quinta-feira, 2 de abril de 2009

Dia Internacional do Livro Infantil

Temos excelente literatura para a infância. Com a linguagem própria da verdade, que é também a da poesia e a das crianças quando começam a verbalizar o mundo que as rodeia. Relembro as antologias de Antero de Quental, de Sophia de Mello Breyner... o cancioneiro pessoano e, dos nossos muitos autores, aqui fica o texto final de "O Livro das Sete Cores" (que adoro!...) de dois dos nossos melhores: António Torrado e Maria Alberta Menéres:

Hino do arco-íris

Sete cores, setenta e sete
voltas do nosso girar,
mais de sete mil e sete
voltas havemos de dar.

Sete cores, setenta mil,
não há cor que tenha par,
poisamos em cada coisa
o tom que lhe queremos dar.

Sete cores, setenta e sete
voltas do nosso girar,
quem nos quiser conhecer
tem que ver mais do que olhar.

Sete cores, setenta mil,
setecentas mil talvez
maneiras de ser subtil.
Cada cor, era uma vez...

Maria Alberta Méneres e António Torrado

... para que a criança que nós somos se continue a alimentar da verdade das crianças e da arte que é a sua forma afectiva de expressão privilegiada.

quarta-feira, 1 de abril de 2009

Dia das Mentiras

O "dia das mentiras" sempre foi, para mim, como o Carnaval: não aprecio. Talvez porque ninguém me mentiu com a intenção de me fazer rir, afugentar o medo, ou seja, para me fazer feliz. Minto: a minha mãe (teria eu 4 ou 5 anos), para me evitar o sofrimento de ter "perdido" a minha gata, mentiu ("desapareceu! Um dia destes volta!..."), acabando um ano ou dois depois, por inadvertidamente me revelar a verdade, frente a um canteiro de "rapazinhos" ("coitada da Carochinha!..."). O problema é que fiquei demasiado infeliz e revoltada, apesar de todo o amor que a minha mãe me dera com a sua "mentira pontual"...
Ainda assim, e em nome da "verdade", pode causar-se um pior sofrimento: descontextualizar afirmações, relembrar amiúde episódios de sofrimento... e por aí fora. Talvez por isso tenha havido necessidade de inventar a "mentira piedosa" (que até pode ser o silêncio), como se a palavra "Verdade" pertencesse ao mundo feliz e organizado da mente e dos afectos, ou mesmo da alma... E como conceito, é assim que a entendo. Não gosto por isso do "dia das mentiras". Até que alguém me dê a mentira como forma de dizer a "verdade" (ex: uma boa "anedota", sobretudo se vier construída em jogos de palavras...).


Será que a diferença entre a Verdade e a Mentira está sobretudo (e só) na intenção do que se diz?


"Mais vale o erro em que se crê do que a realidade em que não se crê; pois não é o erro, e sim a mentira, o que mata a alma."

Miguel de Unamuno, Ensaios

quinta-feira, 26 de março de 2009

Dia do Livro Português / Dia Nacional do Utente de Saúde

O primeiro livro que me lembro de ter lido era de pano, já muito, muito velho, acastanhado pelo tempo e pelas muitas vezes que deve ter sido manuseado. Estava lá por casa, no meio de coisas velhas e, ainda assim, contava a história dOs Três Porquinhos... Não faço ideia onde parará, mas adoraria reavê-lo... A verdade é que, na altura, ainda não sabia ler (juntar as letras), mas "lia" a sequência de imagens e, no final, ficava com a história... Oxalá as nossas editoras se lembrem de publicar mais os nossos escritores e os nossos ilustradores e/ou de os reeditar, bem como aos materiais de suporte em que gerações de portugueses foram educados. Para alegria de todos os que amam a língua e cultura portuguesas.




E já que é "dia do utente de saúde" aqui fica a minha já longa perplexidade: mas se eu sou "utente de saúde", por que razão não consegui nunca fazer um "check-up" preventivo, de forma a poder ser ajudada medicamente a conhecer as minhas forças e fraquezas e os meios de me conservar sã? Afinal é de saúde que se trata e não do seu contrário... Estes "eufemismos" socialmente impostos, às vezes, mais não são que o camuflar de qualquer realidade que se pretende ocultar...

terça-feira, 24 de março de 2009

Dia Nacional do Estudante / Dia Mundial da Tuberculose

Sempre gostei do "Dia do Estudante": é dia do professor (e de todos os que entendem a vida como aprendizagem constante), também.
A grande alegria de ser estudante é que não se envelhece: tem-se umas "enxacacas" de vez em quando e regressa-se ao trabalho com a idade antiga (a da aprendizagem em que estamos). Até ao fim da vida, o estudante mantém o gosto da "manifestação", a ousadia da crítica e a alegria de criar: é sempre "infante" (etimologicamente, "o que não fala"), à procura de uma linguagem própria em que se diga e dê aos outros. O estudante é sempre boa pessoa.

(é necessário dizer que o "estudante" se sente acarinhado, estimulado e seguro na sociedade em que se move? É por isso que a "manifestação vem entre aspas, lá acima. É que, às vezes, o "estudante" não consegue estudar e ... revolta-se! Alguns deles vão ser, mais tarde, "mestres" e espera-se deles que nos ensinem as lições de humildade que no-los fazem considerar como tal...)

