quarta-feira, 5 de outubro de 2011

Dia do Professor

O Professor como Mestre
Não me basta o professor honesto e cumpridor dos seus deveres; a sua norma é burocrática e vejo-o como pouco mais fazendo do que exercer a sua profissão; estou pronto a conceder-lhe todas as qualidades, uma relativa inteligência e aquele saber que lhe assegura superioridade ante a classe; acho-o digno dos louvores oficiais e das atenções das pessoas mais sérias; creio mesmo que tal distinção foi expressamente criada para ele e seus pares. De resto, é sempre possível a comparação com tipos inferiores de humanidade; e ante eles o professor exemplar aparece cheio de mérito. Simplesmente, notaremos que o ser mestre não é de modo algum um emprego e que a sua actividade se não pode aferir pelos métodos correntes; ganhar a vida é no professor um acréscimo e não o alvo; e o que importa, no seu juízo final, não é a ideia que fazem dele os homens do tempo; o que verdadeiramente há-de pesar na balança é a pedra que lançou para os alicerces do futuro.






A sua contribuição terá sido mínima se o não moveu a tomar o caminho de mestre um imenso amor da humanidade e a clara inteligência dos destinos a que o espírito o chama; errou o que se fez professor e desconfia dos homens, se defende deles, evita ir ao seu encontro de coração aberto, paga falta com falta e se mantém na moral da luta; esse jamais tornará melhores os seus alunos; poderão ser excelentes as palavras que profere; mas o moço que o escuta vai rindo por dentro porque só o exemplo o abala. Outros há que fazem da marcha do homem sobre a Terra uma estranha concepção; vêem-no girando perpetuamente nos batidos caminhos; e, julgando o mundo por si, não descobrem em volta mais que uma eterna condenação à maldade, à cegueira e à miséria; bem no fundo da alma nenhuma luz que os alumie e solicite; porque não acreditam em progresso nenhuma vontade de melhorar; são os que troçam daquilo a que chamam «a pedagogia moderna»; são os que se riem de certos loucos que pensam o contrário.




Ora o mestre não se fez para rir; é de facto um mestre aquele de que os outros se riem, aquele de que troçam todos os prudentes e todos os bem estabelecidos; pertence-lhe ser extravagante, defender os ideais absurdos, acreditar num futuro de generosidade e de justiça, despojar-se ele próprio de comodidades e de bens, viver incerta vida, ser junto dos irmãos homens e da irmã Natureza inteligência e piedade; a ninguém terá rancor, saberá compreender todas as cóleras e todos os desprezos, pagará o mal com o bem, num esforço obstinado para que o ódio desapareça do mundo; não verá no aluno um inimigo natural, mas o mais belo dom que lhe poderiam conceder; perante ele e os outros nenhum desejo de domínio; o mestre é o homem que não manda; aconselha e canaliza, apazigua e abranda; não é a palavra que incendeia, é a palavra que faz renascer o canto alegre do pastor depois da tempestade; não o interessa vencer, nem ficar em boa posição; tornar alguém melhor — eis todo o seu programa; para si mesmo, a dádiva contínua, a humildade e o amor do próximo.


Agostinho da Silva, in 'Considerações'

quinta-feira, 15 de setembro de 2011

Aniversário de Bocage


Excessivo... explosivo... monumental na dor, no amor e nos afectos... na forma da escrita e no empolamento das paixões... temível e, às vezes, burlesco... "Eis Bocage em quem luz algum talento", dizia ele... Muito talento, acho eu...
Fica um poema satírico, onde o calão é arma de arremesso social e grito de humor e dor.



"A Água"

Meus senhores eu sou a água
que lava a cara, que lava os olhos
que lava a rata e os entrefolhos
que lava a nabiça e os agriões
que lava a piça e os colhões
que lava as damas e o que está vago
pois lava as mamas e por onde cago.

Meus senhores aqui está a água
que rega a salsa e o rabanete
que lava a língua a quem faz minete
que lava o chibo mesmo da raspa
tira o cheiro a bacalhau rasca
que bebe o homem, que bebe o cão
que lava a cona e o berbigão.

Meus senhores aqui está a água
que lava os olhos e os grelinhos
que lava a cona e os paninhos
que lava o sangue das grandes lutas
que lava sérias e lava putas
apaga o lume e o borralho
e que lava as guelras ao caralho

Meus senhores aqui está a água
que rega rosas e manjericos
que lava o bidé, que lava penicos
tira mau cheiro das algibeiras
dá de beber ás fressureiras
lava a tromba a qualquer fantoche e
lava a boca depois de um broche.

Manuel Maria Barbosa du Bocage

Vídeo: "Bocage por detrás da história", making off

terça-feira, 26 de julho de 2011

Dia dos Avós

Os avós sabem do milagre da Vida... por isso, a avó Direjná quando grigrila (canta), faz brotar a água para os seus netos e eles são felizes até que e se... 

Vale muito a pena ver esta belíssima animação sobre uma lenda boliviana... pelo amor aos avós (à terra, à Natureza, à Vida)...

Esta é uma história que é contada milenarmente pelo povo Ayoreo, da Bolívia. Dizem eles que no principio havia uma avó, que era um grilo chamado Direjná. Esta avózinha era a dona da água e por onde quer que ela passasse com seu canto de amor, a água brotava. Um dia, os netos pediram que ela fosse embora e ela partiu, triste. Mas, na medida em que ia sumindo, também a água ia embora. Neste vídeo, a história se atualiza e na sua viagem para lugar nenhum a avó é encontrada pelos empresários que a aprisionam e fazem com que ela faça a água cair apenas nos seus caminhões pipa. Então, eles vendem a água. O povo passa necessidade e sofre. A avózinha também sofre. Até que um dia, o povo entende que é preciso lutar. Então….


