas. Para hoje, escolhemos o José Luís Peixoto e o Noronha da Costa... e faço tudo para caber nestas homenagens...
A Mulher Mais Bonita do Mundo
estás tão bonita hoje. quando digo que nasceram
flores novas na terra do jardim, quero dizer
que estás bonita.
entro na casa, entro no quarto, abro o armário,
abro uma gaveta, abro uma caixa onde está o teu fio
de ouro.
entre os dedos, seguro o teu fino fio de ouro, como
se tocasse a pele do teu pescoço.
há o céu, a casa, o quarto, e tu estás dentro de mim.
estás tão bonita hoje.
os teus cabelos, a testa, os olhos, o nariz, os lábios.
estás dentro de algo que está dentro de todas as
coisas, a minha voz nomeia-te para descrever
a beleza.
os teus cabelos, a testa, os olhos, o nariz, os lábios.
de encontro ao silêncio, dentro do mundo,
estás tão bonita é aquilo que quero dizer.
José Luís Peixoto, in "A Casa, a Escuridão"
Ao invés da corrente, eu aprecio a fluidez do verso de João de Deus e a sua terna e ligeira forma de expressão. Não me admira que tenha feito a "Cartilha Maternal" e agrada-me pensar que olharia o universo com um sorriso de espanto por cada manhã. Ainda é assim que eu o leio (e faz-me lembrar a "Barca Bela" de Garrett, que eu adoro)... Às vezes, dá a sensação de um verso de raiz ancestral, popular e/ou popularizado, ao longo da nossa história cultural: como se a água de que vivemos rodeados emprestasse o seu ritmo a uma forma lírica de nos dizer Portugal...
A Mulher Mais Bonita do Mundo
estás tão bonita hoje. quando digo que nasceram
flores novas na terra do jardim, quero dizer
que estás bonita.
entro na casa, entro no quarto, abro o armário,
abro uma gaveta, abro uma caixa onde está o teu fio
de ouro.
entre os dedos, seguro o teu fino fio de ouro, como
se tocasse a pele do teu pescoço.
há o céu, a casa, o quarto, e tu estás dentro de mim.
estás tão bonita hoje.
os teus cabelos, a testa, os olhos, o nariz, os lábios.
estás dentro de algo que está dentro de todas as
coisas, a minha voz nomeia-te para descrever
a beleza.
os teus cabelos, a testa, os olhos, o nariz, os lábios.
de encontro ao silêncio, dentro do mundo,
estás tão bonita é aquilo que quero dizer.
José Luís Peixoto, in "A Casa, a Escuridão"
Ao invés da corrente, eu aprecio a fluidez do verso de João de Deus e a sua terna e ligeira forma de expressão. Não me admira que tenha feito a "Cartilha Maternal" e agrada-me pensar que olharia o universo com um sorriso de espanto por cada manhã. Ainda é assim que eu o leio (e faz-me lembrar a "Barca Bela" de Garrett, que eu adoro)... Às vezes, dá a sensação de um verso de raiz ancestral, popular e/ou popularizado, ao longo da nossa história cultural: como se a água de que vivemos rodeados emprestasse o seu ritmo a uma forma lírica de nos dizer Portugal...
A Vida
A vida é o dia de hoje,
A vida é ai que mal soa,
A vida é sombra que foge,
A vida é nuvem que voa;
A vida é sonho tão leve
Que se desfaz como a neve
E como o fumo se esvai:
A vida dura um momento,
Mais leve que o pensamento,
A vida leva-a o vento,
A vida é folha que cai!
A vida é flor na corrente,
A vida é sopro suave,
A vida é estrela cadente,
Voa mais leve que a ave:
Nuvem que o vento nos ares,
Onda que o vento nos mares,
Uma após outra lançou,
A vida - pena caída
Da asa da ave ferida
De vale em vale impelida
A vida o vento levou!
João de Deus, Campo de Flores
Quem pode impedir a Primavera
Se as árvores se vão cobrir de flores
E o homem se sentiu sorrir à Vida?
Quem pode impedir a surda guerra
Que vai nos campos deslocando as pedras
- Mudas comparsas no ritmo das estações -
E da terra inerte ergueu milhares de lanças
Que a tremer avançam, cintilantes, para o limite
Em que a luz aquosa se derrama
Como um mar infinito onde o arado
Abre caminho misterioso à seiva inquieta!
Quem pode impedir a Primavera
Se estamos em Maio e uma ternuraNos faz abrir a porta aos viandantes
E o amor se abriga em cada um dos nossos gestos.Se os sonhos maus do Inverno dão lugar à Primavera!
Ruy Cinatti



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