O verdadeiro estudante conhece "Pessoa" por dentro e gosta de relaxar com o elogio da preguiça, a que o Poeta chama Liberdade:
Ai que prazer
não cumprir um dever,
ter um livro para ler
e não o fazer!
Ler é maçada,
estudar é nada.
O sol doira
sem literatura.
O rio corre bem ou mal,
sem edição original.
E a brisa, essa,
de tão naturalmente matinal,
como tem tempo, não tem pressa...




Estudantes ao poder, sempre!... (não, não, não os estou a mandar para o governo, ou só há poder aí? E já que a linguagem é simbólica e oscila entre vários sentidos, deixem-me ficar com o meu e só por isso não falo hoje da outra efeméride do dia...)



"A criatividade é um tipo de processo de aprendizagem em que o professor e o aluno se encontram no mesmo indivíduo."
Autor: Koestler , Arthur

domingo, 22 de março de 2009

Dia Mundial da Água / Dia do Teatro Amador

Dia Mundial da Água

Diz quem sabe que a maior parte de nós é água (fora a água que metemos e nunca é pouca!)... E como acho que esta informação é por demais importante para ousar brincar, valho-me do querido poeta António gedeão e professor Rómulo de Carvalho e trago para aqui as suas
"Lições sobre a Água"



Este líquido é água.Quando pura
é inodora, insípida e incolor.
Reduzida a vapor,
sob tensão e a alta temperatura,
move os êmbolos das máquinas que, por isso,
se denominam máquinas de vapor.
É um bom dissolvente.

Embora com excepções mas de um modo geral,
dissolve tudo bem, bases e sais.
Congela a zero graus centesimais
e ferve a 100, quando à pressão normal.
Foi neste líquido que numa noite cálida de Verão,

sob um luar gomoso e branco de camélia,
apareceu a boiar o cadáver de Ofélia
com um nenúfar na mão.
António Gedeão


e a sua "Lágrima de Preta" e, pelo menos, fica tudo dito, por ora...


Encontrei uma preta

que estava a chorar,

pedi-lhe uma lágrima

para a analisar.

Recolhi a lágrima

com todo o cuidado

num tubo de ensaio

bem esterilizado.

Olhei-a de um lado,

do outro e de frente:

tinha um ar de gotamuito transparente.

Mandei vir os ácidos,

as bases e os sais,

as drogas usadas

em casos que tais.

Ensaiei a frio,

experimentei ao lume,

de todas as vezes

deu-me o que é costume:

nem sinais de negro,

nem vestígios de ódio.

Água (quase tudo)

e cloreto de sódio.
António Gedeão



Dia do Teatro Amador


Acho o teatro uma forma privilegiada de comunicação: no mesmo espaço e no mesmo tempo, actores e público vivem uma história com todos os riscos da vida real. Lembro com grande ternura o Luís Miguel Cintra com uma crise de riso sem conseguir acabar o texto (penso que do António José da Silva), o Mário Viegas sem conseguir continuar o texto de tantas e tã sonoras gargalhadas da plateia ("Contos do Gin Tónico") ou o tropeção e correris desajeitada do Carlos Daniel no D. Maria, quando fazia o D. João de Molière... Estas "imperfeições" do espectáculo são para mim uma mais-valia e, nos casos referidos, tornaram mais "humanos" actores que me habituei a considerar "de excelência" (como sói dizer-se, nos tempos que correm)... Que também eu fui crescendo ao ritmo destas aprendizagens... Pena que não tivesse tido mais oportunidades de, amadoramente, me enfrentar com os outros de mim (público). Para quem dá aulas, é absolutamente necessário e, infelizmente, só uma vez me constou do currículo (curso de leitores, com o Jacinto Ramos)... A verdade é que eu nem teatro amador fiz... Só que este dia me faz sempre sorrir, pois me lembro da primeira vez que, com 7 anos (ou 8), desempenhei o meu primeiro papel teatral num palco, sob orientação do Padre Manuel (que viria a ser um querido professor meu de Português no ensino secundário)... Ele era novo, claro está, para ter toda aquela paciência, mas a verdade é que conseguiu levar um grupo de criancinhas da catequese a levar à cena a "Vida de Santa Inês". Coube-me o papel da protagonista e nunca esquecerei os gritos do ensaiador por eu não conseguir parar de rir quando, já morta e sobre um palanque, os meus colegas de catequese me cantavam um hino religioso em memória de mim, a santa Inês... O próprio Padre Manuel se esboroou a rir mais de uma vez, mas tantas ameaças de "vergonha" e "responsabilidade" me fez que, no dia aprazado (terá sido num 21 de janeiro?), lhe fui uma Santa Inês digna e responsável, com direito a muitos elogios e palmas do público!... E mais não conto... Teatro, sempre e amador, para quem o assim deseje. Eu gosto!

(a ilustração é da "Santa Inês", um dos "santinhos" que coleccionava em criança e que agora reencontrei bem a propósito!...)