segunda-feira, 8 de setembro de 2008

Dia Internacional da Alfabetização / Dia da Solidariedade das Cidades Património Mundial

Vi um filme no cinema Nimas há cerca de 20 anos, de que infelizmente esqueci praticamente todos os dados (realizador?, país: Turquia?), mas que me marcou profundamente: um "patchwork de belíssimas paisagens, habitadas por um povo com vivências praticamente tribais, onde as crianças eram educativamente amadas por sabedorias ancestrais, aprendendo a sabedoria das cores e... não consigo explicar! Tenho de visitar os arcanos da memória e tentar relembrar-me do filme e das razões do agradecimento com que fiquei por tanta beleza, naquela tarde de Primavera ou Verão, em Lisboa... Claro que tudo isto vem a propósito de "alfabetização"...
(...)
Desconfio que o filme era do Emir Kusturika e talvez "O Povo dos Ciganos" e creio ter associado na altura a Bósnia ao nosso romanceiro "sefardi" (deve ser ele...). Como frequentemente acontece, retenho para a eternidade o que me faz feliz e do chamado "enredo " pouco me lembra. Sempre fui pouco cinéfila e talvez por isso guarde memórias plásticas de beleza (caso também do filme "Milho Vermelho" de um realizador chinês), musicais, antropológicas e de certas representações ditas "teatrais"... Mas que era um filme sobre "alfabetização", para mim, ai isso era! Tenho de rever esse Kusturika e ver outros para ver se encontro finalmente o "esplendor" inabitual que aquele filme me causou (...Dantes, ensinava-se assim... e era pela e na beleza). Ontem, encontrei por acaso esta citação na net, atribuída a Dostoievsky (será o da minha adolescência? Foi um amigo inolvidável e muita da minha alfabetização vem também dele!):
"Only beauty will save the world!" (Oxalá seja mesmo do Fedor... Percebia melhor a minha atracção por ele, durante tantos e tantos anos...)
Ah!... E, a propósito de alfabetização: não há "arte" que não alfabetize e a Beleza é uma grande mestra ("Beauty is in the eye of the beholder")

sábado, 23 de agosto de 2008

Dia Internacional da Recordação do Tráfico Negreiro e da sua Abolição

Há o dia exacto para falarmos e esse dia não tem tempo.

Enquanto as palavras nos faltarem, mais vale ouvir as de Vieira (século XVII), que também ele comemou esta efeméride, no terreno, e durante toda a sua vida (e bem caro pagou por isso, no seu tempo, claro, que hoje o ouvimos, clari-vidente).



"Ah, fazendas do Maranhão, que se esses mantos e essas capas se torceram, haviam de lançar sangue!"
Sermão das Tentações, S. Luís do Maranhão


"Em qualquer parte do mundo se pode verificar o que Isaías diz dos príncipes de Jerusalém: os teus príncipes são companheiros dos ladrões. E porquê? São companheiros dos ladrões, porque os dissimulam; são companheiros dos ladrões, porque lhes dão os postos e os poderes; são companheiros dos ladrões, porque talvez os defendam; e são, finalmente, seus companheiros, porque os acompanham e hão-de acompanhar ao inferno, onde os mesmos ladrões os levam consigo".
Sermão do Bom Ladrão (Lisboa, Igreja da Misericórdia, sexta-feira santa de 1655)


Se conhecemos os referentes espacio-temporais que enformam os sermões (defesa dos Índios do Maranhão, sociedades Portuguesa e Brasileira no século XVII...), a verdade é que as palavras do nosso "Imperador da Língua Portuguesa" nos são eternas pelo que acarretam de intemporalidade do literário (na forma) e de defesa dos valores humanos (no conteúdo)... Aliás, o excerto do segundo sermão citado disso nos dá conta ("Em qualquer parte do mundo")...


Apetece ou não apetece contar histórias de hoje (e sempre), começando por "Há muito, muito tempo, num reino distante..."?!... Era dessas que eu gostava de contar, ai isso era... Quando eu for grande... vou escrever para os pequenos... e depois...: viveram felizes para sempre...

terça-feira, 19 de agosto de 2008

Dia Mundial da Fotografia

As minhas fotografias preferidas são as que ultrapassaram a dimensão de espaço / tempo e são simplesmente oferta de eternidade a quem as vê.


