quinta-feira, 19 de março de 2009

Dia do Pai

O meu pai tinha os olhos azuis e contava histórias. Às vezes, no seu joelho, eu era mesmo a "Arranca-pinheiros", com os meus dois irmãos mais novos (o "Arrasa-montanhas" e o "Zé da Burra"), a demandar no outro joelho os mesmos caminhos que eu desbravara e que só o mais novo conseguia decifrar. É claro que o "Zé da Burra" sorria sempre de satisfação: afinal, o menos promissor (menos idade, menos força, menos "esperteza saloia"...) acabava sempre por sair coroado de herói naquelas aventuras... E olha, lá me fui habituando a que, quando não é à primeira, nem à segunda, é a terceira, já que o objectivo da demanda é sempre o mesmo, até que alguém o cumpra... Felizmente, já fui "Zé da Burra" umas quantas vezes na vida e... gostei muito.

De que alturas falam os pais, quando nos contam histórias na infância? A que mundo de fantasia as vamos recuperar?... Sempre actuais, elas são-nos lastro de vida e o amor com que nos foram contadas vem sempre aureolado de uns olhos azuis de cristal sossegado e de um baloiço de pernas que conduz ao caminho da "princesa do pai"...


(no ano passado, deixou de ir ao jardim dar uma volta e depois deixou de dormir em casa e... não voltou... ... ... mas continua a ter olhos azuis, a contar histórias e a apontar-me o caminho do terceiro filho dos contos tradicionais... acho que ia gostar do Papageno que tem uma plumagem azul de África, da cor da imaginação que bailava nos seus olhos... Fica aqui para ele... Beijinhos.)

quarta-feira, 11 de março de 2009

Dia Europeu pelas Vítimas do Terrorismo

Não há guerra que não seja "guerra santa", quando ouvimos argumentos que a sustêm ("Que promessas de reinos e de minas / De ouro, que lhe farás tão facilmente? / Que famas lhe prometerás? Que histórias? / Que triunfos? Que palmas? Que vitórias?" Os Lusíadas, IV, 97).
E não há guerra que não seja a do terror ("Alguns vão dizendo e blasfemando / Do primeiro que a guerra fez no mundo; / Outros a sede dura vão culpando / Do peito cobiçoso e sitibundo, / Que, por tomar o alheio, o miserando / Povo aventura às penas do Profundo / Deixando tantas mães, tantas esposas, / Sem filhos, sem maridos, desditosas.", Os Lusíadas, IV, 44).

Turva de sangue, a bandeira da "guerra santa" só conhece a palavra "paixão": excesso de alma que rápido pode transmutar o amor em ódio e sossobrar no reverso da "paixão amorosa"( a "paixão que mata"). E da "Paixão de Cristo", todos os cristãos sabem...


Seguem alguns pensamentos sobre o tema, que há sempre algum à nossa espera para nos fazer companhia.


"A melhor arma política é a arma do terror. A crueldade gera respeito. Podem odiar-nos, se quiserem. Não queremos que nos amem. Queremos que nos temam."
- Heinrich Himmler; Discurso para oficiais da SS em Kharkov


"Creio no riso e nas lágrimas como antídotos contra o ódio e o terror."
- Charles Chaplin


"O melhor meio de os Estados Unidos combaterem o terrorismo é deixarem de ser um dos principais terroristas do mundo."
- Noam Chomsky


"Olho por olho, e o mundo acabará cego".
- Mahatma Gandhi


"Grande guerreiro? Guerra não faz 'grande' ninguém".
- Yoda, Mestre Jedi, personagem da séria Star Wars criada por George Lucas


"Nunca houve uma guerra boa nem uma paz ruim."
- There never was a good war or a bad peace.
- Benjamin Franklin; Carta a Josiah Quincy (11 de setembro de 1783)