Vale a pena ver essa beleza de desenho animado, que representa a poderosa luta dos povos originários contra a mercantilização da natureza.


A produção foi feita na Dinamarca, por The Animation Workshop, Nicobis, Escorzo, e pela Comunidade de Animadores Bolivianos. O trabalho de desenho foi realizado por oito animadores bolivianos, dirigido por um francês, com música da embaixadora da Bolívia na França, e a ajuda de um mexicano e uma alemã. Todo juntos na defesa dos recursos naturais.

Elaine Tavares, in http://www.brasildefato.com.br/node/4499

quinta-feira, 30 de junho de 2011

Dia Mundial das Redes Sociais

(de Almada Negreiros, Lá vem a Nau Catrineta)

É rápido, prático e, muitas vezes, eficaz... Substitui o "e-mail", encontram-se pessoas com gostos idênticos, outras de quem gostamos e já não vemos há muito, mas, como é óbvio, "Nem tudo o que vem à rede é peixe", "Nem tudo o que luz é ouro", " "Quem vê caras não vê corações" e "Fia-te na Virgem e não corras, logo vês o trambolhão que levas"  etc. e tal... e como "Cuidado e caldos de galinha nunca fizeram mal a ninguém, eu sou um pouco "Pescador da Barca Bela" quanto a redes de aplicações,  jogos e outras seduções ...
Aqui, como na vida. É igual.


BARCA BELA

Pescador da barca bela,
Onde vás pescar com ela,
Que é tão bela,
Ó pescador?

Não vês que a última estrela
No céu nublado se vela?
Colhe a vela,
Ó pescador!

Deita o lanço com cautela,
Que a sereia canta bela ...
Mas cautela,
Ó pescador!

Não se enrede a rede nela,
Que perdido é remo e vela
Só de vê-la,
Ó pescador.

Pescador da barca bela,
Inda é tempo, foge dela,
Foge dela,
Ó pescador!
 Almeida Garrett, Folhas Caídas





segunda-feira, 13 de junho de 2011

Dia de Santo António / Aniversário de Fernando Pessoa

ROMANCE


Estava Santo António
um sermão a decorar,
quando o Menino Jesus
no livro lhe foi poisar,
tão bonito e tão alegre
que era mesmo de pasmar.
-Menino, olhe que amanhã
tenho muito que pregar,
andam as almas perdidas;
anda o demónio a tentar,
para vencer o demónio
tenho muito que estudar.
-António, tanta leitura
vai os teus olhos cansar,
nunca levantas a cabeça,
nunca vais apanhar ar;
leva-me em cima do livro,
vamos os dois passear.
-Mas, meu Menino, amanhã
tenho muito que pregar,
se me não ouvirem homens,
oiçam-me os peixes do mar;
as almas perdem-se todas
e eu todas lhe quero dar.
-António, as almas perdidas,
sempre as havemos de achar;
o dia está tão bonito,
estão os cravos a cheirar;
se me não levas ao colo,
co'os teus papeis vou brincar!

Afonso Lopes Vieira

"A quadra é um vaso de flores que o Povo põe à janela da sua alma. Da órbita triste do vaso escuro a graça exilada das flores atreve o seu olhar de alegria. Quem faz quadras portuguesas comunga a alma do povo, humildemente de todos nós e errante dentro de si próprio. Ser intensamente patriótico é, primeiro, valorizar em nós o indivíduo que somos, e fazer o possível por que se valorizem os nossos compatriotas, para que assim a Nação que é a suma viva dos indivíduos que a compõem, e não o amontoado de pedras e areia que compõem o seu território, ou a coleção de palavras separadas ou ligadas de que forma o seu léxico ou a sua gramática — possa orgulhar-se de nós que, porque ela nos criou, somos seus filhos, e seus pais, porque a vamos criando", Fernando Pessoa

Então, para o menino Fernando que também é Pessoa, hoje mandamos umas quadras para ele pôr no seu manjerico:

O Santo António é tão crido
e querido por nós todos
que até nos dá o menino
p'ra andarmos com ele ao colo.

É certo que este Menino
já nos deu colo a nós todos...
mas esta é uma lei da vida
que nos dá grande consolo.

Hoje, o colo é do Fernando,
que só não foi de Bulhões,
enviamos-lhe estas quadras,
que nos saem dos corações.

Foi forte, belo e sadio,
pensou por ele e por nós
e com o seu desafio,
já fez de nós bons avós.

Como Pessoa o ouvimos,
com o seu silêncio sonhamos,
às vezes é um menino,
ao colo de quem amamos;

é Fernando, talvez Pessoa
ou de Bulhões seja ele...
Gostamos do Santo António
e celebramos-lhes o treze
(de Junho, claro!...)

Oh meu querido Fernando,
foste de bulha e bulhões,
por fora Fernando António,
sonhaste-nos os alçapões.

Tanta cabeça da gente
por dentro da tua, sonhada;
depois do perigo ingente,
saímos de alma elevada.

Acho que foi Santo António
que te foi pegando ao colo
e que tocando o harmónio,
nos foste embalando a todos...

Agradece-lhe por nós
as quadras com que nos brindas
e pede-lhe que nos dê voz
p'ra lhe dar as boas-vindas

no próximo 13 de junho
do ano que se aproxima...
Bem haja ele para nós
que é o que a Vida nos destina.

(E, então, até p'ró ano... Parabéns!...)