terça-feira, 10 de novembro de 2009

Dia Mundial da Ciência ao Serviço da Paz e do Desenvolvimento

Pedra Filosofal
Eles não sabem que o sonho
é uma constante da vida
tão concreta e definida
como outra coisa qualquer,
como esta pedra cinzenta
em que me sento e descanso,
como este ribeiro manso
em serenos sobressaltos,
como estes pinheiros altos
que em verde e oiro se agitam,
como estas aves que gritam
em bebedeiras de azul.
Eles não sabem que o sonho
é vinho, é espuma, é fermento
,
bichinho álacre e sedento,
de focinho pontiagudo,
que fossa através de tudo
num perpétuo movimento.

Eles não sabem que o sonho
é tela, é cor, é pincel,
base, fuste, capitel,
arco em ogiva, vitral,
pináculo de catedral,
contraponto, sinfonia,
máscara grega, magia,
que é retorta de alquimista,
mapa do mundo distante,
rosa-dos-ventos, Infante,
caravela quinhentista,
que é Cabo da Boa Esperanca,
ouro, canela, marfim,
florete de espadachim,
bastidor, passo de dança,
Colombina e Arlequim,
passarola voadora,
pára-raios, locomotiva,
barco de proa festiva,
alto-forno, geradora,
cisão do átomo, radar,
ultra-som, televisão,
desembarque em foguetão
na superfície lunar.

Eles não sabem, nem sonham,
que o sonho comanda a vida.
Que sempre que um homem sonha
o mundo pula e avança
como bola colorida
entre as mãos duma criança.


António Gedeão, Movimento Perpétuo, 1956

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

Dia Internacional contra o Fascismo e o Anti-semitismo

Andy Warhol retratou alguns judeus e eu gosto muito desta série de retratos. Aqui ficam três de três personalidades que por razões diferentes me são muito caras... Albert Einstein, Franz Kafka, Sigmund Freud, George Gershwin, Sarah Bernhardt, irmãos Marx...Ribeiro Sanches... tantos, tantos que para além de nos continuarem a educar, têm em comum o facto de ser judeus...
"Era uma vez um pintor que tinha um aquário e, dentro do aquário, um peixe encarnado. Vivia o peixe tranquilamente acompanhado pela sua cor encarnada, quando a certa altura começou a tornar-se negro a partir - digamos - de dentro. (...) o artista pintou na sua tela um peixe amarelo" Herberto Helder, Retrato em Movimento, II

domingo, 8 de novembro de 2009

Dia Mundial do Urbanismo

Parece que vamos ter passeios-esplanada no Terreiro do Paço. Que bom! Cada vez que ali me desloco, não consigo deixar de pensar em Veneza e na Praça de São Marcos... Oxalá as esplanadas se encham de orquestras, os cafés e restaurantes das boas iguarias portuguesas e um bom café ( a nossa "bica") e um bom chocolate quente nas noites de névoa e neblina sobre o rio e a praça... e muitas, muitas passeatas a pé e muito silêncio habitado pela música e pelos pombos que, tal como em Veneza, já lá estão e são felizes e são bons comensais e convivas... (e que os nossos artistas aí sejam felizes e nós todos felizes também...)
Ainda bem que alguém decidiu "ouvir" a Praça...

(e vamos lá ver se os "habitantes" da Praça não são os do imperial "Domínio dos Deuses" De Uderzo e Goscinny, que "ces romains sont fous"... antes os de Veneza, que pelo menos protegiam e viviam as artes)...

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

Dia Internacional para a Prevenção da Exploração do Meio Ambiente em Tempos de Guerra e Conflito Armado

A Guerra que Aflige com seus Esquadrões
A guerra, que aflige com os seus esquadrões o Mundo,
É o tipo perfeito do erro da filosofia.

A guerra, como tudo humano, quer alterar.
Mas a guerra, mais do que tudo, quer alterar e alterar muito
E alterar depressa.

Mas a guerra inflige a morte.
E a morte é o desprezo do Universo por nós.
Tendo por consequência a morte, a guerra prova que é falsa.
Sendo falsa, prova que é falso todo o querer-alterar.

Deixemos o universo exterior e os outros homens onde a Natureza os pôs.

Tudo é orgulho e inconsciência.
Tudo é querer mexer-se, fazer coisas, deixar rasto.
Para o coração e o comandante dos esquadrões
Regressa aos bocados o universo exterior.

A química directa da Natureza
Não deixa lugar vago para o pensamento.

A humanidade é uma revolta de escravos.
A humanidade é um governo usurpado pelo povo.
Existe porque usurpou, mas erra porque usurpar é não ter direito.

Deixai existir o mundo exterior e a humanidade natural!
Paz a todas as coisas pré-humanas, mesmo no homem,
Paz à essência inteiramente exterior do Universo!

Alberto Caeiro,Poemas Inconjuntos

terça-feira, 3 de novembro de 2009

Dia Mundial do homem

Homens à Beira-mar

(Jean Flandrin Hippolyte ( 1809-1864) , Jovem nu sentado à beira-mar, ...)

Nada trazem consigo. As imagens
Que encontram, vão-se delas despedindo,
Nada trazem consigo, pois partiram
Sós e nus, desde sempre, e os seus caminhos
Levam só ao espaço como o vento.

Embalados no próprio movimento,
Como se andar calasse algum tormento,
O seu olhar fixou-se para sempre
Na aparição sem fim dos horizontes.

Como o animal que sente ao longe as fontes,
Tudo neles se cala para auscultar
O coração crescente da distância,
E longínqua lhes é a própria ânsia.

É-lhes longínquo o sol quando os consome,
É-lhes longínqua noite e a sua fome.
É-lhes longínquo o próprio corpo e o traço,
Que deixam pela areia, passo a passo.

Porque o calor do sol não os consome,
Porque o frio da noite não os gela,
E nem sequer lhes dói a própria fome,
E é-lhes estranho até o próprio rasto.

Nenhum jardim, nenhum olhar os prende,
Intactos nas paisagens onde chegam
Só encontram o longe que se afasta,
As aves estrangeiras que os traspassam,
E o seu corpo é só um nó de frio
Em busca de mais mar e mais vazio.

Sophia de Mello Breyner Andresen in Poesias I-III (1944)


Mulheres à beira-mar

Confundindo os seus cabelos com os cabelos do vento,
têm o corpo feliz de ser tão seu e tão denso em plena liberdade.

Lançam os braços pela praia fora e a brancura dos pulsos penetra nas espumas.

Passam aves de asas agudas e a curva dos seus olhos
prolonga o interminável rastro no céu branco.

Com a boca colada ao horizonte aspiram longamente
a virgindade de um mundo que nasceu.

O extremo dos seus dedos toca o cimo de delícia
e vertigem onde o ar acaba e começa.

E aos seus ombros cola-se uma alga, feliz de ser tão verde.

Sophia de Mello Breyner Andresen

domingo, 1 de novembro de 2009

Dia de Todos os Santos / Dia da Luta contra o cancro


"Distinguem-se quatro tipos de temperamento: o de quem é fácil de provocar e fácil de pacificar - esse ganha o que perde; o de quem é difícil de provocar e difícil de pacificar - esse perde o que ganha; o de quem é difícil de provocar e fácil de pacificar - esse é um santo; o de quem é fácil de provocar e difícil de pacificar - esse é um perverso."
Textos Judaicos, "Pirkei Avot 5,14"

"O hipócrita é um santo pintado; tem as mãos postas, mas não ora; o livro na mão, mas não lê; os olhos no chão, mas não se desestima."
Padre Manuel Bernardes