"O homem deve amar a paz como meio para outras guerras!"
- Ihr sollt den Frieden lieben als Mittel zu neuen Kriegen.
- Also sprach Zarathustra: Ein Buch für alle und keinen mit Peter Gasts Einführung und einem Nachwort - Página 49, de Friedrich Wilhelm Nietzsche - Publicado por A. Kröner, 1930 - 426 páginas


"Os autores não conseguem escrever tão rápido como os governos fazem guerras. Escrever requer trabalho de pensar."
- Bertolt Brecht


"Em tempo de guerra, a primeira vítima é a verdade."
- When War is declared Truth is the first casualty
- Made in U.S.A.‎ - Página 169, de Boake Carter - Publicado por Dodge Publishing Company, 1938 - 234 páginas
- In time of war the first casualty is truth


"Há quem passe pelo bosque e só veja lenha para a fogueira"
- Leon Tolstói

É a guerra aquele monstro, que se sustenta das fazendas, do sangue, das vidas, e quanto mais come e consome, tanto menos se farta."
- Antônio Vieira


"Quanto mais armas militares um país produzir, mais inseguro ele se tornará: se você tem armas, torna-se alvo para ataque."
- Albert Einstein

domingo, 8 de março de 2009

Dia da Mulher / aniversário de João de Deus

Há dias reencontrei este poema de Pessoa e decidi trazê-lo para o meu "Dia da Mulher". Bem longe do que esperaria aqui escrever sobre o assunto, acabei por me render à beleza dos versos. E - que me perdoe o poeta - mas, sendo tão citado, decidi só lhe registar dos versos os que mais me deram "a surpresa de ser". A rimar em beleza, a ilustração é de Leonardo da Vinci, imagem que me acompanha desde há muitos anos a esta parte, como um "Hino à Mulher".


Dá a surpresa de ser.
(...)
Apetece como um barco.
Tem qualquer coisa de gomo.
Meu Deus, quando é que eu embarco?
Ó fome, quando é que eu como?
Fernando Pessoa, Cancioneiro

sábado, 7 de março de 2009

Ribeiro Sanches faz 310 anos...


António Nunes Ribeiro Sanches, estrangeirado ecléctico e com grandes serviços à Nação (que, até ao fim, o impediu de regressar a Portugal, por ser de origem judaica), faz hoje 310 anos. Sobre ele ficam estes links, deixando para outra altura o texto que gostava de escrever. Afinal, devo-lhe o "orgulho" de ser penamacorense, assisti à inauguração do seu busto no largo da Câmara e iniciei a minha vida profissional na escola que aí ostenta o seu nome.


Ainda assim e porque nos tempos que correm as áreas do Ensino e Educação no nosso país continuam agitadas e muito "conflituosas", decidi aqui deixar um pouco da minha preocupação, através de breves excertos da obra de Ribeiro Sanches e da de Luís de Camões:

“… Além disso o povo não faz boas nem más acções e raríssimas vezes se move por sistema nem por reflexão: será cortês ou grosseiro, sisudo ou ralhador, pacífico ou insultador, conforme for tratado pelo seu cura, pelo seu juiz, pelo escudeiro ou lavrador honrado. O povo imita as acções dos seus maiores. A gente das vilas imita o trato das cidades à roda; as cidades o trato da capital; e a capital o da corte. Deste modo, que a mocidade plebeia tenha ou não mestre, os costumes, que tiver serão sempre a imitação dos que virem nos seus maiores, e não do ensino que tiveram nas escolas …”.
in Cartas sobre a Educação da Mocidade

E é por estas razões que me "atrapalham" os atropelos constantes à língua portuguesa, oriundos dos que Ribeiro Sanches apelida de "maiores". Nestas alturas vem-me à memória Os Lusíadas e prefiro que seja Camões a desancar epicamente esses "maiores" quando não o sabem ser :

"Enfim, não houve forte Capitão
Que não fosse também douto e ciente,
Da Lácia, Grega ou Bárbara nação,
Senão da Portuguesa tão-somente.
Sem vergonha o não digo, que a razão
De algum não ser por versos excelente
É não se ver prezado o verso e a rima,
Porque quem não sabe arte, não na estima."
in Os Lusíadas, V, 97