Obrigada aos fotógrafos... e à Carla, que nos deu esta sua belíssima "alvorada".

sábado, 9 de agosto de 2008

Dia Internacional dos Povos Indígenas



Há muito tempo que não oiço a palavra "indígena" a ninguém, em sentido pejorativo. Provavelmente caiu em desuso, já que, entretanto, se lhe importaram tatuagens, piercings e outras manifestações culturais e religiosas com que normalmente se ritualizava... A sociedade vive desta necessidade de "integrar" as chamadas "franjas" e a linguagem vai traduzindo este vaivém dinâmico entre os diversos grupos e as relações que entre si vão entretecendo.
Deixando de lado deambulações mais ou menos sociológicas, prefiro recordar este dia pela voz de eternidade de Camões e de António Vieira. É melhor ouvi-los e ver como se encantaram com os "indígenas" ...




Aquela cativa
que me tem cativo
porque nela vivo
já não quer que viva


(...)


Luís de Camões, redondilha 105






"vós, a quem Deus vestiu do pé até à cabeça, ou de peles de tão vistosas e apropriadas cores, ou de escamas prateadas e doiradas, vestidos que nunca se rompem, nem gastam com o tempo, nem se variam ou podem variar com as modas..."


Padre António Vieira, Sermão de Santo António aos Peixes, IV




É claro que também falam para os que vilipendiam, subjugam, atraiçoam e matam estes povos... Veja-se como exemplo, em Camões, a "Esparsa ao Desconcerto do Mundo"

Os bons vi sempre passar
no mundo graves tormentos,
e, para mais me espantar,
os maus vi sempre nadar
em mar de contentamentos (...)

magistral síntese do mal-estar social no país dos "colonos" de Vieira:

"Cuidais que só os Tapuias se comem uns aos outros? Muito maior açougue é o de cá, muito mais se comem os Brancos. Vedes vós todo aquele bulir, vedes todo aquele andar, vedes aquele concorrer às praças e cruzar as ruas; vedes aquele subir e descer as calçadas, vedes aquele entrar e sair sem quietação nem sossego? Pois tudo aquilo é andarem buscando os homens como hão-de comer e como se hão-de comer. (...)"
idem, ibidem

Camões e Vieira foram eles próprios "indígenas", socialmente rejeitados e presos por serem, culturalmente, diferentes (pensavam e pensavam-se: ousavam sonhar o papel do Homem no Universo!...)
Fiquemo-nos pelo encantamento deles perante os "indígenas" (os outros deles próprios)...
(Tanto mais que, hoje, o meu gatinho Ratão faz 9 anos... Parabéns a você...)

quarta-feira, 6 de agosto de 2008

Dia de Hiroshima



Este dia é triste como efeméride. Um dia haverá em que neste dia se celebrará a descoberta de Einstein e não as consequências da traição que a Desumanidade lhe fez... E ele que alertou as Nações Unidas para o perigo iminente da Alemanha "fazer a bomba"... E não é que "fizeram a bomba" uns "alemães" quaisquer (executivos inteligentes e diligentes, ressabiados e dessonhados) e não foi da Alemanha que veio o perigo, mas do país que o acolhera (fugido da perseguição nazi)!... E eles, os sonhadores que sonhando criam e dão em humanidade a inocência de uma careta, a placidez de um cachimbo rimando com olhos doces e a conferência de alerta para quem quer continuar o sonho... não deviam ser nunca confrontados em vida com a derrocada do seu edifício de sonho (para o Bem da Humanidade, para Felicidade das Gentes...).
Não, ainda me dói demasiado e prefiro recordar este dia pelo eco em arte da arte de Einstein: as palavras do físico-poeta Gedeão (o melhor poema que li sobre o assunto) e a voz de "infante" de Ney Matogrosso a cantar a "rosa de Hiroshima" do poeta Vinicius de Morais... Aqui ficam e que a eternidade da palavra poética possa um dia vir a ser entendida com a inocência de uma careta infantil ou a placidez de um cachimbo fumado numa tarde de ócio criativo...

HORA H

A Primavera cheira a laranjas.

(Há umas granadas de mão, redondas e pequenas, a que chamam laranjas.)

O cheiro das laranjas enche a noite luarenta de mistérios.

(Dizem que as noites de luar são as melhores para bombardeamentos aéreos.)

António Gedeão, Linhas de Força, 1967

Bomba H em H(2)irOshima
Enquanto houver alguém
que sonhe
o Hidrogénio
em água
haverá alguém
que rime 2 vezes
Hiroshima
e lhe traga
finalmente o
Oxigénio.
M.LA.S. (06/08/2008)