
Se há tema que me interesse, o da "ciência" é um dos principais e isto porque fui formada academica e socialmente por muitas teorias científicas - verdades que correm o risco de ser julgadas matéria intocável numa axiomática de valores que, frequentemente, raia mais a verdade da religião ou de um dogma de fé do que a periclitante verdade da ciência. E isso é assustador. Com alguma dessa argumentação já magoei e fui magoada. É um facto que, muitas vezes, não merecemos a verdade científica que nos é legada: porque dela só devemos retirar o que contribui para a felicidade e bem-estar próprio e/ou alheio. Arrojada por natureza, a ciência perscruta o futuro e sonha-o e há que ter a paciência e humildade para lhe reconhecer as virtualidades na vida prática. É esta, a vida, que solicita à ciência o seu auxílio e quando este falha, há que arrepiar caminho, ler/fazer de outro modo ou simplesmente rejeitar o que nos enferma e tentar de novo e de outra forma. Viajante no tempo, a ciência encontra muitas vezes resistências, algumas delas dramáticas em termos humanos, deixando para trás um rasto de incompreensão, abuso de poder, tortura, mortes... É só lembrar, por exemplo, a morte de Sócrates e a tortura inquisitorial feita a Galileu por defender que era a terra a girar à volta do sol (cf. abaixo o "Poema para Galileu" de António Gedeão).
Em síntese, o que a ciência nos ensina na sua temporalidade é que as teorias são verdades cirscunstanciais e falíveis; e na sua intemporalidade, que é como qualquer acto criativo ou acto de fé um "golpe de asa" rumo aos sonhos de eternidade do Homem.
(Aqui ficam 2 links que dão conta de pensamentos de Alberto Einstein, no 1º link e de outros cientistas, como é o caso de Carlos Fiolhais, no 2º link. Coisas simples, que eu só por aqui (me) entendo...
...E como hoje continua a fazer anos o querido professor Rómulo de Carvalho, poeta António Gedeão, aqui deixo um dos poemas que prefiro e que muitas vezes dei aos meus alunos de "ciências": "Poema para Galileu"...
...E já agora, só um desabafo triste: eu acho que andam a maltratar a Estatística... No fundo, desde que se servem dela, parece que ela já não nos serve...Ai, ai, ai, ai!... Para esta não deixo link!...)
Poema para Galileo

Estou olhando o teu retrato, meu velho pisano,
aquele teu retrato que toda a gente conhece,
em que a tua bela cabeça desabrocha e floresce
sobre um modesto cabeção de pano.
Aquele retrato da Galeria dos Ofícios da tua velha Florença.
(Não, não, Galileo! Eu não disse Santo Ofício.
Disse Galeria dos Ofícios.)
Aquele retrato da Galeria dos Ofícios da requintada Florença.
Lembras-te? A Ponte Vecchio, a Loggia, a Piazza della Signoria…
Eu sei… eu sei…
As margens doces do Arno às horas pardas da melancolia.
Ai que saudade, Galileo Galilei!
Olha. Sabes? Lá em Florença
está guardado um dedo da tua mão direita num relicário.
Palavra de honra que está!
As voltas que o mundo dá!
Se calhar até há gente que pensa
que entraste no calendário.
Eu queria agradecer-te, Galileo,
a inteligência das coisas que me deste.
Eu,
e quantos milhões de homens como eu
a quem tu esclareceste,
ia jurar- que disparate, Galileo!
- e jurava a pés juntos e apostava a cabeça
sem a menor hesitação-
que os corpos caem tanto mais depressa
quanto mais pesados são.
Pois não é evidente, Galileo?
Quem acredita que um penedo caia
com a mesma rapidez que um botão de camisa ou que um seixo da praia?
Esta era a inteligência que Deus nos deu.
Estava agora a lembrar-me, Galileo,
daquela cena em que tu estavas sentado num escabelo
e tinhas à tua frente
um friso de homens doutos, hirtos, de toga e de capelo
a olharem-te severamente.
Estavam todos a ralhar contigo,
que parecia impossível que um homem da tua idade
e da tua condição,
se tivesse tornado num perigo
para a Humanidade
e para a Civilização.
Tu, embaraçado e comprometido, em silêncio mordiscavas os lábios,
e percorrias, cheio de piedade,
os rostos impenetráveis daquela fila de sábios.
Teus olhos habituados à observação dos satélites e das estrelas,
desceram lá das suas alturas
e poisaram, como aves aturdidas- parece-me que estou a vê-las -,
nas faces grávidas daquelas reverendíssimas criaturas.
E tu foste dizendo a tudo que sim, que sim senhor, que era tudo tal qual
conforme suas eminências desejavam,
e dirias que o Sol era quadrado e a Lua pentagonal
e que os astros bailavam e entoavam
à meia-noite louvores à harmonia universal.
E juraste que nunca mais repetirias
nem a ti mesmo, na própria intimidade do teu pensamento, livre e calma,
aquelas abomináveis heresias
que ensinavas e descrevias
para eterna perdição da tua alma.
Ai Galileo!
Mal sabem os teus doutos juízes, grandes senhores deste pequeno mundo
que assim mesmo, empertigados nos seus cadeirões de braços,
andavam a correr e a rolar pelos espaços
à razão de trinta quilómetros por segundo.
Tu é que sabias, Galileo Galilei.
Por isso eram teus olhos misericordiosos,
por isso era teu coração cheio de piedade,
piedade pelos homens que não precisam de sofrer, homens ditosos
a quem Deus dispensou de buscar a verdade.
Por isso estoicamente, mansamente,
resististe a todas as torturas,
a todas as angústias, a todos os contratempos,
enquanto eles, do alto incessível das suas alturas,
foram caindo,
caindo,
caindo,
caindo,
caindo sempre,
e sempre,
ininterruptamente,
na razão directa do quadrado dos tempos.
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