(Bom, bom... Este tom não é o da toada de "umdiapormuitosebonsanos" ... A verdade é que hoje é o dia de "Parabéns a Você" do menino António Nunes Ribeiro Sanches e além de uma salva de palmas, deixo-lhe uma fotografia bem mais bonita do que aquela com que convivi nos idos de Penamacor..)

domingo, 22 de fevereiro de 2009

Dia Europeu da Vítima de Crime


Nunca me esqueci de uma reportagem que li, há anos, sobre as vítimas do crime do Holocausto nazi: a maioria dos sobreviventes recusava-se a falar sobre o assunto, já que "ninguém perceberia do sofrimento inflingido" (palavras minhas).
Tenho dúvidas cada vez maiores sobre a bondade de algumas curas psicanalíticas e afins: recordar, escalpelizar traumas é mergulhar de novo no "caos" e a verdade é que as palavras em situações - limite nos faltam, porque se fala do "inverosímil, do será verdade?, de traições e abandonos cruéis, seja de pessoas, seja de ideais / valores humanos" e essa não é a linguagem da ciência, que se quer objectiva, racional, coerente... Nessas alturas, o que é absolutamente necessário é amor e a única luta que cada um de nós faz é a da sobrevivência e a do amor à vida... Quando deparamos com a nossa vida a ser condicionada por mentiras bem urdidas por detrás das nossas costas, cobardemente cimentadas e arreigadas até lhes sentirmos a aleivosia "oficial" (ou, pior ainda, oficializada) no nosso dia-a-dia, percebemos que as palavras - se as soltarmos - vêm cheias da mágoa e do ressentimento de que as próprias mentiras são urdidas. O melhor mesmo é o silêncio, até ao momento em que ele nos não emparede e afaste da "realidade social" onde há de outras coisas, para além de mentiras e traições.
Quanto a mim, e por enquanto, acho que quem quer ajudar só deve falar da verdade do mundo, sendo que essa verdade é do mundo dos arquétipos e a mentira uma espécie de "macaco de Deus", devendo por isso esta última ser o menos nomeada possível. Não se fale de "caos" a quem lhe sobreviveu e quem quiser dele conhecer oxalá o faça de forma e com o único objectivo de - como moléstia que é - o evitar na Humanidade.
Dê-se à "vítima de crime" a única coisa que o restaura como ser Humano: Amor. Eu "só sei que vou por aqui". E não peço desculpa ao querido poeta José Régio por lhe ter invertido o verso do seu "Cântico Negro". É que ele me tem feito companhia ao longo da vida e a força (bruta) com que reage à sociedade tem o seu correlato no amor que dedica ao Universo.

sábado, 21 de fevereiro de 2009

Dia Internacional da Língua Materna (e da Luísa!...)

... e porque também é o dia dos meus anos e me sinto felicíssima por a Unesco ter escolhido o meu aniversário para consagrar a "Língua Materna" (sim, porque essa foi a verdadeira razão para fazer recair esta efeméride neste dia... digo eu, desde 1999... só neste dia, claro, que nos outros sou menos mimada, com muita pena minha...)...




... e porque tive como prenda de anos dos meus gatos (João Ratão e Carochinha) um belíssimo psitacídeo que eles encurralaram à altura do meu braço na pimenteira do jardim... e ele é lindíssimo, todo vestido de festa em salmão e dégradés de verde e azul e hoje já aprendeu um pouco de "língua materna" (clics e clacs que são beijinhos, sons de diferente altura e timbre que ainda não consegui decifrar e...)


... e porque é bom fazer anos e celebrar o "Dia Internacional da Língua Materna" com todos os "meninos" do mundo...,
aqui ficam três bombons em jeito de imagens (não é verdade, é ao contrário...)

e "que...", como dizia Holderlin "... quando o silêncio volte / haja também uma língua", que pode ser a língua materna da Humanidade inteira.