Há blogues que nos saúdam pelo dia fora, nos trazem notícias e sonhos, nos despertam e tranquilizam, nos ajudam a desbravar caminhos, nos fazem companhia: são blogues amigos, em suma.
Vou deixar 3 links, desses que me saúdam os dias...
Um agradecimento especial aos autores das imagens, muitas vezes anónimos (ou que nós por desconhecimento, assim tornamos) e que tanto têm alegrado as minhas pesquisas...
Não sei se sou eu que sou uma teimosa de sonhos ou se são os sonhos que são uns teimosos de mim...
Não sei porque se chama Pinhal de Negreiros a uma povoação da freguesia de São Lourenço de Azeitão ( de um nome de família? de proprietários de barcos ou angariadores de negros para o tráfico de escravos? da existência pretérita de moínhos de milho e centeio, como acontece em Barcelos?...) Não sei. Soube, oralmente, pelo autor das monografias das 2 freguesias de Azeitão, Joaquim Oliveira, que daqueles pinhais também foram levadas madeiras para a construção de barcos para as nossas navegações... Na verdade, um braço de mar vindo do Tejo até Coina foi até muito tarde navegável (no "Diccionário Geographico" do século XVIII, ainda esse aspecto é referido) e a ligação Lisboa - Azeitão terá sido privilegiada por essa via, durante muito tempo.
Esta ligação ao mar e às Descobertas navega-me de quando em vez o sonho... ou porque leio desta antiga ligação ou porque passo ao lado de Pinhal de Negreiros e o nome não se me deixa passar sem história ou lenda ou porque no pequeno quintal-jardim onde semeio breves hortículas ou flores, a terra - muito arenosa- insiste em falar de passados já longínquos não sei se com saudades do mar se com saudades de adubo e é por aqui que me quedo e lá lhe ofereço do que de necessita para me alimentar os sonhos e saúde do presente...
Hoje, particularmente, um registo histórico me compraz:
" A 7 de Outubro de 1364, D. Pedro I, em carta enviada aos Juízes de Sesimbra ordena que :
"... a dita quinta [da Nogueira, que poderá estar na origem de Vila Nogueira de Azeitão]seja coutada ... e os seus caseiros e foreiros sejam quites e isentos de servir em hostes nem fossado, nemem galés , nem em frota nenhuma nem vão velar no logo de Sesimbra nem em outros lugares e sejam isentos dadita servidão ..." in Joaquim Oliveira, Monografia de São Lourenço de Azeitão
(e como os sonhos são teimosos e eles lá sabem porquê e eu sou fã da polémica Igreja do arquitecto Troufa Real e gostava muito de a ter aqui mais por perto e por aqui foi proibido "in illo illo tempore" a escravidão nas galés e... porque gosto e porque sim... fica a rimar com a efeméride do dia a supradita e bem por mim amada Igreja das Galés, Galeões e Galeotas, estas últimas também eternizadas num topónimo de Azeitão.
Hoje, é dia de todas as "Senhoras". Consulte-se o Borda d'Água, Wikipedia ou qualquer site de Feriados, Festas, Romarias e ver-se-á a quantidade de "Nossas Senhoras" que hoje são celebradas... Porquê? Não sei. Mas há vários anos a esta parte que sempre me defronto, neste dia, com esta perplexidade (é que o Cristianismo adoptou normalmente os dias festivos de antigas religiões para os seus dias de festa litúrgica...). Na verdade, a referência mais antiga que encontrei foi a das celebrações em honra de Hécate, deusa dos Infernos e da morte na antiga Grécia... Diga-se aliás que uma Deusa, no meu imaginário, temível e vingativa e, por isso mesmo, nos antípodas da "Nossa Senhora da Assunção" cristã que, ao ser elevada ao Céu em corpo e alma, mais facilmente nos ultrapassará o trauma da morte... De referir também que a 15 de Agosto é igualmente cultuada a "Nossa Senhora da Boa Morte" (por oposição à "má morte" que Hécate parecia reger?)...
Há uns anos atrás, conheci por acaso e numa viagem de 15 de Agosto, o culto à Senhora da Boa Morte (oferecida por D. José I ) na Igreja do Louriçal, pertencente a Pombal... Fiquei impressionada... nunca imaginara Nossa Senhora a não ser em glória e só assim a conhecia da minha formação católica de criança. O 2º link parece-me sábio e aponta uma justificação: o culto à Senhora da Boa Morte precede o de Nossa Senhora da Assunção que, só muito tarde, será admitido pela Igreja.
É dia, pois, de celebrar a vida (e a sua eternidade...)
Fico-me por Pessoa, sabe-se lá porquê (mistérios da vida!...)
"Desvendadas a noite e a cerração, As tormentas passadas e o mistério, Abria em flor o Longe, e o Sul Sidério Splendia sobre as naus da iniciação."
in Fernando Pessoa, "Horizonte", Mensagem
N. B. Só hoje, 17 de Agosto, me lembrei da festa do "Palio" de Siena (Itália), onde estive 2 anos a 15/08, vésperas da grande corrida do "Palio" de Nossa Senhora da Assunção. Adoro Siena e toda a sua envolvência medieval´: sou fã (seja lá o que isso for!). Eu sou adepta do "Onda" (cujo estandarte tem um golfinho), mas este ano ganhou a "Tartuca" (tartaruga)... O que é que esta festa tem a ver com o tema do dia? Pois bem, trata-se do "Palio dell Assunta", ou seja, em honra de Nossa Srª da Assunção, belissimamente tratada plasticamente nas várias "contradas", como se pode ver no link abaixo: http://www.ilpalio.org/dratar5.htm
(e, já agora, nunca vi chão mais belo que o do "Duomo" de Siena, todo revestido a mosaico com as várias Sibilas. Pode ser que um dia digitalize os postais ilustrados que ainda guardo de lá!)...
“Méfiez-vous des rêves de jeunesse, ils finissent toujours par se réaliser”
Goethe 1749-1832
Isto de se ter heróis tem as suas vantagens: é que não envelhecem, nem mudam de feitio...
E eu cá continuo à boleia ( e à bolina) da sua juventude: o pragmático salvador "Gato das Botas", a ingénua contestatária "Mafaldinha", o gargalhada fácil "Obélix", a sexy e musical "Pantera Cor-de-Rosa", o oportuno e sagaz "Jolly Jumper", o ecologista militante "Idéiafix"... e, por hoje, chega... Vou até lá fora ver se encontro algum (que eles lá vão encarnando por aí e sempre dou descanso à direita, que hoje é dia do canhoto e eu gostava muito de ser ambidextra, mas...)
P.S. Fui, vim, não encontrei nenhum dos meus heróis, o vento empurrou-me para casa e encontrei um poema de texto e imagem, aqui... é de um artista iraquiano, Hassan Massoudy e gostei muito da sua interpretação de juventude! Acabou por ser ele o herói do texto (sozinho, chegava...)
"(...)Vós virais os olhos para os matos e para o sertão? Para cá, para cá: para a cidade é que haveis de olhar. Cuidais que só os Tapuias se comem uns aos outros? Muito maior açougue é o de cá, muito mais se comem os brancos. Vedes vós todo aquele bulir, vedes todo aquele andar, vedes aquele concorrer às praças e cruzar as ruas; vedes aquele subir e descer as calçadas, vedes aquele entrar e sair sem quietação nem sossego? Pois tudo aquilo é andarem buscando os homens como hão-de comer e como se hão-de comer. (...)»
Padre António Vieira, Sermão de Santo António aos Peixes
Hoje, é dia do Índio de todos nós, neste blogue (para a próxima, fica a Pocahontas)...