terça-feira, 29 de dezembro de 2009

Dia Internacional da Diversidade Biológica

... Estou com muitas saudades dos pinheiros que vão desaparecendo e sinto-me um Ideiafix com vontade de ladrar a quem mos anda a derrubar (nemátodo, nemátodo... mas vão lá aparecendo urbanizações, c'um raio!)... Nasci e cresci ao pé deles, conheço-lhes a respiração e a minha quando eles estão por perto (dizem que sou pinheiro, as gentes dos horóscopos celtas e eu gosto ay flores ay flores do verde pino, ay Deos e hu é?)...
Como entretanto descobri mais um pássaro do bel'canto, com uma cauda de gala em forma de lira: o "oiseau lyre" ( é uma vergonha mas continuo a não saber o nome em português, sempre em recordações do belíssimo "oiseau-lyre" de Jacques Prévert), decidi deixá-lo aqui para regalo dos nossos ouvidos, já que nos sabe contar muito bem as belas histórias da diversidade biológica que o encantam e que ele reproduz com uma grande "performance" artística...

sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

Dia Internacional das Migrações

É condição do "herói" partir. Partir para se encontrar e encontrar as condições de vida que lhe permitem aceder a "ser" (humano). Partir por si e/ou pela Humanidade é o mesmo. Por cada homem feliz (o "herói") há uma parcela de Humanidade que... . É por isso que gosto de "olhar... a memória... de passarem aves", num feliz encontro de Jorge de Sena com as palavras de Sá de Miranda, para quem "caem co'a calma as aves"...

Aqui ficam, pois, Jorge de Sena e Manuel Freire, dois dos que continuam a traçar o rumo das "migrações" que vejo passar ano após ano, rumo a um mapa de encontros e de sonhos... ...DE PASSAREM AVES
À memória de Sá de Miranda

Das aves passam as sombras,
um momento, no chão, perto de mim.
No tardo Verão que as trouxe e as demora,
por que beirais não sei
onde se abrigam piando
como ao passar chilreiam.


Um momento só. Rápidas voam!
E a vida em que regressam de outras terras
não é tão rápida: fiquei olhando
as sombras não, mas a memória delas,
das sombras não, mas de passarem aves.

Jorge de Sena, Pedra Filosofal



Ei-los que partem

Ei-los que partem
novos e velhos
buscando a sorte
noutras paragens
noutras aragens
entre outros povos
ei-los que partem
velhos e novos


Ei-los que partem
de olhos molhados
coração triste
e a saca às costas
esperança em riste
sonhos dourados
ei-los que partem
de olhos molhados


Virão um dia
ricos ou não
contando histórias
de lá de longe
onde o suor
se fez em pão
virão um dia
ou não

Manuel Freire

quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

Dia Internacional contra a Corrupção

Creio que foi Einstein quem afirmou que "um corrupto é um homem que deixou de trabalhar". Agrada-me esta definição pela simplicidade e também pelo valor humano que aqui é oferecido ao "trabalho": não só valor social, mas individual; não só serviço social, mas serviço a si mesmo; não só em termos materiais, mas também espirituais; não só no plano físico, mas também psicológico ou anímico; o trabalho como valor do humano e da (e em prol da)humanidade. Neste sentido se dirá também que antes de ser corrupto ou se deixar corromper (já que "tão ladrão é o que rouba a fruta como o que fica ao portão"), o homem se atraiçoou a si próprio, começando a construir uma torre de desafios, já sobejamente condenada pela sabedoria do tempo. Babel é-lhes um templo sempre adiado de futuro: porque não tem linguagem que a possa erguer à medida dos sonhos da Humanidade.
Com a sabedoria dos "Clássicos" fica-se bem, por estes temas: corrupção pode ser e é também tirania, violência, injustiça, cobiça, traição, mentira, dinheiro, morte (mas mais vale ouvir Sophia de Mello Breyner e Luís de Camões a falar sobre este tema e ler os 2 cartoons que aqui vos deixo e ganharam prémios no ano passado...)
«Ganharás o pão com o suor do teu rosto»
Assim nos foi imposto
E não:
«Com o suor dos outros ganharás o pão»

Sophia, As pessoas sensíveis

Nunca choraremos bastante quando vemos
O gesto criador ser impedido
Nunca choraremos bastante quando vemos
Que quem ousa lutar é destruido
Por troças, por insídias, por venenos
E por outras maneiras que sabemos
Tão sábias tão subtis e tão peritas
Que nem podem sequer ser bem descritas

Sophia, Pranto pelo dia de hoje


96
(...)
Veja agora o juízo curioso
Quanto no rico, assi como no pobre,
Pode o vil interesse e sede imiga
do dinheiro, que a tudo nos obriga.

98
Este rende munidas fortalezas;
Faz tredores e falsos os amigos;
Este a mais nobres faz fazer vilezas,
E entrega Capitães aos inimigos
;
Este corrompe virginais purezas,
Sem temer de honra ou fama alguns perigos
;
Este deprava às vezes as ciências,
Os juízos cegando e as consciências
.

99
Este interpreta mais que sutilmente
Os textos; este faz e desfaz leis
;
Este causa os perjúrios entre a gente
E mil vezes tiranos torna os Reis
.
Até os que só a Deus omnipotente
Se dedicam, mil vezes ouvireis
Que corrompe este encantador, e ilude;
Mas não sem cor, contudo, de virtude
!
Camões, Os Lusíadas, canto VIII

terça-feira, 8 de dezembro de 2009

Dia da Imaculada Conceição, Padroeira de Portugal

Faz hoje 47 (ou 48) anos que recitei o meu primeiro poema no "dia da mãe", que o era dantes, nesta data. Difícil, o soneto de Antero de Quental que me coube em sorte, tinha eu 5 anos, mas que me fez pensar que "quando eu for grande, vou perceber tudo, que isto é um poema para a minha mãe" e parece que também para Nossa senhora, que é a mãe do Menino Jesus (com este sim, eu tinha uma grande empatia: era rechonchudinho e sorridente no presépio, traquinas e alegre como criança... um reguila feliz, afinal, e muito, muito bom... era ele que me servia também de modelo e era ele que falava por mim à Mãe, se possível, que eu às vezes não era flor que se cheirasse...). A vida foi correndo e por entre os segundos do feriado religioso de hoje, dia da Padroeira de Portugal, relembrei uma comovente e sereníssima imagem de Nossa Senhora da Conceição, no Convento de S. Gonçalo em Angra de Heroísmo e o meu primeiro soneto "à Mãe", dito em público: aqui ficam ambas as recordações (a foto e o a versão fac-similada pela Biblioteca nacional do soneto de Antero). À VIRGEM SANTÍSSIMA

(Cheia de Graça, Mãe de Misericórdia)

Num sonho todo feito de incerteza,
De noturna e indizível ansiedade
É que eu vi teu olhar de piedade
E (mais que piedade) de tristeza...

Não era o vulgar brilho da beleza,
Nem o ardor banal da mocidade...
Era outra luz, era outra suavidade,
Que até nem sei se as há na natureza...

Um místico sofrer... uma ventura
Feita só do perdão, só ternura
E da paz da nossa hora derradeira...

Ó visão, visão triste e piedosa!
Fita-me assim calada, assim chorosa...
E deixa-me sonhar a vida inteira!
Antero de Quental, Sonetos